                                                 Transformao - Naasom A. Sousa




                   TRANSFORMAO  PARTE 1

     Voc estaria disposto a deixar sua famlia para ir defrontar-se com o perigo
absoluto e fulminante numa misso ordenada pelo Senhor?

     Alan Xavier, sim. E mostra isso ao obedecer a um chamado do Deus
altssimo, dispondo-se a sair de sua casa e encontrar Carlos, para pregar-
lhe a santa palavra e, em nome de Jesus, fazer com que se converta e
passe a seguir o caminho dos justos.
     Contudo, Carlos, por sua vez, mostra-se um homicida e traficante
de drogas que, capturado pela prpria quadrilha onde prestava seus
servios,  envolvido em um audacioso plano para assassinar os dois
agentes de polcia mais condecorados da cidade e que h tempos tenta
desmascarar a imponente Quadrilha Vip e seu misterioso lder.
     Porm, o intento dos traficantes fracassa quando o servo do Senhor
aparece, fazendo acontecer uma verdadeira reviravolta na vida de todos
os envolvidos e, junto com Carlos, de uma hora para outra, v-se sendo
culpado pelo assassinato dos dois agentes policiais e literalmente caado
pelos membros da impiedosa quadrilha, por toda a polcia e todos os
habitantes da cidade.
     Ser que Alan conseguir livrar-se do encalo de seus
perseguidores?
     E quanto a Carlos? Ser que Alan alcanar seu ntimo com a
espada de dois gumes?
     E o grande segredo da Quadrilha Vip? Conseguir Alan e Carlos
desvendar esse segredo e por um fim no imprio do crime na cidade?

                                           Naasom A. Sousa




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                          Transformao - Naasom A. Sousa




TRANSFORMAO
 Naasom A. Sousa


           PARTE 1




        Edio Letras Santas
 Copyright - 2001 by Naasom A. Sousa
    www.letrassantas.hpg.com.br




                  3
                   Transformao - Naasom A. Sousa




                   Agradecimentos especiais:

         Ofereo esta obra como uma homenagem
ao meu Senhor, pois sem Ele eu no seria capaz de
                              fazer coisa alguma.
      Igualmente  minha famlia e especialmente
                           minha querida esposa
                                  Ivone de Sousa.




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                                            Transformao - Naasom A. Sousa




      "Ento Pedro, tomando a palavra, disse: Eis que ns deixamos tudo,
e te seguimos; que receberemos?
      E Jesus disse-lhes: Em verdade vos digo que vs, que me seguistes,
quando na regenerao, o Filho do Homem se assentar no trono da Sua
glria, tambm vs assentareis sobre doze tronos, para julgar as doze
tribos d'Israel.
      E todo aquele que tiver deixado casas, ou irmos, ou irms, ou pai,
ou me, ou mulher, ou filhos, ou terras, por amor do Meu nome,
receber cem vezes tanto, e herdar a vida eterna."
                              S. Mateus 19: 27-29

     "Portanto agora nenhuma condenao h para os que esto em
Cristo Jesus, que no andam segundo a carne, mas segundo o Esprito".
                           Aos romanos 8:1

    "E assim com confiana ousemos dizer: O Senhor  o meu ajudador.
E no temerei o que me possa fazer o homem".
                            Hebreus 13: 8

   "Ento, a virgem se alegrar na dana, e tambm os jovens e os
velhos; tornarei o seu pranto em jbilo e os consolarei; TRANSFORMAREI
em regozijo e sua tristeza".
                             Jeremias 31:13




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                                                       Prlogo



A    profecia do Senhor veio at Alan Xavier por intermdio de Nilton
    Cross:
      -- Em nome do Senhor dos exrcitos te digo: Novamente estars afrente do
propsito do Senhor. Pe-te em p espera a hora de Deus, pois essa hora 
chegada. Busca-o e tudo te ser revelado. Irs ao encontro do perigo, mas no
temers; Ele estar contigo onde quer que andares. Muitos sero os abismos para
te tragar, mas a mo do Senhor se estender e te livrar. Assim como Ele foi
contigo uma vez, novamente ser e Ele ser glorificado para todo sempre.
      As lgrimas desceram quentes pelo rosto redondo de Alan e
repousaram sobre um dos grossos bancos da Primeira Igreja Crist de
Melmar onde se encontrava a orar.
      Naquela noite, na viglia da sexta-feira, ele exaltou a Deus por
escolh-lo mais uma vez para receber sua Palavra e cumpri-la. Ele estaria
preparado, como da ltima vez.

                                   &&&

    Com a mente disturbada, o agente de polcia Caio Vieira estava com
o olhar to presente quanto distante com a trrida cena  sua frente. A
morte nos rodeia, pensou.
    -- Mais um, meu Deus! -- Protestou, sem piscar.
    Ao seu lado, no menos chocado, estava Pablo Tavares, seu
parceiro. Os dois encontravam-se ajoelhados ao lado de um corpo
carbonizado.


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                                             Transformao - Naasom A. Sousa



     -- Com este j so vinte e um -- afirmou Pablo, passando a mo
pelos cabelos loiros. Estudou a rea em que estava: Um beco escuro e
mal cheiroso como vrios espalhados pela cidade. Malditos becos,
praguejou, s servem para amontoar lixo e ser ponto certo para a desova de
corpos! Voltou-se para trs e pde ver dois refletores iluminando o local
onde estavam. Alguns tiras se encontravam tendo dificuldades para
segurar os reprteres urubus. Neste momento pensou em Caroline. Ele
no se referia a ela. A fita amarela estava isolando a rea do crime, e os
curiosos, mesmo  uma hora da madrugada, ainda teimavam em ficar
por detrs dela a fim de poder ter algo para contar aos seus amigos de
outros bairros ou familiares que moravam distante.
     Seus olhos voltaram-se novamente para a figura retorcida  sua
frente. Tinham-no encontrado a exatamente quarenta minutos atrs.
Mais uma vez, o comunicado fra dado por um membro da quadrilha
atravs de um telefonema. Pablo ainda se lembrava da voz grave aos
seus ouvidos e de tudo o que tinha dito e ouvido quando atendera:
     -- Al, central de polcia de Melmar, Pablo falando...
     -- Voc se deu bem mais uma vez, mas mais um morreu por sua
causa...
     -- Desgraado!!!
     -- Ainda esto  procura do oficial Collina? No precisam mais
procurar. Ele est no beco Boris Duter na rua 17. Esse  mais um
presente para voc, heri.
     Agora, Pablo fitava o seu presente. Sentiu vontade de gritar de dio,
expor sua ira. Segurou-se. Notou que, como os anteriores, o distintivo
estava em cima do corpo enegrecido. Estendeu a mo com um leno,
segurou a identificao de metal agora sem brilho e olhou a numerao.
A nova vtima, de fato, era Cssio Collina, oficial de polcia da cidade,
desaparecido durante a mais recente batida policial, liderada por Pablo,
 refinaria de drogas da conhecida e temida Quadrilha Vip -- uma
organizao que h alguns anos tem se dado o luxo de ser denominada
de a nmero um.
     Sem tirar os olhos do distintivo do ex-policial, Pablo declarou:
     -- s vezes fico pensando se isso um dia ir acontecer com um de
ns.
     -- Espero que no -- replicou Caio.
     Levantaram-se e Pablo colocou o distintivo dentro de um saquinho
plstico transparente, entregando-o em seguida a outro policial que se
aproximou.
     --Foi tudo que encontrou? -- Indagou o policial.


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                                          Transformao - Naasom A. Sousa



     -- Hum-hum. Como das outras vezes.
     Caio respirou fundo, observando o carro do legista se aproximar.
Pablo falou alguma coisa que ele no compreendeu.
     -- O que foi que disse?
     -- Disse que temos que pressionar aquele rapaz que prendemos na
batida.
     -- O nico que restou voc quer dizer.
     --.
     --Tambm acho que devemos fazer isso.
     Pablo deu uma ltima olhada em Cssio Collina, meneou a cabea,
dizendo:
     -- Isso no pode continuar assim. Vinte e um j  um nmero alto
demais de policiais assassinados por esses crpulas.
     Mas mais um morreu por sua causa...
     Caio tocou o ombro do seu parceiro.
     -- Vamos peg-los, Pablo.
     -- Temos que peg-los, Caio -- corrigiu Pablo --, seno eles com
certeza nos pegaro.




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       Transformao - Naasom A. Sousa




                    Parte Um




A MISSO




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                                          Captulo 1

                                                     Quatro dias depois...


E   ra uma noite escura, silenciosa e mida na cidade de Melmar. 23h e
    50mim, apontava o relgio da grande e imponente torre erigida na
praa central Celso Arques. As ruas estavam desertas e
assustadoramente cobertas por uma espessa neblina. Chovia, e todas as
pessoas se recolhiam s suas casas ou, acomodadas, j repousavam em
suas camas num sono reparador. Bem, pelo menos a grande maioria. A
minoria que ainda estava de olhos bem abertos, consistia de
sonmbulos, casais recm-casados, ladres  procura do "po" dirio,
fieis telespectadores do programa das onze e meia e, entre outros,
poucos evanglicos que, ajoelhados, ligavam-se com os cus, orando;
falando com o Senhor.
     Alan Xavier era um daqueles que estavam em profundo contato
com o Altssimo. Ajoelhado em sua casa, debruava-se sobre o macio
sof de veludo que decorava sua sala de estar e clamava a Deus,
esperando algo. Algo que Deus tinha-lhe prometido revelar. Certamente
seria algo de grande importncia para o seu Criador. Deveria ser algo
glorioso. Aleluia!
     Passou-se rapidamente mais alguns minutos e Alan permanecia em
plena ligao com a glria, esperando pelo chamado do Senhor. Seu
clamor era silencioso, no querendo assim, acordar sua esposa Melina e
seus trs filhos.
     Podia-se ouvir os pingos da chuva se chocando contra o telhado e
janelas da casa, criando um ininterrupto tamborilar que parecia mais
uma pequena banda de percusso. Iria ser uma noite daquelas que


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algum dorme encolhido, coberto com um cobertor grosso para espantar
o frio.
     De repente fez-se ouvir as badaladas do relgio pendurado na
parede da sala. Doze badaladas para ser exato. Avisando que um novo
dia acabava de chegar. E em meio ao clamor incessante de Alan,
ajoelhado na sala, o Senhor dos exrcitos abriu as comportas do cu,
comeando a falar e revelar o seu propsito para com seu servo.
     Alan no mais clamava nem falava coisa alguma. Agora, somente
ouvia a voz de Deus.
     Era maravilhoso ouvir a voz do Criador. Como Joo descrevera em
Apocalipse. Era como o som de muitas guas; uma trovejante voz, mas
calma e suave como a que Elias ouviu em Primeiras Reis.
     Atentamente, Alan Xavier escutava e refletia em toda palavra que
vinha de Deus naquele momento, e, como esperava, era algo glorioso;
maravilhoso; espantoso. Era tremendo o plano do Senhor aos seus
ouvidos.
     Estou aqui, Senhor, disse ele em seu consciente. Mais uma vez me
entrego em Tuas mos e torno a me colocar  Tua disposio, novamente...
     O Senhor continuava a revelar seus planos e seus propsitos,
compartilhando suas idias e intenes. Alan se maravilhou com tudo o
que lhe era revelado, e no mais profundo do seu ser, ouviu a meiga voz
que lhe falou um simples nome: Carlos. revelou-lhe ainda o dia em que
seus desgnios e projees iriam ser colocados em prtica.
     Gloria a Ti, Senhor! Louvou Alan. Aleluia!

                               &&&

     Os ponteiros do relgio dourado pendurado na parede corriam e j
se aproximavam das duas horas da madrugada. A chuva continuava a
cair l fora, irrigando as rvores e encharcando as ruas que com certeza
amanheceriam engarrafadas.
     Alan estava deitado no sof. Agora, deixando que as lgrimas de
emoo escorressem por seu rosto. A voz maravilhosa tinha ido embora.
O recado estava entregue, e bem entregue.
     -- Carlos -- pronunciou em voz inaudvel.
     Como ser ele? Especulou Alan com um suspiro. Pensou em tudo o
que o Senhor lhe tinha dito e revelado, os planos para com Carlos e para
consigo prprio. Mas ento, se conscientizou que para alcanar xito
teria que passar por perigos fulminantes e implacveis. Alan pensou
subitamente em Jos, Vitria, Fbio e Andrey, e tambm nos diversos


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momentos perigosos que enfrentou para fazer com que se achassem e
vivessem. Relembrou o quanto fra difcil para que o trabalho fosse bem
sucedido. Mas sabia que desta vez era diferente. A batalha iria ser mais
rdua e proporcionalmente mais perigosa.
     Alan fechou os olhos e um salmo ocupou toda a sua mente,
dissipando todo pensamento conturbante:
     Aquele que habita no esconderijo do altssimo,  sombra do Onipotente
descansar. Direi ao Senhor: Ele  o meu refgio e a minha fortaleza, o meu
Deus, em quem confio. Certamente Ele te livrar do lao do passarinheiro e da
peste perniciosa. Ele te cobrir com as suas penas, e debaixo das suas asas
estars seguro; a sua fidelidade ser teu escudo e broquel. No temers o terror
noturno, nem a seta que voa de dia, nem a peste que anda na escurido, nem a
praga que destri ao meio-dia. Mil cairo ao teu lado, dez mil  tua direita, mas
tu no sers atingido. Somente com os teus olhos contemplars, e vers a
recompensa dos mpios...

                                   &&&

     Manh. Os primeiros raios de sol j despontavam sobre os telhados
de algumas casas e os pssaros iniciavam seus frenticos e animados
louvores, cantarolando ao sobrevoar as rvores ou assentados em seus
galhos. Seus piados soavam bem alto, tanto que conseguiam assim
acordar alguns moradores do bairro Atlntico. Isso inclua a Sra. Xavier,
que acabava de despertar de seu tranqilo e pesado sono.
     -- Vocs podem dizer o que tm contra algum que quer dormir
um pouco mais do que os senhores e as senhoras, hein? -- resmungou
Melina, deitada em sua cama, cobrindo a cabea com o travesseiro,
tentando abafar o cantarolar dos pssaros que se acomodavam em uma
rvore em frente  janela do seu quarto. Arrependeu-se de ter deixado a
janela entreaberta para que pudesse entrar um pouco de ar fresco
durante a chuva da noite passada a fim de no deixar assim o ar preso e
quente sufoc-la. Agora sofria as conseqncias. -- Como posso dormir
com vocs fazendo todo esse barulho?
     Ps mais presso sobre o travesseiro, abafando mais o som e tentou
pegar no sono outra vez -- j que estava com preguia de se levantar e
fechar totalmente a janela. -- Mas com os passarinhos cantando
sonoramente e sem parar de frente  sua cama, no conseguiu mais
pregar os olhos.
     -- Vocs no cansam? -- protestou, olhando para as pequeninas
aves. -- desse jeito vo acabar acordando o Alan tambm-- Ela olhou


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para o lado para constatar que seu marido ainda dormia, e o que viu foi
um lugar vazio. Alan no estava ali como pensara. -- O que aconteceu?
-- perguntou-se. -- Acordado to cedo?
     Olhou para o relgio que trabalhava em cima do criado mudo e
observou as horas: 5h e 47mim.  costume dele acordar somente s seis e
meia! Pensou ela. Levantou-se da cama, pegou o robe e vestiu por cima
de sua camisola de seda cor-de-vinho. Iniciou uma caminhada pela casa
 procura de Alan.
     -- Amor, Onde voc est?
     Melina caminhou pelo corredor, perguntando a si mesma o por qu
de Alan ter levantado da cama quela hora. Postou-se afrente do quarto
dos garotos, abriu lentamente a porta e varreu o recinto com o olhar.
Jaime e Jair dormiam tranqilos em sua beliche. Pensou que talvez Alan
poderia ter vindo v-los, como s vezes fazia, mas desta vez ele no
estava l. Sorriu ao ver o sono sem interrupes dos seus filhos. Sorte de
vocs no ter uma rvore em frente  janela deste quarto, pensou. Saiu do
quarto na ponta dos ps e fechou a porta silenciosamente. Dirigiu-se ao
quarto de Jssica, sua filha de seis anos. Abriu a porta e viu apenas a
linda menina com seus castanhos cabelos cacheados mergulhada num
sono profundo, aconchegada debaixo do cobertor, chupando o dedo.
Melina fechou a porta vagarosamente e atravessou a sala de jantar,
observando a mesa de vidro e as seis cadeiras que a rodeavam, assim
como o grande mvel de madeira colonial que guardava a porcelana, os
copos, as taas de cristal e os talheres. Caminhou at a sala e, chegando
l, a primeira coisa que viu foi Alan dormindo no sof, to encolhido
quanto podia. Aproximou-se do sof, sentou-se no cho e, de mansinho,
beijou seu marido no olho direito.
     Alan remexeu o corpo inconscientemente e balbuciou:
     -- Carlos... Carlos...
     Melina arregalou os olhos e num brado protestou:
     -- Ei, o que significa isso? Quem  Carlos?
     Alan despertou e teve que se segurar para no cair do sof.
     -- O que est acontecendo Melina? -- Perguntou ele. -- Por que
todo esse alarme?
     -- Eu que pergunto o que est acontecendo aqui, amor! Primeiro me
acordo e voc no est na cama ao meu lado, alis, pelo estado que a
encontrei, nem ao menos chegou a dormir nela. Ento, encontro voc na
sala, dormindo no sof, podendo o senhor, estar em sua cama,
confortvel e aquecido. Por fim, dou-lhe um beijo, e o que acontece?
Voc, dormindo, chama por Carlos !


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     -- Eu chamei por Carlos, enquanto dormia?
     -- Sim. Foi s eu te dar um beijo. O que significa isso? -- Melina
sorriu. -- Algum Carlos anda te beijando por a, ? -- brincou.
     Alan gargalhou.
     -- Com certeza no, meu amor.
     -- O que  ento?
     --  uma estria... hum... um tanto longa.
     -- Eu acho que eu mereo uma explicaozinha, por mais que seja...
um tanto longa.
     -- Est certo. Mas primeiro -- Alan abraou Melina e beijou-a nos
lbios -- tenho que dizer que te amo.
     -- Tambm te amo, querido.
     E Alan comeou um relatrio  Melina sobre tudo o que havia
acontecido na noite anterior: Mais uma espera pela revelao divina; a
orao  noite, adentrando outro dia; a voz do Senhor dizendo o que lhe
tinha reservado; Seus planos; a revelao; e, finalmente, o nome que
Deus lhe dera e o dia estipulado para o inicio da concretizao dos Seus
planos.
     -- E isso tudo aconteceu ontem  noite? -- Perguntou Melina,
Maravilhada.
     -- Aconteceu. Quando voc e as crianas j estavam dormindo.
Levantei da cama e vim falar com o Senhor aqui na sala, e ento,
aconteceu tudo isso que voc acabou de ouvir.
     -- Isso significa que  mais uma misso.
     -- , eu acho que sim.
     Melina pegou as mos de Alan nas suas, fitou-o nos olhos e disse,
emocionada:
     -- Glria a Deus por isso, querido.

                                &&&

     A Central de Polcia de Melmar era localizada bem no meio da
cidade. Era uma construo de tijolos bastante grande, um edifcio de
trs andares vistoso e bonito apesar de ser o lugar onde iria parar toda a
escria da cidade. Bem no alto do edifcio, podia-se ver um grande
logotipo com o braso e nome da central. A entrada era ampla, assim
como o estacionamento que a rodeava. A imensa porta por onde todos
tinham que passar primeiro, era de puro vidro e  prova de balas com as
bordas de mogno cuidadosamente envernizada. Todo o piso era de fina
cermica e todos os mveis eram de fino colonial bem acabados.


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                                            Transformao - Naasom A. Sousa



    Aquele dia havia comeado muito agitado e corrido, com mais de
dez prises em menos de duas horas. Pelo jeito, o dia iria ser "daqueles"
para todos os tiras da cidade que, ultimamente, andava muito violenta.
Os criminosos estavam mais impiedosos e dando muito trabalho a
todos. Mas afinal, isso era a qumica que fazia o mundo girar, diziam
todos os uniformizados da central.

                                &&&

     -- Veja s isto -- disse Pablo Tavares a seu parceiro Caio Tavares,
enfiando a mo no bolso da jaqueta de couro, e fechando a porta atrs de
si ao entrar em sua sala que ficava no segundo andar da central.
     Pablo era um homem alto e corpulento, tinha uma cara muito
fechada, porm era um tanto bonito. Seus olhos verdes claros chamava
bastante ateno, e seu cabelo louro cooperava para dar mais nfase ao
seu charme inconsciente.
     -- O que voc conseguiu desta vez? -- indagou Caio Tavares,
agente da diviso de narcticos com quem Pablo dividia a sala onde se
encontravam no momento. Um homem esperto e divertido que s vezes
exagerava em suas brincadeiras, de cabelos castanhos levemente
ondulados e bem aparados, olhos de um escuro profundo irresistvel e
lbios carnudos que quase sempre se ocupavam com um cigarro.
     Pablo Puxou do bolso um pedao de papel e mostrou ao parceiro (
que agora no se encontrava fumando).
     -- Um nmero de telefone? -- arriscou Caio.
     -- Exatamente.
     -- O novo nmero de Carol?
     Pablo fez cara de decepcionado, como esperasse mais eficincia nos
pensamentos de Caio.
     -- Errou por muito. Isso no  nada-mais-nada-menos do que o
nmero de contato da quadrilha. Aquele rapaz que prendemos no
suportou a presso e me soltou esse nmero.
     -- Espero que esteja certo -- murmurou Caio.
     -- Est sim -- replicou Pablo, sorrindo sinistramente --, eu posso
lhe garantir.
     --  mesmo?
     -- Hum-hum. Eu alertei-o de que se este nmero no estivesse
correto, iria coloc-lo na mesma cela que o Big Lu.
     Caio conhecia Big Lu. Era um negro enorme que abusava
sexualmente de seus parceiros de cela.


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                                            Transformao - Naasom A. Sousa



     -- Voc o qu? -- perguntou ctico.
     -- Ei, Brincadeirinha, rapaz! Eu tinha de dizer algo que metesse
medo no garoto! Mas afinal, consegui o nmero ou no? -- Explicou-se
Pablo.
     -- Vamos ver.
     -- Cala a boca e liga logo esse nmero de uma vez!
     Caio discou o nmero bem devagar para no errar e pde observar
a expectativa no olhar de seu parceiro.
     -- Est chamando -- disse Caio, desnecessariamente, pois Pablo
tambm estava com a orelha colada ao fone, ao seu lado.
     Ao terceiro chamado atenderam:
     -- Al, quem fala? -- Berrou a voz do outro lado da linha.
     Caio entregou o fone para Pablo.
     -- Ol, senhor...
     -- O que  que voc quer? -- Perguntou a voz firme.
     -- Ei, espere a, meu chapa! -- Berrou Pablo. -- Se voc no quer
fazer um grande negcio, tudo bem pra mim. Mas garanto que ir se
arrepender muito se gritar mais uma vez e espantar esse grande
comprador que est falando com voc, camarada.
     -- Comprador? Cara, do que voc est falando? -- o tom da voz era
o de uma pessoa que parecia confusa. -- pra comeo de conversa, aqui
no vendemos nada!
     -- Quer dizer que meu informante se enganou? -- murmurou o
agente policial. -- Isso me parece impossvel.
     Houve um instante de silncio do outro lado da linha.
     -- Quem  o seu informante? -- soou a voz novamente, sem deixar
escapar um ar de interesse.
     -- Desculpe-me, meu amigo, mas isso  confidencial. Se ele
descobre que mencionei seu nome em uma negociao, nunca mais
tornar a fazer qualquer acordo comigo. Voc me entende.
     -- Quem ir falar para ele sobre o que aconteceu aqui? Voc? -- riu
a pessoa atrs do telefone. -- E outra coisa: se voc no disser o nome
dele, no haver negociao alguma.
     Mais um segundo de silncio, mas foi a vez de Pablo, que teve que
ceder para no deixar o momento escapar por entre os dedos. Sabia que
se no falasse, a pessoa desligaria e jogaria o telefone fora, e talvez,
nunca mais voltaria a conseguir o nmero do novo telefone.
     -- Tudo bem -- disse.
     -- timo. Qual o nome?



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     Pablo voltou-se para seu parceiro e deu de ombros. Caio entendeu
que precisava de sua ajuda. Indicou baixinho:
     -- Marco. Soa bem bandido.
     Pablo repetiu o nome inventado de ltima hora depois de um
minuto de hesitao, ouvindo algo dentro de si gritando que aquilo era
loucura. Mas que escolha tinha, afinal?
     Ento pde ouvir a pessoa com quem conversava pelo telefone
murmurar:
     -- Marco?
     Pablo sentiu um grande impulso de dizer que havia se enganado e
arriscar outro nome, mas passou a ouvir a voz ao fone, que comeava a
dizer:
     -- Foi o Marco quem lhe deu esse nmero?
     A poeira parecia querer assentar. O nome aparentava ser conhecido.
     -- Bem... Sim.
     -- Tem certeza?
     Meu Deus! Claro que no!
     -- Sim.
     Silncio.
     -- Bem... Marco  um idiota, mas nunca apresentou algum que
desse cano na gente. Diga, Sr. "Grande Comprador", o que deseja
conosco?
     Pablo no podia acreditar que aquela doidice tinha dado certo. A
sorte estaria do seu lado? Estaria tudo caminhando para um bom final?
Perguntou-se.
     -- Como um grande comprador, estou interessado numa coisa que
vocs tm para vender e, j que mencionamos Marco, j deve saber a que
estou me referindo.
     --  mesmo? E se eu for um retardado mental completo?
     -- Ora vamos, amigo, sabe que estou falando de uma branquinha
colombiana -- falou Pablo, olhando para Caio, este balanando a cabea
em total aprovao.
     O fone tornou a ficar mudo por algum momento, como quem quer
que estivesse do outro lado da linha pensasse seriamente no assunto. E
realmente estava, e os dois agentes sabiam disso. Por isso esperaram
pacientemente at que voltaram a ouvir a voz pelo aparelho.
     -- J deu para perceber que voc  bem direto. Ento, diretamente,
quanto voc tem para negociar?
     -- O bastante pra comprar a sua maleta mais funda e larga cheia de
p. Que tal?


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     Houve mais uma pausa, mas no demorou muito para Pablo obter
uma resposta.
     -- Muito bem, est certo -- disse a voz no telefone.
     -- timo -- exclamou Pablo piscando o olho para Caio.
     Ento sentiu a voz do traficante parecer mais descontrada quando
se colocou a argumentar:
     -- Olha, vamos fazer o seguinte: Eu estou aqui com um estoque
meio grande e estou querendo me desfazer rpido de alguns quilos.
Sabe como dizem: "se amontoar,  possvel que sintam o cheiro". E j
que eu estou com pressa e pelo seu papo, acho que voc tambm, vamos
fazer o negcio o mais rpido possvel, ok?
     -- Pra mim tudo bem -- falou Pablo.
     -- Certo. Ento me encontre na esquina da rua Clintel com a rua
Treze, amanh, l pela meia-noite e meia. Leve a sua grana e eu levarei a
minha maleta mais larga e funda cheia de branquinha pra voc,
Senhor...
     -- Silveira -- sussurrou Caio para o seu parceiro.
     -- Pode me chamar de Silveira -- disse Pablo ao traficante. -- E
voc? Como se chama?
                   -- Como me chamo? Me chamo Carlos.




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                                               Captulo 2



A   noite chegou outra vez, e com ela tambm os vndalos, assaltantes,
    assassinos e, entre outros, os traficantes. Mais uma vez, as ruas estavam
vazias; os habitantes novamente em suas casas. E como muitas outras, a
esquina da rua Treze com a Clintel estava na penumbra, sinistra e sem
nenhum transeunte abandonado no mundo  vista.
     O permetro escolhido pelo traficante era extremamente propcio para o
negcio marcado para logo mais. Nada de pessoas de l para c, isto ,
testemunhas ou interferncias de policiais, pois era um local distante de
qualquer centro movimentado dos bairros da cidade.
     Os dois agentes se aproximaram da esquina  bordo do carro particular
de Caio, os olhos varrendo toda a rea ao redor, atentos  qualquer
movimento suspeito. Caio, ao volante, estacionou seu Ford no meio-fio, ao
lado da placa que indicava o nome das ruas onde haviam marcado o
encontro. Pablo olhou para o seu relgio. J era zero hora e vinte e cinco
minutos.
     -- Acho que no chegaram ainda -- disse Caio.
     -- Ou talvez sim -- alertou Pablo olhando de um lado para o outro --,
e esto nos observando escondidos em algum lugar aqui prximo.
     Subitamente, notaram que luzes comeavam a clarear ao longe e se
aproximavam deles pela rua Treze. Pablo percebeu que eram luzes de faris
de automvel.
     -- Chegaram -- disse ele.


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                                               Transformao - Naasom A. Sousa



     Os dois agentes saram do carro enquanto os traficantes estacionavam
bem perto deles. Depois de pararem, as quatro portas do veculo -- uma
limusine -- se abriram e saram seis homens do interior do veculo. Um
deles era meio careca, um outro tinha uma cara carrancuda e muito
barbada, o que viera dirigindo parecia o Stallone de to forte, o que estivera
ao seu lado no tinha nada de especial a no ser por uma enorme cicatriz no
rosto e os outros dois, os ltimos a sair, estavam mais bem trajados e
cheiravam muito melhor que os outros quatro. Pablo logo fitou-os com um
olhar especulativo, pois sabia que, pelo jeito, eles eram os cabeas do grupo.
Alis, um dos dois poderia ser o Vip.
     O grupo de traficantes aproximou-se dos agentes disfarados e um dos
homens bem trajados -- o que parecia mais concentrado no que estava
fazendo -- falou aos dois:
     -- Muito bem, quem  Silveira dos dois?
     -- Sou eu -- respondeu Pablo. -- Voc  Carlos?
     O traficante olhou de relance para o outro ao seu lado, que tambm
estava bem trajado e viu quando este tirou uma correntinha de ouro com
um anel de noivado preso a ela de dentro do bolso do terno e balanou na
ponta do dedo indicador. Respondeu:
     -- Sim, sou eu mesmo.

                                     &&&

      Ainda era de tarde quando Alan Xavier saiu de casa. Deus lhe falara
que aquele era o dia. O dia da sua misso. Alan falou a Melina o que Deus o
havia dito, e Melina no sabia se ficava alegre ou triste, pois sabia que o
propsito era de Deus. Porm o que estava prestes para acontecer era muito
perigoso, ela bem o sabia.
      -- Voc vai voltar logo pra mim, no vai? -- Perguntou Melina
abraando forte o seu marido.
      -- Melina, eu... eu realmente... no sei. O senhor me deu essa misso,
me revelou o que eu deveria fazer, me deu o nome de uma pessoa a quem
eu deveria encontrar e instruir-lhe sobre a Palavra de Deus e me disse aonde
irei encontr-la -- Alan fez uma pequena pausa e continuou: -- O senhor
tambm me falou o que ir acontecer com essa pessoa se eu completar
minha misso, mas... Ele no me revelou se eu voltaria... ou no.
      Melina olhou diretamente nos olhos de Alan. Lgrimas comearam a
escorrer pelo seu rosto.
      -- Eu no suportaria perder voc, Alan, meu amor... -- ela parou para
tomar um pouco de ar. -- Mas seja feita a vontade de Deus.


                                     20
                                              Transformao - Naasom A. Sousa



     Alan deu um estreito sorriso e um abrao caloroso em sua flor, como
costumava chamar Melina.
     -- Eu te amo, Melina. Eu sei que j falei isso um milho de vezes,
mas... a cada dia eu te amo mais e mais e mais... -- nesse momento, a porta
da frente foi rompida e chegaram correndo Jaime, Jair e Jssica da escola.
Alan abraou e beijou a todos, e depois disse:
     -- Queridos, irei fazer um viagem, mas ... -- ele olhou para Melina
antes de continuar: -- Voltarei assim que puder, ok?
     Os trs responderam simultneos: -- T bem, papai.
     Alan pegou sua bolsa contendo algumas roupas, deu um beijo em
Melina -- Talvez seja o ltimo, pensou ele -- e saiu de casa.
     Alguns minutos depois, Alan estava na igreja. Ajoelhado, ele orava ao
Senhor, clamava em Seu Nome e dizia em sussurros: Seja feita a Tua vontade
meu Deus, cubra-me com o Teu sangue e pe-Te na minha frente. Pois confio
plenamente em Ti.
     Ele passou mais de duas horas clamando e louvando ao Senhor no
templo da Primeira Igreja Crist de Melmar onde se congregava, depois saiu
e andou pelas ruas da cidade at chegar a hora exata de ir ao lugar que Deus
lhe havia revelado.

                                    &&&

     A hora chegara. Alan dirigiu-se ao local onde tudo iria comear. Ele
ficou encostado num poste na rua treze  uns cem metros da esquina com a
rua Clintel. Estava um tanto escuro e as sombras o camuflavam, para sua
tranquilidade.
     Ele viu um carro com dois homens dentro aproximar-se e parar na
esquina. Depois observou outro carro se aproximar do primeiro e de dentro
sair seis homens que se encontraram com os outros dois. Ele ouviu toda a
conversa. Tudo o que eles disseram, Alan guardou na mente. Mas o que
chamou sua ateno na conversa foi quando um dos dois homens
perguntou  um dos seis que estava muito bem trajado:
     -- Voc  Carlos?
     O outro respondeu:
     -- Sim, sou eu mesmo.

                                    &&&

     Pablo foi o primeiro a entrar no assunto das drogas. Assim no iro
pensar que estou enrolando, Pensou ele.


                                    21
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      -- Quantos quilos vocs trouxeram para negociarmos?
      -- Vinte e cinco quilos, e algumas gramas de franquia. O que acha? --
gabou-se o que estava com a corrente entre os dedos. -- Assim acho que
poderemos, no futuro, fazer mais grandes transaes como esta.
       isso a, eu tenho certeza que isso ir acontecer. Mas na cadeia, seu canalha,
pensou Pablo.
      -- Ei, e o seu amigo a, o que ele faz? -- Perguntou o da corrente.
      -- Trabalhamos juntos -- respondeu Caio. -- Somos primos e de certa
maneira muito apegados um ao outro. Nos negcios, eu compro e ele trata
de vender, mas hoje resolveu aprender como fao minha parte.
      O traficante olhou para os outros e disse em tom de gracejo: -- Eu sei,
trabalham juntos, no ?
      Pablo no sabia se aquilo era um bom ou mau sinal. Ele sabia que estes
traficantes eram inescrupulosos, e no deixavam rastros; somente corpos
ensangentados ou carbonizados assim como fizeram com Cssio. Estava se
arrependendo de ter deixado o recado com a atendente da central para que
os reforos chegassem ao local meia hora a partir de quando ele desligasse o
telefone -- isso acontecera  dez minutos atrs, antes de chegarem at ali.
Pablo planejara abordar os bandidos quando os reforos chegassem, mas
agora seu tempo se esgotava, pois parecia que estavam ficando impacientes.
      -- Como , cad a grana? -- Perguntou Carlos. -- Tenho outros
assuntos para tratar ainda esta noite e no pretendo me prolongar aqui. --
ele olhou novamente para o companheiro que ainda segurava na mo a
correntinha com o anel.
      -- Ok, vamos pegar no carro. Deixei o dinheiro l -- disse Pablo.
      Caio olhou para o parceiro e tambm percebeu que tudo estava saindo
fora de controle. Ento concordou com Pablo.
      -- Certo, vamos acabar logo com isso.

                                        &&&

     Alan ainda se postava a cem metros de distncia do grupo. Observava
e escutava tudo, apenas esperando a ordem de Deus. A ordem de partida
para mais uma misso. Essa porm, muito mais perigosa e implacvel.

                                        &&&

     Pablo e Caio se encaminharam na direo do carro com passos largos e
incertos. Caio parecia nervoso quando perguntou ao parceiro:



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     -- O que est acontecendo? Isto est saindo fora do nosso controle, no
? O que vamos fazer agora?
     Pablo -- que aparentemente parecia mais tranqilo, mas nem tanto --
no abriu sua boca. Apenas caminhava na direo do carro. Tentava
pensar, bolar algum meio de distrair os traficantes at que os reforos
chegassem, mas no conseguia, estava preocupado de mais para isso. Tudo
estava muito fcil e rpido demais.
     Como fui fazer o que fiz? Por que no chamei os reforos imediatamente?
Pensou Pablo. Sempre fui um dos policiais mais vivos e espertos da central, mas
acho que agora... Cometi o maior erro da minha vida.
     Pablo olhou rpido para traz e viu Carlos e o outro traficante bem
trajado conversando. Parecia mais uma discusso.
     Pablo voltou-se para Caio:
     -- Parece que esto discutindo. No sei por qu, mas pelo menos assim
ganhamos um pouco de tempo.
     De repente uma luz ofuscante foi acesa e encandeou os olhos dos dois
policiais, deixando-os sem viso.
     -- O que  isso? -- Perguntou Caio.
     -- No sei -- Pablo olhou outra vez para trs e observou o traficante
bem trajado socar Carlos com fora bem no meio da barriga e este cair no
cho. -- Meu Deus! O que est acontecendo?
     A luz diminuiu de intensidade, e Pablo e Caio perceberam que ela viera
dos faris de outro carro que se aproximara deles.
     -- So dos nossos? -- indagou Caio.
     -- No, Caio. Talvez aliados dos nossos inimigos -- replicou Pablo. Ele
tentou olhar para traz mais uma vez, mas subitamente foi acertado por um
potente soco por um dos traficantes que havia se aproximado rapidamente
sem que percebesse.
     Caio viu o que acontecera e tentou reagir, mas o traficante com a
correntinha na mo puxou um revlver do bolso do palet e de onde estava
desferiu um tiro certeiro contra o peito esquerdo de Caio, que caiu
imediatamente se esvaindo em sangue.
     Pablo arregalou os olhos repletos de susto e pavor, descrente do que
via diante de seus olhos.
     -- NNNNOOOOOOOOO!!!!
     O traficante deu uma grande gargalhada e disse zombeteiro:
     -- Voc acha que eu iria cair na sua, Sr. agente? Voc pode no me
conhecer, mas eu lhe conheo a muito tempo, voc e esse seu parceirozinho.
Pensei que vocs fossem mais espertos. Vocs vinham destruindo meus
pontos de distribuio de coca e eu sou bem informado, sabia? Leio muitos


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jornais e vejo muito noticirio. A imagem de vocs constantemente sai
estampada nos dois, sempre com uma frase ao lado dizendo: "Os policiais,
Pablo Tavares e Caio Vieira, acabam mais uma vez com outro ponto de
venda de drogas", isto , os meus pontos de drogas.
      -- Mude de vida, ento no o perturbarei mais -- disse Pablo.
      -- No, Sr. Tavares, no vou precisar fazer isso. Voc no vai mais me
incomodar, e... -- ele olhou na direo de Caio estirado imvel no cho. --
O seu parceiro principalmente.
      -- Ora, seu... -- Pablo ia se levantando para atacar o traficante, mas
este apontou a arma para o meio de sua cabea, ento se viu forado a ficar
imvel no cho mido.
      O traficante voltou o olhar para os outros bandidos e fez um gesto com
a cabea. Os homens levantaram Carlos que ainda encontrava-se no cho
por causa do violento soco que recebera e o levaram at seu chefe.
      -- Voc conhece Carlos? Acho que no -- disse ele a Pablo. -- Mas,
aposto que gostaria de saber o por qu de nossa discusso, no? Felizmente,
para mim, voc no vai saber.
      O traficante apontou a arma para Pablo e olhou para o carro que havia
chegado a pouco tempo e que ainda exibia as luzes dos faris acesas.
      -- Podem sair e ver de perto eu dar um fim nele. Vai ser muito
interessante -- disse sorridente o bandido bem trajado.
      Trs homens saram de dentro do carro. Todos pareciam estar na faixa
dos quarenta anos. De ternos e gravatas, davam impresso de serem gente
da alta sociedade.
      -- Muito bem, j que voc est prestes  partir com destino a outro
mundo; o outro lado desta vida, se  que isso existe, vou fazer uma
apresentao rpida dos meus amigos -- disse o traficante.
      -- Esse j de cabelos brancos  Charles Conte. Voc desativou um
armazm de refinamento de drogas dele no ms passado. Ele est de
cabelos brancos por culpa sua e quer que voc pague por isso. -- Ele
apontou para outro homem. -- Esse mais corpulento  Junior Cigalli. Voc
interceptou um grande carregamento de drogas dele  quatro meses atrs.
Ele est muito furioso com voc, Tavares. -- Ele olhou para Pablo e depois
apontou para o ltimo homem. Era um homem bem afeioado, com cabelos
lisos, levemente penteados para traz, e no momento esbanjava um sorriso
sarcstico. -- Este... -- continuou o traficante. --  Henrique Frezan. Voc
vem dando trabalho pra ele tambm. No tanto quanto para ns, mas os
prejuzos dele foram bem grandes, e ele tambm quer se ver livre de voc,
caro agente.



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                                    &&&

     VAI!
     A ordem veio. Alan desencostou-se do poste e comeou a caminhar na
direo de Pablo, Carlos e dos outros homens.
     -- Deleito-me em fazer a tua vontade,  Deus meu; a tua lei est dentro
do meu corao.

                                    &&&

     Pablo fitou cada um dos poderosos homens, olhou para o traficante
outra vez e disse:
     -- Voc me apresentou essas peas todas, mas no me apresentou o
mais sujo de todos: voc.
     O traficante riu.
     -- Ah!  verdade, desculpe-me. Meu nome  Lucas Ranson, trabalho
h tempos com o Vip que voc tanto tem perseguido. Ele no pde vir,
ento me mandou junto com Carlos para negociarmos, ou melhor, livrarmo-
nos de voc.
     Lucas estava correto. H muito tempo Pablo vem tentando pegar o Vip.
O "grande" traficante. Falado e temido por todos, pois cresceu da noite para
o dia no mundo do trfico, e todos os que entraram ou tentaram entrar em
seu caminho foram exterminados. O pior de tudo  que ningum sabia ao
menos a sua identidade, ao no ser seus comparsas mais confiveis. Pablo
estava crente de que Vip viria esta noite. Segundo traficantes a quem Pablo
havia prendido e que faziam parte da Quadrilha Vip, o prprio Vip fazia as
grandes transaes, tendo sempre o cuidado para que nenhum dos
compradores o visse seu rosto. Ele sempre usava algum disfarce ou capuz.
Na verdade, ele era um mito nas rodas do crime organizado e isso no se
discutia. Agora Pablo caia em si. Todas as informaes obtidas com os
homens ligados  quadrilha eram falsas. Tinham-no enganado; estavam
conduzindo-o para aquela armadilha. Oh, Deus!
     -- Assim no vamos mais nos preocupar com voc, agente Tavares
-- continuou Lucas. -- Voc vai sair do mapa assim como o seu amigo
Caio Vieira -- ele olhou para Carlos. -- E Carlos vai fazer isso por ns.
No  mesmo Carlos?
     -- Seu manaco -- disse Carlos, manifestando-se. -- Eu confiei em
voc, eu...




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      -- Ah-ah. No, no -- Lucas abriu a mo e fez Carlos ver na palma a
correntinha de ouro com o anel preso a ela. Carlos se calou. -- Voc fez uma
coisa muito feia, Carlos. Ficamos muito entristecidos com voc.
      -- Nada disso, Lucas -- reclamou Carlos. -- Vocs me enganaram. Eu
s queria dar o melhor de mim  quadrilha e vocs no quiseram. Ao invs
disso quiseram me descartar, livrar-se de mim. Foi a que eu tive que...
      -- Basta! -- interrompeu Lucas. -- Tudo vai acabar logo. -- Ele
apontou a arma para Pablo e engatilhou-a. -- Quero lhe dizer, caro agente,
que Vip no sentir a sua falta, ou melhor, nenhum de ns sentiremos.
      -- Ei, no faa isso! -- ecoou uma voz ao longe, fantasmagrica.
      Todos olharam para onde vinha a voz. Era apenas um homem. Um
mendigo, talvez. Mas estava com roupas novas e limpas, ento concluram
que isso estava fora de questo.
      Carlos aproveitou o momento em que todos estavam distrados
olhando para o homem. Soltou-se das mos dos traficantes e saltou sobre
Lucas. Seu estado era de extrema ira e parecia querer fazer de tudo para
Lucas no concretizar o que estava planejando fazer. Carlos segurou-o
firmemente. Com uma mo imobilizou o brao o qual empulhava a arma e
com a outra segurou o pescoo de Lucas. Os dois caram e rolaram no cho
de um lado para o outro. Carlos soltou o pescoo de Lucas e meteu a mo
rapidamente num dos bolsos do terno de seu oponente. Ento puxou uma
fita k-7 e colocou no bolso do seu palet.
      Lucas viu todos estupefatos, apenas olhando eles brigarem, a raiva
corroeu-lhe o ntimo. Seus subordinados estavam impressionados com a
briga e no faziam nada para proteg-lo. Ele deu um berro:
      -- No fiquem a parados olhando, seus imbecis, tire esse imundo de
cima de mim e peguem aquele homem -- apontou para Alan.
      No mesmo instante fez-se ouvir o barulho de sirenes. Os reforos esto
chegando, pensou Pablo. Todos se imobilizaram outra vez, sabendo que o
tempo se esgotava. A cavalaria estava se aproximando.
      -- Droga! -- exclamou Lucas. -- Vamos, tire ele de cima de mim!
      Os bandidos tiraram Carlos de cima de Lucas com um sopapo. Carlos
caiu de lado, desnorteado. Lucas se levantou se debatendo para tirar a
poeira do terno, dirigiu-se at o traidor.
      -- Sempre voc tem que ser assim, no  Carlos? Sempre o valento,
mas sempre fazendo as coisas erradas? Vip no...
      Carlos o interrompeu dizendo:
      -- Que Vip que nada, seu...




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     Antes que pudesse completar a frase, Carlos foi silenciado por um
chute na cabea, desferido por um dos traficantes. Lucas apontou a arma
para Carlos.
     As sirenes aumentavam de intensidade.
     -- Como eu disse Carlos, voc  valento, mas no me provou nada.
No demostrou nada do que voc  capaz.
     -- Vocs no me deram tempo para isso -- disse o outro.
     Lucas olhou bem nos olhos de Carlos, quando disse:
     -- Pois prove agora. Mostre-me que estamos errados e que voc vale a
pena. Mate o agente. -- Lucas pegou a mo de Carlos, pediu a arma de um
dos seus capangas e colocou-a sobre ela. -- Mate-o. Atire nele, e voc far
realmente parte da Quadrilha Vip e todas as nossas diferenas estaro
acabadas. -- mostrou-lhe novamente a corrente de ouro.
     -- No faa isso, Carlos! -- bradou o intruso.
     -- Quem  voc? -- perguntou Carlos.
     Lucas olhou irado para Alan.
     -- Peguem esse cara, levem-no daqui e dem um fim nele. Ele viu
coisas demais.
     Dois homens -- o meio careca e o que se identificava com o Stallone --
correram, pegaram Alan (que no correu) e o levaram para um beco
prximo dali, atraindo todos os olhares presentes.
     Lucas voltou-se para Carlos e continuou:
     -- Muito bem, Carlos. Faa. Aponte a arma para ele e puxe o gatilho.
     Carlos olhou para Lucas, para Pablo e depois para a arma em sua mo.
No sabia o que se passava, pois de repente no conseguia pensar, no
conseguia mexer-se. Algo o prendia; algo acontecia.
     -- Vamos Carlos, o tempo est se esgotando -- disse Lucas. -- Ou...
voc no tem coragem o suficiente?
     Carlos fitou Lucas. Lembranas comearam a surgir em sua mente.
Lembranas que envolviam Lucas. Lembranas em que Lucas era o monstro
que o havia atormentado, enganado, e tentado mat-lo. E o pior de tudo. O
monstro que conseguiu um trunfo que agora segurava em suas mos. Um
trunfo em forma de jia. Carlos olhou para a correntinha e o anel, e uma ira
incontrolvel comeou a invadi-lo por completo.
     -- Bem, a hora esgotou, Carlos -- disse Lucas. -- Quem voc escolhe?
Ele ou voc?
     Carlos olhou bem nos olhos de Lucas e respondeu:
     -- Eu escolho... VOC!
     Ele apontou rapidamente a arma para a cabea de Lucas e apertou o
gatilho trs vezes.


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      Click! Click! Click!
      Carlos arregalou os olhos. A arma no disparou. Estava descarregada.
      -- Escolheu mal, Carlos. Escolheu muito mal mesmo. -- disse Lucas.
Tomou a arma das mos de Carlos com um solavanco. -- Voc acha que eu
iria dar uma arma carregada para algum que no tenho certeza se est
realmente do meu lado? Isso era exatamente pra mim saber se voc estava
ou no comigo, e... pelo jeito, voc no est.
      Lucas fez um sinal com a cabea para dois de seus capangas, e estes, de
uma vez s, puseram-se a dar socos, chutes e todos os tipos de golpes em
Carlos, que s pde se defender para no desfalecer no mesmo instante.
Passaram-se alguns segundos, e aps ter sido muito surrado, todos os
bandidos se afastaram, deixando-o mais uma vez no cho.
      Carlos olhou para Lucas, quando este devolveu a arma descarrega para
seu homem e empunhou novamente a sua.
      -- Voc iria me matar de qualquer jeito, Lucas. Mesmo se eu matasse o
tira, voc me mataria tambm -- disse, mesmo com dificuldade por causa
do sangue que escorria de sua boca.
      -- Mas assim, meu caro, seria o modo mais rpido e fcil de matar esse
verme e voc ficar com a culpa. -- Lucas engatilhou rapidamente a arma,
apontou para Pablo e, sem pestanejar, atirou:
      Dois estampidos. O peito e a cabea de Pablo se transformaram
imediatamente numa cachoeira de sangue.
      Luzes coloridas comearam a iluminar a esquina e as sirenes soavam
como se j estivessem no local. Os reforos estavam muito perto.
      -- Vamos embora, j vimos o que viemos ver e j fizemos o que
devamos fazer! -- berrou Lucas.
    Mais trs tiros ecoaram do beco para onde haviam levado a Alan.
     Lucas e todos os traficantes olharam na direo do beco, de onde o som
dos tiros havia ressoado.
     -- Isso  o fim do conselheiro intrometido -- disse um dos traficantes.
     -- Vamos! Ou vocs querem ficar com um assassino? -- ironizou
Lucas, olhou para Carlos e gargalhou.
     -- Voc vai se dar mal, Lucas. Os tiras vo te pegar. Eu vou te pegar --
disse Carlos, com dio impregnado no olhar.
     -- No conte com isso -- falou Lucas. Ele olhou para o traficante da
cicatriz no rosto que estava atrs de Carlos e acenou com a cabea. O
homem imediatamente desferiu um golpe marcial em Carlos, que, com o
tremendo impacto, desmaiou.




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     -- Todos para os carros, rpido! -- Berrou Lucas pela ltima vez. --
Tragam o corpo do agente Vieira e deixem a garrafa perto ao do Tavares.
Vamos dar-lhes um novo aviso!
     Todos imediatamente pularam para dentro dos carros, e o barbado
falou para Lucas:
     -- Tito e Bino ainda no voltaram, Lucas. O que vamos...
     Aaaaaahhhhhhhhhhhh...
     Gritos horrendos ecoaram pela rua. Todos olharam para Tito e Bino,
que saram correndo do beco feito loucos em direo ao carro como se
tivessem visto um monstro ou algo fora do normal. Pareciam
irreconhecveis aos olhos dos demais.
     Eles pularam no carro onde estava Lucas, bateram a porta e como
crianas choramingaram:
     -- Droga! Vamos, Lucas! Vamos logo sair daqui! -- suplicou Bino.
     Lucas fez um gesto para o motorista, que deu a partida no carro e os
tirou de l.

                                    &&&

     -- O que foi que aconteceu? Parece que vocs viram uma assombrao!
     Bino e Tito se entreolharam e balanaram a cabea afirmativamente.
     -- O qu? -- Perguntou Lucas.
     -- Aquele cara que apareceu de repente, sabe... ns demos trs tiros
nele -- disse Tito, um tanto nervoso.
     -- Isso mesmo -- concordou Bino.
     -- Eu sei, eu ouvi os tiros. Todos ns ouvimos os tiros -- falou Lucas,
confuso.
     Tito parecia histrico quando falou:
     -- Pois , ns atiramos trs vezes nele, Lucas, mas... mas... -- ele
hesitou --, mas ele no caiu. As balas no o furaram nem o machucaram.
Parecia at que estvamos usando balas de festim!
     -- Lucas, e o mais assombroso  que ele estava com uma tranqilidade
que nem parecia que ia morrer -- completou Bino. -- Ele at cantava! A
cano falava desse tal Jesus que tantos malucos falam.
     Lucas estudou os semblantes assustados dos seus dois subordinados.
Nunca os vira to nervosos e amedrontados em todo o tempo em que
estavam juntos. Ele pensou antes de decretar:
     -- Vocs precisam  de umas frias.

                                    &&&


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     Tudo era trevas, tudo era dores. Carlos continuava cado no cho
desmaiado. Ele sangrava por causa dos golpes sofridos. Lucas e seus amigos
sabiam bem como fazer algum sangrar. O prprio Carlos j os vira fazer
isso algumas vezes, mas agora a vtima havia sido ele.
     Carlos... Carlos... Acorde. Uma voz penetrava seu subconsciente. Jesus te
ama e quer que voc o ame tambm... Ele quer te ajudar...
     A conscincia de Carlos foi voltando aos poucos. No momento ele j
podia ouvir o vento soprando em seus ouvidos, o barulho das sirenes e
tambm sentir as dores percorrer-lhe o corpo.
     -- Vamos, Carlos, acorde. A hora  chegada! -- Fez-se ouvir a mesma
voz outra vez.
     Carlos entreabriu os olhos e ento os escancarou de uma vez. No
acreditava no que via.
     Ser que estou morto? Pensou ele. Sim, porque estou vendo um defunto!
     Alan postava-se abaixado ao lado de Carlos, sem ferimento algum, sem
marcas de balas e nem sangue espalhado pelo corpo.
     -- Que-quem  voc? -- Gaguejou Carlos, confuso e principalmente
incrdulo do que via. -- Como sabe o meu nome? Onde estou?
     Alan foi lacnico:
     -- Voc saber. Voc saber de muitas coisas.
     Trs carros-patrulha aproximaram-se deles a toda, travaram os pneus
com o freio e pararam em cima dos dois. Saltaram um par de policiais de
cada carro, todos eles sacaram suas armas e apontaram para os homens no
cho.
     -- Parados, no se movam! -- Gritou um dos policiais.
     Outro tira a paisana, de cor negra, olhou e viu Pablo ensangentado no
cho.
     -- Oh, Meu Deus. Tavares! Chamem a ambulncia, rpido! --
exclamou ele, correndo at o corpo do amigo para examin-lo. Observou as
manchas vermelhas e os orifcios no peito esquerdo e na fronte. Concluiu
que no restava muito o que fazer.
     -- Eu chamo -- disse um policial com o nome Selton escrito em seu
distintivo.
     O agente negro voltou-se para o lado e viu perto do corpo estirado uma
arma e uma garrafa com um lquido amarelado. -- Olhem, tem uma arma e
alguma outra coisa ali! -- disse apontando.
     Carlos olhou junto com todos os policiais e estremeceu perante a viso
da arma e do lquido contido na garrafa.
     -- Oh, droga! -- sussurrou ele. -- Lucas tramou direitinho!


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-- Muito bem -- falou alto um policial do grupo. -- Vocs esto presos!




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                                              Captulo 3



T udo havia sado de acordo com os planos de Vip. Ele havia acertado
  dois ursos com um s tiro. Um tiro consciente. Um tiro certeiro.
     Carlos ainda encontrava-se no cho com Alan junto a ele. Estava
enraivado e frustrado ao mesmo tempo. Nunca tinha sido pego pela policia
antes. J praticara assaltos, roubos de automveis, homicdio algumas vezes,
mas nunca se deixara ser capturado pelos tiras. Conturbava-o saber que
havia de ser preso por causa de uma pessoa a quem queria se aliar.
     Um policial apanhara a arma do cho com uma luva e a colocara em
um saco plstico transparente. Caminhou at os outros policiais, falou
alguma coisa com eles, voltou-se para Carlos e Alan e foi at onde estavam.
     -- Levantem-se! -- ordenou ele.
     Alan obedeceu prontamente e ergueu-se rpido, mas Carlos nem se
moveu. Estava quebrado de mais para isso.
     -- Eu disse levante-se! -- gritou o policial.
     -- No d! -- respondeu Carlos em voz alta.
     -- Ah, no?
     O policial agachou-se somente o bastante para agarrar Carlos pela gola
do palet e faze-lo levantar de uma vez, contribuindo para que o silncio da
noite fosse quebrado por um grito de dor.
     -- No faa isso... -- Alan olhou o nome do policial no uniforme. --
Sr. Oliver, ele est muito machucado!
     Oliver fitou Alan com uma expresso ameaadora e disse:


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      -- Ele est machucado, no ? Vou lhe falar uma coisa: eu no estou
nem a pra vocs. -- apontou para Pablo estendido imvel no cho. -- Veja,
meu amigo ali no est machucado, ele est morto!
      -- Mas no fomos ns! -- disse Alan.
      --  isso o que vamos saber fazendo o exame da balstica; descobrindo,
quem sabe, possveis impresses digitais... -- respondeu Oliver. -- Mas
enquanto isso, vocs vm conosco. -- ele tirou uma algema do cinto e
prendeu o brao de Carlos ao de Alan.
      -- Espere! -- exclamou Alan. -- No  uma algema para cada um de
ns, pelo menos?
      -- Caras como vocs merecem coisa pior que isto -- resmungou Oliver.
      Um dos policiais vasculhou toda a rea com os olhos e indagou aos
outros um tanto alarmado:
      -- Ei, vocs viram o Caio? No estou vendo-o ou... o corpo dele em
parte alguma...
      -- Droga! O que aconteceu por aqui? -- quis saber o policial negro,
Axel.
      -- Devem t-lo levado. No sei por qu, mas acho que o levaram.
Talvez para fazerem o que fizeram com todos os outros: torturar e queimar.
-- disse Oliver. Ele virou na direo de Selton e berrou: -- E essa
ambulncia que no chega, hein?
      -- A comunicao estava ruim e s pude chamar a ambulncia agora
-- Explicou o parceiro de Oliver, Selton.
      -- Bem, ento nesse caso, voc e eu vamos levar esses dois aqui, e o
resto espera a ambulncia --Oliver se dirigiu aos companheiros. -- E caso
algo mais acontea por aqui, vocs nos chamem, ok?
      Os outros quatro policiais balanaram afirmativamente as cabeas.
      Oliver era um policial veterano. Com um bigode sempre bem aparado
e sobrancelhas grossas, estava na casa dos quarenta anos, mas parecia mais
velho por causa da sua enorme barriga. Mesmo assim todos o respeitava
muito, pois era duro, autoritrio e j havia prendido vrios assassinos,
traficantes e ladres de vrias espcies. Colecionava, alm disso,
condecoraes por seu bom trabalho como policial.
      Oliver e Selton encaminharam os dois presos at o carro-patrulha, e
chegando l empurram-nos para dentro com um tapa nas costas.
      -- Vamos, seus ces -- berrou o policial gordo --, depressa para o
canil!
      -- Vou acabar com esse cara. Pode apostar que vou -- disse Carlos,
baixinho.
      Ainda se acomodando no banco da viatura, Alan disse:


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     -- Para que fazer justia com as prprias mos, quando se tem algum
que faz isso por voc?
     -- O qu?
     -- Calem-se os dois, ou vou meter bala na boca de vocs! -- Gritou
Selton. Seu parceiro apenas riu. -- Vamos embora -- disse ele.
     Selton deu a partida no carro, ligou as sirenes e saiu fritando os pneus,
tirando seu parceiro e os dois suspeitos do local do crime. Em poucos
segundos o carro sumiu da vista dos quatro policiais que ficaram com o
corpo de Pablo sob custdia.
     Os quatro se entreolharam e o agente policial negro chamado Axel
quebrou o silncio:
     -- Eu sabia que isso ia acontecer. De alguma forma eu sabia.
     -- Do que voc est falando? -- perguntou outro policial, curioso.
     -- Sabe... essa quadrilha que Pablo e Caio tanto perseguiam, a
conhecida Quadrilha Vip... Assim que eu soube que eles no perdiam
tempo nem viagem em seus negcios, quero dizer, que eles no se
intimidavam diante de ningum, algo negativo; algo de ruim e forte
comeou a martelar na minha cabea. Alguma coisa como uma intuio, de
que iria acontecer alguma coisa ruim com os dois.
     Os outros trs trocaram olhares e um deles falou:
     -- . E pelo jeito essa intuio no falhou, hein?

                                  &&&

     A pista da rua Nizo Arruda estava mida por causa do chuvisco que
havia cado ali, mesmo assim, Selton conduzia o carro-patrulha a mais de
noventa quilmetros por hora, enquanto Alan e Carlos, no banco traseiro,
observavam a rua completamente deserta pelo vidro da janela.
     Oliver e seu parceiro encontravam-se calados no momento, assim como
o rdio-comunicador. Antes eles haviam feito brincadeiras de mau-gosto
com seus prisioneiros e contado piadas um para o outro. Alan achava
estranho o comportamento dos dois policiais, pois para quem havia perdido
um companheiro da mesma profisso -- principalmente sendo policial --
estavam muito alegres e descontrados.
     Carlos apenas vagueava os olhos pela rua. Ele conhecia toda a cidade
de Melmar palmo a palmo, esquina a esquina. Tinha quase certeza de ter
passado por todos os buracos da cidade: boates, pontos de drogas, cassinos
ilegais, becos marginalizados, tudo. Agora conhecia, pela primeira vez, um
carro-patrulha por dentro. Isso o enraivecia. Nunca pensou passar por isso



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um dia, pois se denominava incapturvel. Mas desta vez no teve jeito nem
escolha nem chances.
      Alan olhou para Carlos e observou cada detalhe do seu semblante e do
seu comportamento. Estudou-o durante um bom tempo, fechou os olhos e
sorriu. Louvado seja o senhor, exclamou ele em pensamento.
      Carlos girou a cabea e fitou Alan um minuto em silncio, depois olhou
novamente para a rua. Ele observou pela janela um beco escuro passar por
eles e lembrou-se de j haver visitado aquele lugar. O beco era chamado de
"O beco da escurido", porque ali era feita muitas coisas que a lei no
permitia fazer. Carlos virou-se para Alan outra vez e depois para os policiais
que agora pareciam mais srios. J estamos perto da central... pensou ele, pois
sabia que daquele beco at a central de polcia era a distncia de quinze
quilmetros e, na velocidade que Selton conduzia o carro, logo ele e aquele
estranho ao seu lado estariam atrs das grades. Diante dos seus
pensamentos, Carlos tornou a olhar para Alan.
      Quem ser esse cara? Ele apareceu do nada e se meteu nessa confuso... e que
confuso! A que custo? Mas ele parece to aqum da situao... to calmo... parece
to diferente de todas as pessoas que conheo...
      --Vire a  esquerda -- falou Oliver ao seu parceiro, apontando para
uma outra rua, interrompendo assim os pensamentos de Carlos.
      -- Ei, o que est havendo? A central no  por a!
      -- Fique calmo, rapaz -- disse Selton. -- O Oliver vai explicar tudo.
      Carlos fitou Oliver e repetiu a pergunta:
      -- Quer me falar que droga est acontecendo aqui? Por que desviamos
do caminho que levava  central?
      -- No  nada.  apenas um desvio, Carlos. -- explicou o veterano
policial.
      Carlos hesitou e ento, com os olhos arregalados, especulou:
      -- Ei, espere um pouco! Como sabe o meu nome? Eu no me lembro de
ter lhe falado o meu nome?
      -- Oh! Oh! -- disse Selton com visvel desapontamento.
      -- Droga! -- exclamou Oliver.
      -- Essa no! Mais um deles! Olha, me diz uma coisa, quantos mais de
vocs se venderam?
      -- Do que voc est falando? -- perguntou Alan, confuso.
      -- Calem a boca! -- gritou Oliver, agora irritado consigo mesmo. --
Droga! Eu no queria falar nada at chegarmos l, mas  isso mesmo. Ns
trabalhamos para o Vip. Ele nos comunicou o que iria acontecer hoje e disse
que se livraria dos dois policiais que tanto o perseguia: Pablo e Caio.
      -- Mas o Vip ...


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      -- Eu sei -- interrompeu Oliver. -- Eu sei de tudo. Eu sou um
funcionrio muito digno de confiana, sabe? E sendo assim, so me
reveladas coisas que muitos pagariam um alto preo para saberem.
      -- Mas me diga uma coisa -- continuou. -- Vip me mandou pegar
voc, mas no me falou que haveria uma outra pessoa. E ele nunca esquece
de nem um detalhe, ento... quem  esse cara a?
      Carlos olhou para Alan e fitou-o bem nos olhos. Ele no sabia o que
pensar nem dizer, ele no tinha resposta para aquela pergunta. Nunca vira
aquele estranho homem antes, no sabia o seu nome nem de onde era ou
mesmo o que fazia ali. No sabia de absolutamente nada sobre ele, a no ser
que no momento estava bem encrencado.
      -- No sei quem ele . Nunca o vi antes na vida -- respondeu Carlos.
      -- Ah, no? -- perguntou Oliver, duvidoso e zombeteiro. -- Ento no
vai se importar quando dermos um fim nele tambm.
      -- No, no vou me importar mesmo. Como falei, no o conheo.
      Alan apenas olhava para os dois como se nada estivesse acontecendo.
Estava tranqilo, com o pensamento ligado com o Senhor, apenas
esperando a providncia divina.
      -- Sabe, Carlos -- falou Oliver, mudando de assunto --, existem certas
coisas que muitas vezes no vale a pena se meter. E... o Vip me disse que
voc andou sabendo de coisas que no era para saber, ento... --colocou o
revlver  vista dos seus prisioneiros e ficou balanando-o na frente dos
dois. -- ele resolveu dar cabo de voc. Mas antes o envolveu num plano
simplesmente mirabolante que iria solucionar todos os seus problemas.
Assim, ele no s iria se livrar de voc, mas tambm de Pablo e Caio.
      -- , eu j sei por que ele queria se livrar deles. Mas policial, ele iria me
descartar de qualquer forma, mesmo se eu no tivesse feito nada. Ento, se
fiz o que fiz, foi para me proteger.
      -- Oh! Comovente, Carlos -- riu Selton. -- Mas agora chegou a hora da
ao.
      -- Desculpe-me, mas no acredito no que estou vendo -- Alan se
intrometeu. -- Como vocs podem no dar a mnima para a morte de seus
companheiros de trabalho, que todos os dias lhes do bom dia?
      -- Olha aqui, seu cretino, no lhe conheo! -- falou Selton, irado. --
Mas voc sabe o que  ter cem notas de mil nas mos todos os meses? O
dinheiro compra tudo, at mesmo a vida de amigos.
      --  isso a -- disse Oliver, destravando e engatilhando o revlver que
mais parecia um canho de to grande.
      A estrada comeava a escurecer. A iluminao ficara toda para traz nos
postes, e o que eram casas e edifcios se transformaram em rvores e mata.


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S de vez em quando aparecia um poste com iluminao na estrada. Selton
acendeu a luz interna do carro e modificou a luz do farol, de baixa para alta.
O momento se tornou em puro nervosismo e apreenso. Respiraes fortes
j comeavam a ser ouvidas e a aflio de Carlos era quase visvel. Alan
aparentemente se encontrava calmo e Selton e Oliver pareciam agora com os
nervos  flor da pele.
     O velho tira achou melhor desatar o clima de tenso. Olhou para Alan,
apontou a arma para ele e perguntou com arrogncia:
     -- Voc no parece muito amedrontado, no ?
     Alan fitou Oliver e respondeu com outra pergunta:
     -- Voc acredita em Deus?
     -- Deus? -- perguntou Oliver com um grito, ento esbanjou uma
grande gargalhada. -- No, eu no. S os tolos acreditam em deuses. Falam
que eles podem proteger, abenoar, guardar, dar a vida eterna... Sabe de
uma coisa? Tudo isso  besteira!
     Alan meneou a cabea.
     -- Deuses no podem fazer nada disso que voc mencionou. Mas o
Deus Verdadeiro, Jesus Cristo, esse sim, pode fazer tudo isso e muito mais.
     Oliver que sorria, ficou srio repentinamente.
     -- Ah , seu crente miservel? Olhe agora para frente! -- ele apontou e
Alan olhou. -- Est vendo aquela luz naquele poste ali? -- Alan balanou
afirmativamente a cabea enquanto Carlos prestava ateno a tudo. -- L
vai ser o nosso ponto de parada. A vida de vocs vai ter fim l. Ento quero
ver se esse Deus vai livr-lo daqui para l. O que me diz?
     Alan apenas abriu um sorriso largo e tranqilo. Respondeu:
     -- O que quer que acontea, meu caro, quer eu viva, quer eu morra, o
que acontecer... ser a vontade de Deus. Pois nada voc poderia fazer se
no lhe fosse permitido por Ele. E uma coisa posso te dizer com certeza: "eu
sei em quem tenho crido".
     Oliver olhou para Selton e disse:
     -- Mais um louco que vamos ter que apagar. -- ento os dois caram
no riso, que pouco a pouco aumentou de intensidade, e num breve instante
comearam a se tornar em grandes gargalhadas. To grandes, que Carlos
comeou a ficar confuso.
     Qual  a graa? Perguntou-se.
     Os dois policiais no paravam de gargalhar. Algo de estranho acontecia
e Carlos nada entendia, nada fazia. Apenas observava Oliver e seu parceiro
explodirem em risadas incontrolveis. Oliver no agentou e soltou a arma,
que caiu em baixo do banco. Selton tambm no conseguia se controlar nem



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segurar firme o volante, com isso o carro comeou a se desgovernar a mais
de noventa quilmetros horrios e ziguezaguear de l para c.
      -- O que est acontecendo com vocs? Controlem-se! Parem com
isso! -- berrou Carlos, afobado e temeroso de que um acidente pudesse
acontecer a qualquer momento.
      O carro, em alta velocidade, perdeu o controle, rabeou, saiu fora da
estrada e bateu forte em um poste; exatamente aquele que Oliver havia
apontado enquanto conversava com Alan e o ameaava.
      A batida foi horrenda. A frente do carro-patrulha ficou completamente
destruda, o poste partiu-a em dois e quase atingiu os dois policiais. Selton
foi o que mais se feriu e quase voou para fora do carro pelo pra-brisa, bateu
a cabea e no instante estava desmaiado e sangrando muito. Oliver tambm
sofreu muitos danos. Bateu o rosto no painel do carro  sua frente, abrindo
assim o seu superclio direito e tambm se encontrava desacordado assim
como o seu parceiro.
      Alan e Carlos estavam conscientes e de olhos bem abertos, com apenas
alguns cortes e arranhes superficiais por causa do impacto. Eles olharam
para seus captores desmaiados -- ou talvez mortos -- eles no sabiam e
Carlos sentiu um alvio sem igual.
      -- Vamos sair daqui, agora -- disse ele, sem pensar duas vezes. Tentou
abrir a porta, mas estava travada. Ele lembrou do que um certo colega
recm sado da priso havia falado a ele: As viaturas tm travas eltricas nas
portas controladas pelo motorista, e j que tem uma grade que separa os bancos da
frente do de traz, isto , os "homens" dos presos;  impossvel a gente pular do carro
ou fazer alguma coisa para escapar. Ento fez um movimento com a cabea
para Alan e disse: -- Afaste-se pra l. -- Alan obedeceu imediatamente,
deixando o banco todo livre para Carlos fazer o que quisesse.
      Carlos deitou-se no banco de costas, flexionou as pernas e esticou-as de
uma vez, desferindo assim um poderoso chute contra o vidro da porta
esquerda/traseira do carro. O vidro se quebrou por completo com o golpe,
se partindo em centenas de pedaos. Carlos olhou para Alan e falou:
      -- Olha, cara, no sei quem  voc e isso no me interessa no momento.
O que me interessa  sair daqui, e para isso eu preciso da sua ajuda, certo?
      Alan balanou afirmativamente a cabea e Carlos comeou a sair do
carro lentamente. Primeiro colocou uma perna para fora da janela, depois
foi fazendo descer seu corpo bem devagar, saindo assim do carro. Agora s
faltava a perna e o brao que estava preso ao estranho ainda dentro do
veculo.
      -- Sua vez -- disse Carlos, depois de ter sado por inteiro de dentro do
carro. E assim, Alan comeou a fazer os mesmos movimentos que Carlos


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havia feito. Uma perna e o brao, depois deslizou o corpo e por fim a outra
perna.
     -- E agora? -- perguntou Alan.
     Carlos olhou para as algemas e depois para os policiais dentro do
carro-patrulha, falou ento:
     -- A primeira coisa que temos que fazer  tirar essas algemas -- ele foi
at a porta do lado do motorista, onde se encontrava Selton e tentou abri-la,
mas tambm estava travada. -- Vamos quebrar este vidro tambm.
     -- Mas agora est bem ao lado deles, o barulho ser capaz de talvez
acord-los -- alertou Alan.
     -- Vamos ter que correr esse risco -- disse Carlos. -- No quero ficar
preso a ningum. -- pegou uma pedra grande que estava no cho ali por
perto e ento se preparou, erguendo a pedra ao alto com os dois braos,
fazendo levantar tambm o brao de Alan. De repente, Oliver moveu-se um
pouco, e ento outra vez. Os dois algemados viram aquilo. Carlos abaixou a
pedra e jogou-a para o lado.
     -- Vamos sair daqui!
     -- Agora mesmo -- concordou Alan.
     Ento eles saram correndo, algemados e cambaleantes para longe dos
dois policiais.

                                  &&&

     A rua estava escura, os faris dos carros-patrulha eram as nicas luzes
que iluminavam alm de alguns poucos postes com iluminaes fracas. O
silncio era intenso e imperava por toda a rea do crime.
     Os quatro policiais ainda se encontravam a esperar a ambulncia.
Sempre alerta, eles tambm vigiavam, para o caso de acontecer mais algum
ataque. Um deles ficava sempre dentro de uma das viaturas com um rdio-
comunicador de prontido na mo. Se algo acontecesse, ele chamaria a
Oliver e mais reforos.
     O policial Axel falou:
     -- Deus, essa ambulncia est demorando mesmo, hein?
     -- Esperem! -- alertou outro policial. -- Barulho de sirenes, esto
ouvindo?
     As luzes j eram visveis agora. Os quatro se agruparam perto do corpo
de Pablo, e Axel agitou os braos para o alto fazendo sinal para o motorista
da ambulncia.
     -- At que enfim! -- resmungaram.



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     A ambulncia parou ao lado dos policiais e mais que depressa saltaram
do carro dois para-mdicos e um mdico. Dois segurando a maca e um com
a mala de primeiros socorros.
     -- Acho que no h muito que se possa fazer por ele -- falou Axel
quando viu o para-mdico com a mala.
     -- Por qu? -- perguntou o mdico.
     -- Ora... ele est morto, no est? A bala penetrou seu corao e sua
cabea!
     O mdico olhou para os quatro.
     -- Vocs o examinaram?
     Agora os quatro policiais se entreolharam. No, eles no o tinha
examinado. Como Axel havia falado, era notrio que j no se podia fazer
coisa alguma.
     -- No, no o examinamos -- respondeu Axel.
     O mdico fitou o quarteto com um olhar especulativo. -- Espero que
tenham razo em afirmarem que no havia mais nada a ser feito. -- ento
ele olhou para os outros para-mdicos que j estavam ao lado de Pablo. Um
deles o examinou e berrou:
     -- Ele est vivo! A respirao est fraqussima, mas est vivo!
     -- Meu Deus! -- exclamou Axel. -- Mas como...
     --Vamos -- gritou o doutor, fitando Axel com olhar cheio de
repreenso --, temos que lev-lo rpido para o hospital, ou ser tarde de
mais!




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                                             Captulo 4



M    elmar era uma cidade grande. E como em toda cidade grande, muitas
     pessoas saam  noite para se divertir, e um dos pontos preferidos e
assiduamente freqentados so os restaurantes. O mais conhecido era o
Quaid's. Talvez por sua famosa cozinha chinesa, por seu espao amplo e
requintado, por sua boa msica sacra, por sua localidade -- bem no centro
da cidade -- e por ser um lugar discreto e reservado, de certo que todos os
seu clientes e convidados faziam reserva antes de visit-lo.
     O Quaid's, apesar de no ser um slogan nada parecido com um nome
chins, tinha uma cultura bem oriental. Sua decorao era bem definida e de
tudo parecia com os legtimos restaurantes chineses. Havia quadros de
gueixas e drages espalhados pelos quatro cantos do aposento, todos
pintados por famosos pintores da China, e abajures coloridos davam o
acabamento  iluminao fazendo-a assim bem tpica. Sem dvida alguma,
o Quaid's era um dos mais badalados em se tratando de restaurantes
internacionais. Seus letreiros davam todo o realce e brilho para que
agradasse os mais exigentes gostos.
     Sua estrutura, que eram elogios  parte, toda ela era moderna e
autntica. Seus trs andares o faziam parecer um requintado prdio de
apartamentos, mas em cada andar servia-se comidas de diferentes regies
da China. Havia tambm um quarto andar, mas este era todo reservado
para o proprietrio do Quaid's. Ali existiam restries e somente entravam




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convidados especiais, familiares e alguns funcionrios -- os de cargos mais
elevados.
     No Quaid's, uma das coisas que mais atraa os clientes era o amplo
estacionamento que se situava no subsolo de toda estrutura do restaurante.
Nele cabiam aproximadamente cem carros. Havia dois guardas nos portes
do estacionamento fazendo um forte esquema de segurana, registrando os
nmeros das placas dos carros e confirmando os que tinham reserva.
     Naquela noite entrou uma limusine de cor preta pelos largos portes, e
os dois guardas pararam-na. Um deles bateu no vidro da porta do motorista
e disse: Baixe! O vidro ao lado do motorista no baixou, e sim o da porta do
passageiro l atrs. O guarda caminhou at l e viu um homem de terno que
o olhou e disse calmo e srio: Quer mandar seu amiguinho sair da frente do
carro?!
     O guarda recuou um pouco diante do olhar inexpressivo do homem,
que era conhecido.
     -- Sim senhor, desculpe-me Sr. Givaldi.
     O guarda fez um gesto para o seu parceiro sair da frente da limusine,
ele saiu e o carro dirigiu-se para o interior do estacionamento.

                                  &&&
     O quarto andar do Quaid's parecia um apartamento de um dos mais
luxuosos edifcios da cidade, que ocupava todo o andar de ponta a ponta.
Nele havia uma sala enorme toda encarpetada e mobiliada da forma mais
fabulosa possvel, um salo com uma grande mesa para refeies, vrios
quartos e sutes e tudo o que um apartamento de primeira classe poderia
conter em seu interior. Mas havia uma coisa naquele andar que certamente
no havia em outro apartamento de um edifcio cinco estrelas: Uma grande
sala de reunies; uma mesa retangular com muitas cadeiras em sua volta e
que, no momento, algumas delas estavam sendo ocupadas por alguns
homens.
     -- Saiu tudo como voc planejou -- disse Lucas. -- Caio e Pablo esto
mortos e Carlos levou a culpa pelo assassinato.
     -- Agora podemos trabalhar em paz. -- ironizou o homem que estava
sentado  cabeceira da mesa.
     Lucas sorriu e depois falou srio:
     -- Mas... h uma coisa que aconteceu e que no estava em nossos
planos...
     -- Aquele homem estranho! -- Bino interrompeu.




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     -- Bino falou que Tito e ele deram trs tiros  queima-roupa no cara --
Lucas retomou as atenes --, mas falou tambm que as balas pareciam no
fazer o menor efeito nele.
     -- Como assim, no faziam o menor efeito nele? Que histria  essa? --
indagou o homem na cabeceira da mesa.
     Tito respondeu freneticamente:
     -- Fui eu que atirei primeiro. Eu juro que daquela distncia, senhor,
nem um garoto poderia errar. Depois Bino atirou e ento atirei outra vez,
mas... no sei, acho que as balas sumiam antes de atingi-lo...
     -- Como  que ? -- perguntou outra vez o homem, fazendo uma cara
confusa e incrdula.
     -- Olha, senhor, eu sei que parece loucura, ou besteira, ou at as duas
coisas juntas, eu sei, mas  verdade. Depois do meu primeiro tiro percebi
que a bala no tinha aberto nem um buraco nele, ento dei o segundo tiro e
nada aconteceu outra vez. De repente subiu um calafrio na minha espinha...
     Bino que estava como em transe escutando o companheiro e
relembrando do que acontecera, deu um pulo e falou quase gritando:
     -- Eu tambm senti! Eu tambm senti! Era uma coisa esquisita ... ela
foi subindo pela espinha e me tomou por completo.
     Tito balanava a cabea afirmativamente quando falou:
     -- Aconteceu da mesma forma comigo. Ento eu lembrei de como ele
apareceu do nada na hora da transao e liguei ao que estava acontecendo
naquela hora e... no sei o que me deu, senhor, mas eu senti medo. Um
medo que nunca senti antes.
     -- Pensam que era um fantasma -- completou Lucas.
     -- Jamais acreditei nisso, chefe, mas diante daquilo, tenho que admitir
que sim -- finalizou Tito.
     O homem que sentava  ponta da mesa fitou Bino e Tito. Como algum
pode acreditar em... fantasmas? Afinal de contas, o que esses homens so? Ratos?
Ele se viu pensativo naquele instante e ponderou: Mas esses caras j fizeram
coisas para mim que homens comuns jamais fariam, e alm disso... eles so leais.
     Por fim o Homem disse:
     -- Tudo bem. No sei ao certo o que aconteceu com vocs. No
acredito em fantasmas...
     Tito o interrompeu.
     -- Senhor, ns tambm no, mas...
     -- No me interrompa! -- gritou o homem dando um soco na mesa.
     Tito tomou um susto e calou-se. Seus olhos estavam arregalados de
terror, com medo da reao do homem. Lucas baixou a cabea e balanou-a
em desaprovao  atitude de seu subordinado.


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     -- Desculpe-me, senhor -- disse baixinho Tito.
     -- Muito bem -- continuou o homem. -- Tudo o que temos a fazer
agora  esperar a notcia na televiso que mostrar o corpo de Carlos com
uma legenda dizendo: "Assassino de policial  morto por ter tentado reagir
 polcia". -- o homem deu uma gargalhada alta de excitao, mas foi
interrompido, desta vez pelo telefone celular. Ele atendeu.
     -- Al?
     Ouviu algum falar do outro lado da linha.
     -- Onde?
     Falou outra vez.
     -- Ok, obrigado pela informao. Tchau.
     Fim da ligao. Ele desligou.
     -- O que foi, senhor? Algo para resolvermos?
     -- No, Lucas. Apenas um rotineiro carregamento para ns, como o
previsto. -- ele olhou para Tito e Bino. -- Mas voltando ao assunto do
homem fantasma... Quero que tenham certeza do que aconteceu antes de
sarem comentando por a. No quero que minha quadrilha seja mal
entendida, muito menos mal falada. Entenderam bem?
     Tito e Bino se entreolharam e responderam ao imponente homem 
ponta da mesa:
     -- Sim, senhor Vip.

                                  &&&

     Aquela noite no parecia ter fim, muito menos aquela trilha no meio do
mato por onde eles estavam caminhando desde a hora em que escaparam
dos tiras do Vip e da morte. Assim pensava Carlos.
     Nas ltimas trs horas os dois s viam mata e as trevas da noite escura.
O silncio predominava desde o comeo da fuga; no diziam uma palavra
sequer. Eles no se conheciam e pretendiam continuar assim -- Carlos
pensava deste jeito, mas Alan no.
     O vu verde cercava a trilha de um lado e de outro, e s vezes se
estreitava fazendo com que Alan e Carlos se esgueirassem por ele, custando-
lhes, uma vez por outra, arranhes por conta de algumas plantas
espinhentas, deixando-os ainda mais exaustos.
     As trevas eram densas, pois no havia lua para iluminar naquela noite,
fazendo deste jeito a visibilidade ficar quase impossvel. A trilha, por sua
vez, era de pedriscos -- por que no dizer de pedras? -- que os faziam
tropear cambaleantes e com extremo esforo equilibrarem-se para no cair.



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      Depois da surra que levara, dos ferimentos na batida do carro da
polcia e com a preocupao de estar levando a culpa do assassinato de um
policial que no cometera, Carlos era quem mais sofria com aquilo tudo. Os
espinhos das plantas e as pedras no meio do caminho o castigava deveras,
fazendo a carne de seu corpo latejar e seu p "gritar por socorro". Se
continuar assim, no irei agentar por muito tempo. Pensava ele agora.
      Ele olhou para Alan e percebeu que aparentemente aquilo no parecia
atingi-lo; como l na viatura de polcia, parecia no se incomodar. Mas ele
sim, pensava. E era bom aquele estranho homem no se intrometer com ele.
Carlos pensou mais um pouco e chegou a concluso que aquele homem j
havia se intrometido desde o momento em que lhe dissera para no matar o
tira. No sabia por que ele havia feito aquilo, mas iria descobrir.
      Em meio ao pensamento, Carlos tropeou numa pedra e quase caiu.

                                  &&&

     Alan estava sempre em esprito de orao, sempre clamando
misericrdia, sabedoria e graa e a todo instante falando com Deus; ligado
com o Senhor espiritualmente e com Carlos corporeamente. Quando
pensava nisso, sentia vontade de rir. No sabia o porqu. Talvez por estar
sempre ligado s pessoas, ou s coisas de alguma forma: Deus, famlia,
trabalho, igreja, amigos e por a se ia.
     No momento estava preocupado com Carlos. O pobre homem parecia
estar exausto. A trilha, o cheiro forte da mata, os arranhes, os tropees nas
pedras e o esforo para enxergar o caminho por onde andavam, sem falar
que estava na frente, puxando Alan pelo caminho.
     Alan resolveu quebrar o silncio.
     -- Quer parar um pouco? Voc parece cansado.
     -- No. Tenho que chegar  cidade e rpido.
     -- Mas no sabemos por quanto tempo essa trilha ainda vai se
prolongar...
     Carlos estancou, virou-se, fitou Alan e disse:
     -- Olhe aqui, no me diga o que fazer. Voc no sabe o que est
acontecendo em minha vida, t legal? Tudo est acontecendo muito rpido
e eu tenho que ir no mesmo ritmo para no perder. E v se no reclama,
porque voc est nisso, e est at o pescoo.
     Carlos estava com razo, pensou Alan. Aconteceu tudo muito
depressa, como estava acontecendo tambm naquele momento. Mas era
como tinha que acontecer. Tambm era correto o fato de ele estar naquilo at
o pescoo. No s agora porque Deus o enviara, mas tambm por causa da


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polcia que estava atrs de dois homens suspeitos do assassinato de um
policial e dos contrabandistas que deveriam estar tambm  sua procura
pelo intrometimento na negociao.
     Carlos estava falando algo.
     -- Temos que chegar depressa a um telefone. A vida de uma pessoa
pode estar dependendo disso.
     Alan no compreendeu.
     -- Depressa. Temos que chegar a um telefone depressa. -- Carlos
continuava a falar.
     O silncio imperou novamente por mais meia hora, at Alan perguntar:
     -- Posso cantar uma msica?
     Carlos sorriu zombeteiro.
     -- Ah, meu Deus! Agora vou ter que ouvir canes, num momento
como este? Alm disso, no estou com sua boca! Maldita hora que aquele
gordo nos algemou juntos!
     -- Deus. -- Repetiu Alan.
     -- O qu?
     -- Voc falou Deus.
     -- Sim, o que  que tem?
     -- Voc acredita em Deus?
     -- O qu... por qu? Voc vai me dizer o mesmo que falou para o
policial corrupto na viatura?  isso que voc vai dizer se eu disser que no?
     -- No. O que tenho a lhe falar  algo que voc nunca ouviu antes.
     -- Olha, No quero ouvir nem falar nada sobre isso, t legal? Papo
encerrado.
     Alan calou-se. Era a primeira vez que falava sobre Deus com Carlos e
era o bastante, por enquanto. Significava o primeiro passo na caminhada
rumo ao objetivo de Deus.
     Amm, Senhor.

                                  &&&

     Que cheiro  esse? T parecendo cheiro de fumaa! Mas fumaa de onde?
     Tentou abrir os olhos, mas o direito estava muito inchado, por isso
conseguiu abrir apenas o esquerdo. Tentou mexer-se ainda sem estar muito
lcido e nem se lembrar de tudo o que acontecera, mas isso o fez sucumbir
de dores por todo o corpo. Ele olhou em sua volta e comeou a recuperar os
sentidos aos poucos e lembrar do que havia acontecido, sem ainda muito
entender. Olhou para o banco de traz e no avistou ningum. Sem
prisioneiros. Apenas o banco vazio e o vidro da porta esquerda quebrado.


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     -- Droga! -- disse Oliver com a voz quase inaudvel.
     Olhou para o lado e viu Selton ensangentado, com um grande corte
na testa e imaginou se no estaria tambm com o rosto coberto de sangue.
Com algum esforo, esticou o brao at o retrovisor interno e girou-o at ver
sua prpria imagem na metade do espelho que restara. O superclio direito
estava aberto e o sangue escorrera por ele cobrindo todo o lado direito da sua
face, alm de um inchao no lbio superior. Tambm havia a dor no seu
corpo que no dava para medir pelo espelho; que o consumia e era maior
que tudo que j sentira antes. Mas que batida! Pensou.
     Oliver passou a mo pela cabea que continuamente recebia pontadas
de dor e ao baix-la avistou o rdio-comunicador. Perguntou-se se ainda
funcionava depois da batida. Com dores, empunhou o rdio e, apertando o
boto, disse:
     -- Al, central, aqui  Dezesseis falando, responda -- esperou algum
falar pelo rdio. Nada.-- Central, aqui  Oliver em situao de emergncia,
responda! -- esperou outra vez. Nenhuma resposta.
     -- Droga! -- Oliver resmungou, desta vez mais alto, jogando o rdio no
painel do carro.
     De repente ficou imvel e pensativo, ento lembrou-se de uma coisa...
     Ele abriu o porta-luvas do carro, mexeu em seu contedo e puxou um
telefone celular de dentro dele. Apertou uma tecla para ver se estava
funcionando e o aparelho emitiu um som igual a um bip, avisando que
estava pronto para ser usado. O policial digitou um nmero e esperou um
pouco at atenderem.
     A linha deu sinal de ocupado. Desligou e ligou novamente, teclou o
nmero da central e mais uma vez esperou. Desta vez chamou e no
segundo toque atenderam.
     -- Central de polcia de Melmar, bom dia, Charlenne falando.
     -- Al, aqui  Oliver, policial da viatura dezesseis. Estou com
problemas...
     -- O que aconteceu com o seu rdio, sr. Oliver? Por que no se comunicou por
ele? -- interrompeu Charlenne.
     Oliver fez uma cara feia de fria e exausto. Deveria ser uma novata no
telefone. Talvez j tivessem contratado a nova atendente. S poderia ser,
pensou.
     --  isso que eu iria falar se voc no tivesse me interrompido -- disse
Oliver. -- Olha, estou muito ferido e meu parceiro est muito mais que eu.
Batemos em um poste e desmaiamos. Estvamos com prisioneiros, mas o
impacto no foi to forte para eles quanto foi para ns, ento eles fugiram.



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Mande uma ambulncia e algum reforo para procur-los, porque devem
estar feridos tambm, e no muito longe daqui.
     -- Desculpe-me, senhor. Onde vocs esto?
     -- Estamos na rodovia Trs, acho que mais ou menos dentro do
quilmetro cinqenta e cinco.
     -- Ok, logo estaro todos a.
     Oliver desligou. Descansou a cabea no encosto do banco e ficou assim
por mais dois minutos, pensando e repensando. Deu um grande suspiro e
tornou a ligar o telefone j digitando um nmero conhecido. Suas mos
comeavam tremer. Ele esperou atenderem e isso no demorou muito, o
que fez aumentar sua tenso.
     -- Quem fala? -- disse a voz, que ressoou no ouvido de Oliver como
uma navalha afiada.
     --  Oliver. Quero falar com o Vip. Ele est esperando esta ligao.
Diga que  sobre um pato.
     -- Espere.
     O corte no superclio direito de Oliver comeou a arder, foi quando
percebeu que estava suando. O lquido havia escorrido at o ferimento,
causando a queimao. O suor era frio, causado pelo medo. Medo que agora
o consumia por completo.
     Ouviu um barulho no telefone como se algum tivesse pego para falar.
     Um pensamento tomou Oliver numa frao de segundos quando
pensou no que iria falar.
     Droga! O que irei dizer a ele? Detesto ter que pensar em falar a verdade... Ele
pensou na verdade; em como acontecera tudo: o que aquele estranho havia
falado para ele; o dio que sentiu em seu corao por t-lo visto falar com
tamanha tranqilidade e autoridade; por no ter visto em seus olhos o medo
de morrer. Comeou a pensar nas gargalhadas que dera com seu parceiro
por uma bobagem que havia dito, e que no valia mais do que uma
pequena risada de zombaria. Aquelas gargalhadas... pensou. Eram to
prazerosas e ao mesmo tempo assustadoras. Era a alegria que se misturava
com o medo que o deixara sufocado, muito mais a Selton que foi induzido
ao acidente. Pensou ele. -- Perdemos o controle -- disse por fim.
     No! Decidiu. Contar a verdade seria a gota d'gua para Vip, isso
significaria o seu fim.
     -- Oliver? -- falou outra voz, desta vez ressoando no ouvido do
policial como um tiro disparado por uma calibre 44.
     -- E a, Vip, como vai? -- Oliver esforou-se para no gaguejar.
     -- Bem. Melhor ainda com a notcia que voc vai me dar. J est
acabado? O pato est eliminado?


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     Oliver no respondeu nada. Fechou os olhos e pensou no que iria falar.
     -- Oliver? -- disse Vip, ordenando-lhe a dar uma resposta.
     -- Vip, eu... eu... -- no deu para segurar o nervosismo e Oliver
comeou a gaguejar. -- ...Eu no s-sei o que dizer, Vip. Aconteceu uma
coisa, e... saiu tudo errado...
     -- Como assim, saiu tudo errado?! -- explodiu o poderoso chefo. -- O
que aconteceu?
     -- Ele... fugiu -- disse Oliver receoso.
     -- Fugiu?! Seu grandissssimo idiota, como deixou ele escapar? Como
deixou isso acontecer?
     Oliver pensou em como responder. Em meio  milhares de
pensamentos ele ouviu um berro pelo telefone.
     -- Responda!!!
     Oliver engoliu algo inexistente que atrapalhava sua respirao para
responder:
     -- Houve... houve um acidente, batemos a viatura num poste aqui na
rodovia Trs,  onde estou no momento. Selton est mal. Com o impacto da
batida, batemos nossas cabeas no painel do carro e isso nos custou
ferimentos. Ainda estou dentro da viatura, pois no posso me mexer muito.
Creio que eles fugiram enquanto eu estava desmaiado, e...
     -- Espere a, voc disse: "eles fugiram?" O que significa eles, se mandei
voc pegar apenas o Carlos? Est trabalhando por fora , imbecil?!! -- gritou
Vip.
     -- No, no, claro que no! O cara estava com Carlos, ele era estranho,
pensei que era pra apagar ele tambm!
     -- Mas como aconteceu isso? O que se passou para que vocs batessem
nesse poste? -- perguntou Vip irritado.
     -- Bem... -- Oliver pensou seriamente em sua resposta e no contraste
que existia entre ela e o que realmente acontecera para causar o acidente
resultando na fuga de Carlos e do outro homem. -- Primeiramente ns
achamos os dois onde o corpo de Pablo estava e os prendemos em uma
nica algema, e... -- pausou um pouco. -- acho que um deles tinha algum
arame e estava tentando se soltar, ento Selton viu isso pelo espelho e virou-
se para enxergar melhor e me avisar, porque eu me encontrava de olho na
rodovia que estava escura e irregular, auxiliando-o. Quando Selton viu que
realmente um deles estava se soltando, gritou avisando-me. Foi nessa hora
que ele perdeu o controle do carro e batemos num poste. E como eu disse, 
onde estou agora.
     -- Quer saber -- disse Vip --, vocs dois so dois absolutos
incompetentes!


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     -- Vip, eu...
     -- No quero ouvir mais nada! E escute aqui, eu quero Carlos morto,
est ouvindo? D um jeito para peg-lo antes da polcia e mate-o, caso
contrrio voc vai ter que mat-lo dentro da priso ou na frente da maioria
dos policiais da cidade. Acabe com ele de qualquer forma, eu o quero morto,
entendeu?!
     -- C-certo, Vip -- respondeu Oliver nervoso, que comeou a ouvir o
som da sirene da ambulncia ao longe. -- M-mais... uma coisa... quanto ao
outro homem, o que fao com ele?
     -- Procure-o e mate-o tambm, idiota! No quero nenhuma
testemunha.
     Vip ia desligar quando se lembrou rapidamente do relato de Tito e
Bino.
     -- Oliver? -- chamou.
     -- Sim?
     -- Uma ltima coisa: como era esse tal homem que estava com Carlos
quando vocs chegaram?
     -- Ele era de meia estatura, de mais ou menos trinta e cinco anos,
cabelos castanhos lisos, pele clara e de olhos tambm castanhos. -- Oliver
fez questo de descrever os olhos de Alan, pois havia fixado o olhar neles
por um longo tempo e se impressionado com a expresso que deles foram
transmitido.
     Vip no disse mais nenhuma palavra e desligou o telefone.
     Oliver ouviu Vip desligar, foi quando a ambulncia e mais trs viaturas
estacionaram ao lado de seu carro. Mais um pouco e ele mesmo teria
desligado, pensou. O que faria ele dar mais tarde uma nova explicao ao
Vip.
     As portas dos quatro carros foram abertas e seus ocupantes saram
rpido ao encontro de Oliver e Selton, para prestar socorro e fazer algumas
perguntas sobre tudo aquilo.

                                 &&&

     Vip, logo que desligou o telefone, mandou chamar Tito e Bino, que
prontamente atenderam ao chamado e agora estavam em sua presena, na
sala de reunies do Quaid's.
     -- Recebi um telefonema a poucos instantes que me despertou uma
curiosidade...
     Tito e Bino se entreolharam como se perguntassem um ao outro do que
se tratava.


                                    50
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      Vip perguntou:
      -- Quais eram as caractersticas do cara que vocs dizem no terem
conseguido matar?
      Os dois se olharam novamente e Bino respondeu:
      -- Humm... ele tinha o cabelo castanho, na casa dos trinta, branco e
acho que... -- ele ergueu o brao  sua frente e elevou-o com a palma da
mo voltada para baixo at certa altura.
      Vip observou a elevao da mo de Bino.
      -- Meia estatura -- disse.
      -- Isso mesmo -- falou Tito.
      -- Ento temos mais um problema. O fantasma de vocs existe e est
do lado de Carlos...
      Os dois capangas cruzaram o olhar mais uma vez.
      -- Mas parece que alm de estar fazendo o papel fantasma,
assombrando meus planos, est fazendo tambm papel de anjo da guarda
de Carlos.
      -- O que o senhor quer que a gente faa quanto a isso? -- perguntou
Tito.
      -- Procurem os dois. Vocs, Oliver e os policiais que ele ir lhes
apresentar e com certeza vo encontr-los mais rpido. Quando encontr-
los matem Carlos e tragam o outro pra mim. Quero conhec-lo e mostrar a
vocs como exterminar fantasmas.




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                                           Captulo 5



C   onsiderado pela populao como um dos melhores hospitais da
    cidade, o Norton Ramos fazia jus  sua fama. Era um prdio grande e
imponente de cor cinza que ocupava todo o quarteiro, fazendo-se
assim, bem visvel. O NR -- como era chamado pela a populao --,
tinha trs andares bem distribudos, com salas de espera, laboratrio,
operaes, pediatria, obstetrcia, radiografia, tomografia, doenas
infecciosas, de leitos, monitorao, escritrio e ainda outras com
aparelhos eletrnicos de ltima gerao.
     Havia duas entradas no NR que levavam  recepo, para visitantes
e parentes de pacientes internados, mas tambm havia uma terceira
entrada, exclusivamente para pacientes em situao de emergncia. Essa
entrada era ampla e larga para facilitar a locomoo das macas que,
constantemente, passavam por ela, para l e para c. Ao lado dessa
entrada, sempre se posicionavam um mdico e dois enfermeiros com
uma maca  espera de pacientes em estado grave para serem atendidos o
mais depressa possvel, fazendo um diagnstico mais detalhado e
removendo-o para o interior do hospital.
     A avenida Ernesto Mont estava pouco movimentada quela noite,
como tambm muito silenciosa por ser a que passava em frente ao
hospital, pois como era de madrugada, novamente as pessoas
repousavam em seus lares. Mas uma curva rpida e fechada
proporcionou uma movimentao a mais nos poucos carros que



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trafegavam por ela, fazendo-os frear bruscamente ou subirem
deliberadamente sobre as caladas e at mesmo obrigando-os a darem
um cavalo-de-pau para no darem de frente com outro veculo. O
motorista engatou rapidamente uma segunda marcha e fez a ambulncia
equilibrar-se suavemente. Ou quase. Seguida por dois carros-patrulha,
ela se locomovia ligeiramente na direo do NR fazendo junto com os
veculos policiais, um coro lgubre de sirenes que, logo foram
desligadas ao chegarem perto do hospital.
     A ambulncia parou, juntamente com as viaturas, na entrada de
emergncia. O mdico e os dois enfermeiros correram prontamente,
empurrando a maca ao encontro da ambulncia. As portas do motorista
e passageiro foram abertas e eles saltaram dirigindo-se  porta traseira.
Abriram-na e um terceiro homem saltou. Todos eles eram para-mdicos.
     -- Qual a situao? -- Perguntou o mdico que havia corrido junto
 maca.
     -- Ferido  bala. No peito, prximo ao corao e na cabea. Tem que
ser removido imediatamente para a sala de operaes. Sua respirao
est fraqussima, pulso quase zero.
     Axel e um outro policial chegaram junto aos homens de branco, e s
puderam ouvir o mdico falando aos enfermeiros:
     -- Vamos remov-lo, rpido!
     O mdico, os dois enfermeiros e mais dois para-mdicos seguraram
um cobertor sob Pablo e o suspenderam transferindo-o para a maca que
os enfermeiros haviam trazido.
     -- Muito bem, vamos! Vamos!
     Um para-mdico segurou uma bolsa de soro, e os trs que antes
esperavam o paciente em esta do crtico entraram em ao, correndo
para dentro do hospital empurrando a maca, veloz, mas
cuidadosamente.
     Axel se apressou e juntou-se ao mdico na corrida.
     -- Posso ajudar em alguma coisa, doutor? -- Perguntou. -- H
alguma coisa que eu posso fazer?
     O mdico parou e os outros continuaram em frente. Ele fitou Axel.
     -- Quem  voc?
     -- Agente Axel Brendel, Doutor.
     -- Algum grau de parentesco com o paciente?
     -- No somos apenas amigos...
     -- Ento -- interrompeu o mdico, -- comunique algum prximo
a ele. Um parente ou algo assim. Conte o que aconteceu, que seu estado
 preocupante, mas diga que faremos o possvel para salv-lo.


                                   53
                                            Transformao - Naasom A. Sousa



    -- Farei isso.
    -- Certo.
    O mdico deu as costas para Axel e correu juntando-se aos
enfermeiros.

                                &&&

    O nome era Caroline Lima. Uma morena de olhos verdes
deslumbrantes, de corpo invejado pelas mulheres e desejado pelos
homens, cabelos cor-de-fogo e pele de seda. Era uma das melhores
reprteres do canal de mais audincia da cidade, o Canal Sete.
    Axel encontrava-se no interior de uma cabina telefnica em frente
ao NR. Ele lembrara-se dela logo quando o mdico falara de algum
prximo de Pablo.

                                &&&

     Tudo comeara quando Caroline Lima aparecera na central de
polcia pedindo informaes sobre um ento recente assassinato que
estava repercutindo e dando timas manchetes para os jornais e
noticirios. Pablo propusera-se a dar as informaes necessrias. Dali
ento, Caroline passou a dirigir-se direto a Pablo para adquirir qualquer
informao noticiosa que quisesse: assaltos, assassinatos, apreenso de
carregamentos de txicos, furos sobre polticos ou gente importante
envolvidos em escndalos criminosos, qualquer coisa que desse uma boa
matria e garantisse a ela uma boa reputao como reprter.
     Num certo dia, Alguns meses depois de ter conhecido Axel, Pablo
lhe confidenciou, momentos aps ter passado outra informao para
Caroline:
     -- Acho que estou apaixonado, Axel.
     -- Ela sabe disso?
     -- Voc est brincando? Claro que no!
     -- Voc sabe se ela tem algum... est com algum?
     -- No, no sei -- disse Pablo, encolhendo-se na cadeira atrs de
sua mesa.
     Axel balanou a cabea de um lado para o outro.
     -- Pablo, voc no  um adolescente, cara,  um adulto, que sabe
das coisas. Ento v  luta meu amigo! Ao menos tente! Talvez ela esteja
na mesma nsia e com o mesmo medo que voc neste momento. O que
tem que fazer  arriscar.


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                                           Transformao - Naasom A. Sousa



    Pablo respirou profundamente e enrijeceu-se na cadeira.
    -- Voc est certo -- ele puxou o telefone que estava em cima de
sua mesa para perto de si, tirou o fone do gancho e digitou um nmero
martelando as teclas com os dedos firmes.
    -- O que voc est fazendo? -- Indagou Axel.
    -- Providenciando um encontro.
    --Gostei da atitude. Eu tenho que ir agora, mas quero saber o
resultado disso depois, ok?
    -- Com certeza.
    No dia seguinte, Pablo contou a Axel que havia jantado com
Caroline.

                               &&&

     Fra sem dvida um jantar maravilhoso, pois aps aquela noite, o
agente Tavares e a reprter Lima nunca mais se desgrudaram. Pablo
sempre agradecera Axel por isso.
     -- Se no fosse voc para ter me passado aquela coragem, eu no
estaria com Carol, agora.
      Realmente. Pablo sempre fora pssimo com as mulheres. Mas
agora, com Caroline, no precisaria mais de ningum.
     E era isso mesmo o que ele tinha fora Carol: "ningum". Nem pai,
nem me, tios, irmos, primos. Pablo no tinha nada disso. Nenhum
parente, pelo menos que Axel soubesse. Ento, se existia algum
prximo, esse algum, com certeza, era Caroline Lima.
     Axel discou o nmero e ps-se a esperar.
     Uma hora dessa ela deve estar no quinto sono. Com certeza no ir
acordar contente, e... depois que eu lhe der a notcia... Deus, que o
Senhor me ajude.
     Depois do sexto toque Caroline atendeu e sua voz pode ser ouvida:
     -- Quem quer que seja voc, quero dizer que isso no so horas de
se ligar para algum. Se voc estiver com insnia, procure um mdico,
no uma reprter. Voc se sentir melhor e eu tambm.
     A voz de Caroline estava carregada de indignao. Axel percebeu
isso e no conteve o riso.
     -- Bem que eu sabia -- disse.
     -- O qu? Quem est falando?
     --  Axel.
     -- Axel? O que aconteceu? Por que est me ligando a essa hora?
     O agente policial hesitou.


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     -- Caroline... -- pensou no que havia acontecido com Pablo. Tudo
aquilo iria ser muito duro e difcil para ela.
     -- Axel, voc ainda est a?
     -- Sim, estou.
     -- O que aconteceu? No me diga que...
     Axel interveio:
     -- Caroline, prometa-me que ficar calma, e...
     -- Como ficar calma? Voc me acorda no meio da noite, fica me
enrolando e quer que eu fique calma?
     Axel se preparou para anunciar de uma vez a m notcia, mas
Caroline arremeteu-se a falar novamente:
     --  sobre Pablo, no , Axel? Aconteceu algo de ruim com ele, no
foi?
     -- Caroline, fique calma...
     -- Responda!!
     -- .  sobre Pablo. Ele foi baleado e est agora no Norton Ramos. 
onde tambm estou, aguardando alguma notcia. O mdico mandou-me
telefonar para voc, e...
     -- Estou indo para ai -- interrompeu ela.
     -- Caroline, acho melhor no. Voc no est em condies...
     -- Voc acha que depois dessa notcia eu conseguirei voltar para a
cama e dormir tranqila, ou apenas ficar pensando em como Pablo est,
ao invs de ficar perto dele?
     -- Hum... voc tem razo. Eu chego ai em vinte minutos.
     -- No, eu chegarei a sozinha. No se preocupe, eu vou conseguir.
     -- Tem certeza?
     -- Tenho.
     -- Ento, ficarei a sua espera, e... cuide-se no trnsito.
     -- No se preocupe -- ela pausou um momento. -- Axel...
obrigado por me ligar, e... desculpe-me pelo que falei quando atendi o
telefone,  que no tive um dia muito bom.
     -- Tudo bem. Tenha cuidado.
     E os dois desligaram ao mesmo tempo.

                             &&&
     Por quanto tempo teremos que andar para, enfim, chegarmos em
algum lugar? Perguntava-se Carlos, pensativo. Ele e Alan, agora
andavam lado a lado, pois a trilha lguns minutos atrs se havia
alargado e isso os deixavam mais aliviados, menos exaustos. Mesmo
assim, o cansao os castigava bastante e as dores no corpo eram


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                                            Transformao - Naasom A. Sousa



constante. Carlos era quem mais sentia isso na pele. O suor do seu corpo
tomava conta do seu terno, que agora estava encharcado. Ele comeou a
tir-lo, mas quando se lembrou da algema, chamou um palavro e ps o
terno de volta sobre ombros.
      Alm de alargar mais, a trilha se tornava mais visvel, fazendo com
que os dois no tropeassem a esmo. Uma escassa claridade ajudava-os a
enxergar as pedras no meio do caminho e desviarem delas. Alan olhou
para cima e se perguntou de onde vinha a claridade que pouco a pouco
aumentava. Talvez fosse alguma estrela que se encontrasse mais perto
do nosso planeta ou algum outro fenmeno da natureza, pensava. Pelo
menos ajudava-os a no tropear e andar mais tranqilo.
      -- No sei de onde vem essa claridade.  um pouco estranho --
disse Carlos, tambm olhando para cima.
      -- Era o que eu estava reparando -- Alan olhou ao redor e estudou
tudo o que estava  sua volta. Ele apontou para frente, um pouco acima
do extenso manto verde. -- Olhe aquilo. -- Falou a Carlos, e este, sem
muito hesitar, acompanhou o olhar do seu companheiro de algema e
observou o que havia prendido sua ateno.
      -- Estou vendo. Parece que a claridade vem de alguma coisa alm
daquelas rvores.
      Alan confirmou com um meneio de cabea.
      Uma luz clareava por detrs do matagal e fazia com que aparecesse
por cima das rvores, algo como uma urea reluzente. O que se levava a
pensar  que, aps transpor a vasta parede verde, ali se encontraria
alguma coisa a brilhar. Carlos pensou na melhor possibilidade possvel,
na coisa que mais almejava ver naquele momento.
      -- Vamos! -- disse Carlos comeando a andar mais rpido. --
Talvez seja o que estou pensando.
      Alan o acompanhou em sua caminhada frentica, e percebia que a
cada trinta metros, mais ou menos, a claridade se tornava mais forte, at
que uma luz comeou a ofuscar por entre a mata. Carlos no segurou a
ansiedade e penetrou a espessa rea verde, no se importando em
ganhar mais alguns arranhes ou cortes, puxou Alan pela algema e
abriu caminho dentre os galhos e folhas. Carlos se esgueirava, quebrava,
chutava tentando livrar-se de inimigos naturais que o impediam de
continuar em frente, jogando-os de um lado para outro a fim de poder
caminhar por entre eles. Sentiu a luz mais prxima e abriu com as duas
mos mais uma poro de galhos, ento a claridade o tomou por
completo, fazendo seus olhos brilharem.



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                                             Transformao - Naasom A. Sousa



     Carlos viu uma estrada  sua frente e aps ela uma grande casa -- a
origem da luz que os conduziram. Saiu da mata seguido por Alan, que
removia algumas folhas que haviam colado em sua roupa. Os dois
caminharam at a estrada e observaram que se estendia nas duas
direes.
     -- Talvez ela nos leve de volta  cidade -- comentou Carlos. -- E ali
est o nosso transporte. -- Ele apontou, Alan seguiu com o olhar e pde
ver uma caminhonete azul ao lado da casa.
     -- Voc ir rouba-la?
     -- No, ns vamos. Voc pode querer ir a p at a cidade, mas eu
no.
     Carlos seguiu at a casa, que era de madeira bem trabalhada e
envernizada, de dois pisos. Uma pequenina escada de quatro degraus
levava a um alpendre que protegia a frente da casa de raios solares e de
chuvas inoportunas, e uma lmpada fluorescente iluminava-o
fortemente. Os dois subiram ao alpendre e ficaram a escutar. O silncio
era absoluto no interior da casa. Carlos segurou a maaneta e comeou a
gir-la lentamente. Tentou empurrar a porta, mas estava trancada --
Claro. Suspirou e voltou-se para Alan.
     -- Voc usa grampos de cabelo? -- Ele sorriu e baixou a vista,
comeando a varrer com o olhar toda a rea do alpendre.
     -- O que est procurando?
     -- Um pedao de arame.
     Alan sabia o que iria acontecer logo em seguida, pois notava nos
olhos de Carlos a necessidade de entrar na casa. Ele ps-se a procurar
tambm. Foi at a bancada do alpendre e olhou para baixo. Carlos
juntou-se a ele e tambm vasculhou cada centmetro  procura do arame,
at que seus olhos enxergaram, perto da caminhonete um pequeno
pedao do objeto mais valioso para ele naquele instante. Carlos desceu
correndo a escada do alpendre. Puxando Alan, parou ao lado da
caminhonete, abaixou-se pegou o pequeno arame e voltou na mesma
velocidade. Ele torceu o arame at quebr-lo em dois pedaos e
silenciosamente introduziu-os na fechadura da porta com a habilidade e
conhecimento de anos na profisso proibida. Carlos manuseou os
pedaos de arame, destravando sem muito sacrifcio a tranca da
fechadura da porta.
     -- Bingo! -- Sussurrou.
     Segurou novamente a maaneta da porta e girou-a silenciosa e
vagarosamente. A porta abriu e Carlos empurrou-a lentamente, para no
fazer qualquer rudo. Estava escuro dentro do aposento e os dois


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                                             Transformao - Naasom A. Sousa



fugitivos entraram com passadas pequenas e cuidadosas, pois a
visualizao do cmodo estava difcil, j que as janelas que davam para
o alpendre iluminado encontravam-se com as persianas vedadas,
impedindo que a luz penetrasse. Carlos deu mais algumas passadas e
sem querer esbarrou em algo, e Alan, por extinto, precipitou-se  frente e
segurou o objeto antes que se chocasse com o cho. Ele tateou e estudou
o objeto.
     -- Um abajur -- sussurrou.
     Alan deslizou a mo pelo fio da tomada e encontrou o interruptor,
ligou-o e a lmpada acendeu, dando uma escassa luminosidade ao
aposento.
     Carlos estudou a sala como se fosse um jogo de quebra-cabeas a
ser montado pea por pea -- mvel por mvel. Havia um conjunto de
sofs no meio do cmodo com uma mesinha de centro entre eles, um bar
modesto, mas convidativo, com taas de vrias espcies sobre o balco e
dezenas de garrafas de bebidas de diferentes marcas e nacionalidades.
Uma estante ocupava um lugar defronte ao conjunto de sofs e dava, a
quem nele estivesse sentado, toda comodidade possvel, em termos de
udio e vdeo; beleza artstica e cultural. A estante estava repleta de
esculturas de cermica, barro e madeira, assim como tambm de
dezenas de livros. Uma enorme TV obtinha o lugar central, sob ela
postava-se um vdeo cassete e mais abaixo, um lindo som estreo. Um
prato cheio para qualquer assaltante, pensou Carlos. Mas isso no o
interessava no momento. Ele observou que havia vrios vasos com flores
e plantas espalhados sobre o piso da sala e tambm uma mesinha no
canto do aposento, ao lado da estante, com... no dava para ver o que
estava em cima da pequena mesa. A sombra da estante encobria o seu
contedo.
     Carlos deu passadas suaves em direo  mesinha, at que pde
discernir o que continha em cima dela. Ele suspirou aliviado. Era a sua
ltima esperana. O telefone estava sobre a mesa junto a um cinzeiro de
cristal. Aproximaram-se e Carlos tirou o fone do gancho. Apressado e
sem hesitar um s segundo, teclou um nmero e esperou. Voltou-se para
Alan e fez sinal para que no dissesse uma s palavra. Ele apontou para
cima a fim de dizer que pessoas dormiam l, e poderiam acordar. Alan
balanou a cabea afirmativamente, compreendendo. Carlos olhou para
a porta e pensou o quanto daria trabalho se no fosse o bendito arame.
Ento notou um chaveiro de madeira ao lado da entrada, com vrios
molhos de chaves presos a ele. Isso no despertou sua ateno.



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     Foi ouvido o quarto toque, mas ningum atendeu do outro lado da
linha. Carlos colocou o fone no gancho e tirou outra vez, tornando a
discar o nmero. Um toque, dois toques, trs, quatro...
     -- Quem est falando? -- Atenderam.
     Carlos ouviu a voz grossa e conheceu quem falava: Rodolfo. Por
ordem de Vip, ele sempre perguntava quem falava quando atendia ao
telefone. Rodolfo era o mordomo do Vip. Alto, magro e calvo, ele
parecia Alfred, o mordomo do Batman.
     -- Quem est falando?! -- Perguntou novamente, agora
rispidamente.
     -- Quero falar com Vip -- disse Carlos em voz baixa.
     -- Desculpe, mas aqui no tem ningum com esse nome.
     -- Chame-o, Rodolfo.
     -- Como sabe o meu nome?
     -- Sei de muitas coisas, e uma dessas coisas interessa a ele. Por isso
 melhor cham-lo.
     -- Quem est falando?
     -- Diga a ele que quem fala  um pato solto chamado Carlos.
     Rodolfo no o conhecia. Vip no se comunicava muito com ele,
menos ainda sobre seus negcios.

                                 &&&

     Rodolfo pensou em chamar Vip, mas tambm pensou nas
possibilidades e conseqncias, pois seu chefe encontrava-se no meio de
uma reunio de ltima hora e certamente odiaria ser interrompido.
     -- Espere um pouco -- disse por fim. Poderia ser algo realmente
importante e se no interrompesse Vip, sendo algo de tal gravidade,
seria muito pior do que se no o fizesse.
     Rodolfo caminhou por um longo corredor e parou diante de uma
grande porta. Respirou fundo e abriu-a, receoso. Ele pde ouvir quando
entrou:
     -- Mesmo tendo isso acontecido, no podemos parar com as
operaes -- falava Vip,  ponta da mesa. -- Temos um carregamento
para... -- Olhou para o relgio. -- Daqui a mais ou menos trs horas e
eu queria comunicar isso a vocs. Ele est a solto, mas no representa
nenhum problema. Logo o pegaremos e daremos um fim a toda essa
histria de uma vez.
     Lucas estava prximo de Vip, recebendo todas as informaes e
fazendo uma anotao mental.


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     -- Quem trar desta vez? Tomara que no seja outro irresponsvel
igual ao Amaro. Aquele bastardo tinha  que ser eliminado. Ele no
tinha nada que parar e se enrolar com prostituta nenhuma, muito menos
dar um pacote a ela. Desgraado! Quase fez besteira na cala quando
descobriu que ela era tira.
     -- No se preocupe. Nossos amigos na central cuidaro dele --
tranqilizou Vip. -- Quem est encarregado  o Duarte. Leve alguns
homens para ajudar, tambm a Bino e Tito e faa-os trabalhar.
Ocupados, no pensaro muito no que aconteceu.
     Rodolfo entrou e chamou todas as atenes para si. Ele carregava
um telefone sem fio e caminhou at Vip, se curvou e sussurrou ao
ouvido do chefe.
     -- Senhor, um telefonema. Parece importante...
     Vip afastou o rosto de Rodolfo e fitou-o nos olhos.
     -- Estou numa reunio importante, e voc sabe como odeio ser
interrompido nessas horas, no ? Seu idiota! -- Ao acabar de falar, Vip
j estava aos berros. -- Diga a quem quer que seja, que sa e que no
sabe a que horas chego, ouviu?
      Rodolfo apenas meneou a cabea para dizer que havia entendido.
     -- Saia daqui!! -- Ordenou Vip.
     Rodolfo voltou-se para caminhar  porta e sair do aposento e ento
ouviu Lucas comentar:
     -- Vip, acho que no podemos arriscar com ele a solto e creio que
seja melhor reforarmos a segurana e vigilncia aqui do Quaid's. O
pouco tempo que conheo Carlos, j tenho uma idia bem lcida e
concreta das loucuras que ele  capaz de fazer para conseguir o que
quer.
      Vip balanou a cabea em aprovao.
     -- Tudo bem, faa isso. Aquele pato est me dando muito trabalho e
farei qualquer coisa para atrapalhar qualquer plano que esteja se
passando em sua mente srdida.
     Rodolfo estancou e virou-se para Vip.
     -- Senhor...
     Vip percebeu que seu mordomo no havia se retirado da sala como
ordenara.
     -- Rodolfo! Eu j lhe disse que no estou para nada nem para
ningum?!
     Rodolfo estremeceu, mas no poderia sair, pois j se conscientizara
de que se tratava de um telefonema da maior importncia.



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       -- Senhor...  que no pde deixar de ouvir um pouco da conversa
e...
    -- Eu no lhe pago pra ficar ouvindo as conversas aqui!!
    -- Eu-eu sei, senhor. Mas os senhores falaram de um homem
chamado Carlos e o apelidaram de pato, e... h um homem na linha
querendo falar com o senhor, dizendo ser ele um pato solto chamado
Carlos.
    -- O qu?! -- Exclamou Lucas.
    -- Me d esse telefone aqui! -- Ordenou Vip e Rodolfo entregou-o
rapidamente. -- Porque voc no me disse logo, seu idiota? Agora saia
daqui, rpido!!
    Rodolfo quase correu de volta  porta, fechando-a ligeiramente
quando saiu. Vip tapou o bocal do fone com a mo e olhou para Lucas.
    -- O que esse pato quer numa hora dessas? Dar-me boa noite?
    Os dois riram da piada.
    -- Acho que no vai descobrir at falar com ele -- disse Lucas.

                                 &&&

      Carlos estava de olhos fechados, pensando no que havia acontecido
at aquele momento, quando Vip falou ao telefone:
      -- Carlos, a quanto tempo! Voc est bem? -- Brincou Vip.
      -- No to bem quanto voc, miservel. Oua, no estou muito para
brincadeiras, pois no estou dispondo de muito tempo ultimamente,
graas a voc...
      -- Oh, no precisa agradecer. Mas... onde voc est? Eu quero ir ao
seu encontro para conversarmos um pouco, voc sabe, colocar as idias
em dia... J que temos algumas coisas em comum -- a voz de Vip
adquiriu um tom sinistro --, se  que est me entendendo...
      Carlos pde sentir seu maxilar doer quando, num impulso
incontrolvel, cerrou os dentes e agarrando o fone com mais fora, disse:
      -- Olha seu... Se voc fizer alguma coisa com ela, se ao menos tocar
num fio de seu cabelo, eu...
      -- Carlos, Carlos... No acho que voc esteja em posio de me
ameaar e muito menos requerer alguma coisa, no  mesmo? Acho
tambm que tudo isso o que voc vem passando est lhe fazendo perder
o sentido real das coisas.
      Carlos, no momento, no pde deixar de dar uma risadinha abafada
e silenciosa, voltando a ficar srio ao inquirir:



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     -- Me diga uma coisa. Apenas uma coisa. Por que voc fez aquilo
comigo? Quero dizer, eu era leal a voc, fazia e faria tudo para lhe
agradar, dava tudo de mim para a organizao, e em troca a isso, voc
quis me despachar. Por qu?
     Carlos pde ouvir a forte respirao de Vip, antes que este falasse:
     -- Ora, meu amigo, aprenda uma coisa: "Voc era dispensvel"! --
Vip deu uma gargalhada que fez Carlos sentir o sangue ferver. -- Como
muitos so. Para ser mais claro voc era um pato. Pegamo-lo, acolhemo-
lo, demos rao e enchemos bem sua barriga. Ento, depois o
sacrificamos para interesse prprio. No  uma coisa muito digna de se
fazer, mesmo no me importando com isso, mas tem que ser feito. --
Deu um longo suspiro, recuperando o flego para continuar a
declarao, que o fazia ficar um tanto excitado. Continuou: -- Voc me
servia, Carlos, mas no para muita coisa. Por isso fiz-o-que-fiz. Alis,
queria que voc soubesse, sabe, s para deix-lo mais sossegado, que
voc no foi o primeiro e nem ser o ltimo, porm, foi o pato mais
valioso, pois com voc, consegui derrubar dois enormes gavies.
Esplndido, no?
     -- Voc  deprimente, mas devo admitir que esse  belo discurso --
disse Carlos, fitando Alan como estivesse encarando o prprio Vip --,
mas quero dizer uma coisa: Esse pato, que derrubou dois gavies, vai
derrubar mais algum. Um enorme abutre carniceiro que gosta de
arrancar as vsceras das pessoas...
     -- Carlos, voc no me assusta. E quer saber? Voc est muito
abusado para algum que est em desvantagem neste jogo!
     -- Solte-a, Vip. Ela nada tem a ver com isso tudo. Deixe-a ir; deixe-
nos ir e esqueo tudo. Fazemos de conta que isso nunca aconteceu; que
nunca nos encontramos.
     Carlos falava srio, como nunca falara antes em sua vida. Era uma
tentativa desesperada.
     Vip olhou para Lucas ao seu lado na mesa de conferncias e
balanou a cabea de um lado para o outro, numa expresso de total
desprezo.
     -- Oh, Carlos, sinto muito, muito mesmo, mas no posso fazer isso
e voc sabe que no. Ela  minha aplice de seguros para voc se manter
longe de mim. No posso jogar fora uma aplice de seguros deste
gabarito assim de uma hora para outra, no  mesmo?
     -- Ora, seu... !!! -- esbravejou Carlos, mais alto do que deveria.
     -- Psiu! -- Alan tapou rapidamente a boca de Carlos, alertando-o
do barulho que havia feito, quase inconscientemente.


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     Aquela no era realmente a noite da senhora Kruller. No havia
conseguido grudar os olhos na maior parte da noite. Sentia-se cansada e
as dores em sua coluna estavam insuportveis, pedindo um longo
repouso e isso era apenas ingredientes para que a sua noite de sono
fosse por gua a baixo. Talvez fosse por causa da preocupao com
Cristian, seu nico filho, que havia viajado a trabalho para o exterior 
uma semana atrs, afim de assumir l o cargo de gerente comercial
numa empresa cujo nome ela no se lembrava, e at ento ele no lhe
mandara notcias.
     Ficara com dor de cabea -- coisa que a fez sair da cama e descer
para a cozinha, tomando l uma aspirina acompanhada por um copo
d'gua. Voltara ao quarto e trancara a porta. Nunca deixava
destrancada, pois tinha medo de algum dia sua casa ser assaltada e, no
caso, com a porta ali, entre ela e os ladres, fazia se sentir mais segura.
Tornou a se deitar na cama j um tanto desarrumada e olhara para
Edson, seu marido. Desejou naquela noite ser to dorminhoca quanto
seu marido o era, pois se a casa viesse a baixo e apenas o quarto
permanecesse intacto, ele certamente no saberia o que havia se passado
at o dia seguinte quando acordasse.
     Passou-se mais uma hora at Jlia Kruller fechar os olhos e
adormecer num sono penoso e trabalhoso, mais ainda quando comeou
a sonhar com Cristian sendo cercado por dois assaltantes num beco onde
passava. Um deles estava armado com um revlver e ameaava o rapaz
indefeso, mandando-o entregar o dinheiro que tivesse na carteira. O
moo entregou a carteira e um outro assaltante conferiu o dinheiro.
Achando a quantia muito pequena, o assaltante perguntou: "E s isso
que voc tem?" Cristian disse que sim e o assaltante armado, sem mais
nem menos, apertou o gatilho esbravejando: "Ora, seu...!!!".
     No!!! Gritou Jlia sentando na cama com um pulo inconsciente.
Percebeu que o grito que dera no havia sado de sua boca, pois estava
sufocada, sem ar, estarrecida. Puxou pelas narinas o oxignio com tanta
ferocidade que quase estourou os pulmes e, com um longo suspiro,
soltou o ar de uma s vez. Ficou imvel por cinco minutos, recuperando
a calma e o compasso rtmico do corao.

                                 &&&



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     -- Controle-se, Carlos! Pode ter gente l em cima, voc sabe... --
disse Alan apontando para o andar acima de sua cabea.
     Carlos olhou para Alan com olhar de fria.
     -- T legal, t legal! Fica frio ai, ok? -- Falou baixo outra vez.
Tornou a colocar o fone na posio certa para falar. -- Oua agora, Vip...
No, melhor ainda, Lucas est por ai?
     Vip olhou para seu subordinado novamente.
     -- Est sim, bem aqui do meu lado. Por qu?
     -- Gostaria de falar com ele, j que estamos em famlia...

                                &&&

     Vozes! Algum estava em sua casa. Os sussurros vinham da sala
bem abaixo do seu quarto. Ela hesitou em acordar Edson e escutou um
pouco mais. Percebeu que eram duas vozes distintas. Dois assaltantes,
como no pesadelo! Pensou. Jlia comeou a suar, colocou as mos entre o
rosto e atentou mais um instante para as vozes. Notou que agora s um
falava. Olhou para Edson. Era melhor acord-lo ou no? Na dvida,
optou pela segurana. A segurana dos seus bens.
     -- Edson -- chamou ela, baixinho para no chamar a ateno dos
usurpadores --, Edson, acorde! Tem pessoas l em baixo!...
     Edson apenas se remexeu de um lado para o outro, deixando
escapar um gemido preguioso.
     Jlia meneou a cabea um pouco decepcionada, um tanto
desesperada e muito enraivecida.
     -- Voc no tem jeito mesmo -- pegou o travesseiro atrs de si e
ps-se a bater em seu marido com ele --, acorde, Edson, acorde! --
chamou ela, mantendo a moderao em sua voz.
     Edson arregalou os olhos e sentou-se na cama rapidamente com o
susto. Jlia, sem perder tempo, soltou o travesseiro e tapou a boca do
seu marido, sabendo que dali no sairia outra coisa seno muitos
palavres altos e em bom som. Fez sinal para que no fizesse barulho e
se acalmasse. Edson balanou a cabea mostrando compreenso, ento
Jlia soltou sua boca.
     -- Que negcio  esse, querida, O que est acontecendo? Por que
me acordou a almofadadas? Eu estava roncando outra vez?
     Jlia teve que rir, mas seu riso era abafado e nervoso e Edson
percebeu isso.
     -- O que foi Jlia?



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     -- Edson, oua... Quero que fique calmo, est bem? -- Ele, ainda
confuso, tornou a menear o cenho. -- Acho que tem algum l em
baixo...
     -- Ladres? -- Interrompeu.
     -- No sei ao certo, mas ouvi sussurros; duas vozes que vieram da
sala. Tem algum l com certeza.
     Edson saltou da cama e caminhou suavemente at o armrio de
onde tirou uma caixa e um objeto comprido que, no escuro, Jlia no
conseguiu distinguir. Edson caminhou at ela, e o objeto comprido
tomou forma. Era uma espingarda de cano duplo. Ele abriu a caixa e
tirou duas balas que ocuparam seus espaos reservados nos canos da
arma, depois tirou mais seis e colocou no bolso da cala do pijama que
vestia.
     -- Edson, o que voc vai fazer com isso? Pode ser perigoso...
     -- Ningum vai roubar minhas coisas que com tanto sacrifcio
comprei. Se algum quiser isso, vai ter que passar por cima de mim! --
Disse, engatilhando a espingarda.

                               &&&

     -- Al, Carlos, pensei que iria se esquecer de mim. J estava me
sentindo magoado -- disse Lucas ao receber o telefone das mos de Vip.
     Mas que ironia! Pensou Carlos, Esses caras dariam timos atores.
     -- No se preocupe, Lucas, nunca irei lhe esquecer, prometo, pelo
menos no at acabar com voc. No se esquea que voc  o segundo
do meu rol pessoal.
     -- Oh, Carlos, no deveria falar assim de mim. Sempre fui to legal
com voc! Acho que no mereo isso... ainda mais quando tenho uma
coisa que com certeza voc queria em suas mos agora.
     Carlos fechou os olhos e abriu um pequeno sorriso.
     -- Sei disso, Lucas. Mas sem querer me intrometer nos seus
assuntos particulares, mas j me intrometendo... Gostaria de saber se
voc j entregou a fita k7 ao Vip. Voc entregou?
     Lucas abriu bem a boca ao dizer:
     -- Oh! No havia me lembrado at este momento, mas j que tocou
no assunto, irei entreg-la agora mesmo. -- Olhou para Vip e falou que
Carlos estava falando sobre a fita, enfiou a mo no bolso do terno e
vagueou-a de um lado para o outro. A boca aberta de excitao
transformou-se em boca fechada de preocupao. No estava naquele
bolso. Olhou para Vip com um sorriso sem graa. -- Deve estar neste


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outro bolso. -- Disse ele ao meter a mo em outro bolso, e depois em
outro, em outro e em todos os que haviam em seu terno e em sua cala.
-- Essa no! -- Foi tudo o que pde dizer diante da situao em que se
encontrava.
     Vip tomou o seu brao e apertou-o com fora, inquirindo:
     -- Onde est a fita, Lucas?
     -- Vip... no sei o que dizer... estava no meu terno quando
estvamos com os tiras... -- Lucas colocou as mos na cabea e fechou
os olhos, tentando vasculhar em sua mente o possvel paradeiro da fita
k7. De repente, trouxe o fone de volta  boca. -- Onde est a fita, Carlos?
     -- O qu? -- Indagou Carlos, do outro lado da linha.
     -- A luta. Quando aquele cara apareceu, voc pulou em cima de
mim e rolamos pelo cho... Pegou a fita naquela hora, no foi?
     -- Que coisa, Lucas, voc daria um timo detetive, sabia?  isso
mesmo. Peguei a fita e ela est em meu poder agora, mas... no falo com
os porcos, prefiro falar com o dono. Vamos, passe o fone para o Vip --
ordenou Carlos, mantendo o leve sorriso nos lbios.
     Lucas estendeu o fone para Vip.
     -- Quer falar com voc.
     -- Seu idiota! Como pde deixar que ele pegasse a fita de volta? --
Gritou Vip.
     -- Vip, eu...
     -- No quero ouvir suas lamrias agora. Depois falo com voc. --
Tirou com fria o fone das mos de Lucas e levou os lbios ao bocal. --
Carlos...
     -- No diga nada, Vip -- disse Carlos, interrompendo seu ex-chefe
--, apenas oua: eu estou com a fita e com todos os seus planos nas
mos. Creio que as regras mudam de agora por diante, assim como a
vantagem muda de lado.
     Sem que Carlos e Alan notassem, um vulto se aproximava do
cmodo onde se encontravam com passos curtos e silenciosos, chegando
cada vez mais perto e mais perto. Desceu os degraus da escada e passou
a andejar o corredor que ligava a sala de jantar  sala de estar.
     Carlos continuava a ditar as novas regras:
     -- Agora no me diga o que fazer e no me pressione. Apenas me
escute. No quero que encoste num fio de cabelo dela, entendeu? Ou
tudo estar acabado para voc. Uma coisa muito importante para mim
est em seu poder e outra muito importante para voc est nas minhas
mos, ento...



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     Subitamente uma estrondosa voz soou preenchendo todas as partes
do recinto:
     -- Parados! No se movam ou pedaos dos seus crebros iro se
espalhar por toda a sala!
     Alan e Carlos se tornaram esttuas num instante quando olharam a
figura esguia e de meia idade j no meio da sala apontando a enorme
arma em sua direo. Carlos, com todo o cuidado, moveu apenas o
necessrio (a boca) para terminar a conversa com Vip.
     -- Ligo para voc depois, Vip. Mas no se esquea: no faa nada
que venha a me irritar.
     -- Carlos, espere ai... --Vip ia dizer vrias coisas que Carlos no
agradveis, mas no houve tempo para isso. Desligou o telefone sem
nenhuma cerimnia, e sem tirar os olhos de Edson, transformou-se em
esttua outra vez.
     Edson inquiriu:
     -- Tentando roubar a minha casa, no ? Mas no se sairo bem
desta, miserveis. Sabe, olhando para vocs, me d vontade de apertar o
gatilho de uma vez, porque a raiva que tenho de ladres  enorme.
Maior do que o buraco que esta belezinha aqui -- mostrou a arma com
um meneio de cabea -- faz num corpo humano.
     -- Meu senhor, no somos ladres... -- Alan tentou explicar a
situao, mas Edson no deixou que continuasse.
     -- Ah, no? Ento esto aqui para me fazer uma visita e tomar
bolinhos com ch?
     -- No! Estvamos apenas querendo dar um telefonema urgente.
No queramos incomod-lo, mesmo porque j  muito tarde, e... o que
o senhor pensaria se batssemos em sua porta? Dois estranhos no meio
da madrugada, dizendo querer dar apenas um telefonema. No seria um
tanto suspeito?
     Edson vagueou um pouco os olhos, pensando na explicao do
homem  sua frente, ento tornou a fit-los e sentenciou:
     -- Sua histria no me convenceu nem um pouco, e alm do mais,
vocs me do arrepios. Vamos, mos para cima, agora! -- Ordenou.
     Carlos olhou para Alan e este entendeu o significado do olhar.
Nenhum dos dois se moveram.
     -- Vocs so surdos ou esto mesmo  querendo levar chumbo? --
Perguntou Edson, irritado. -- Tomara que prefiram a segunda opo,
pois a acho tima. Vamos, levantem essa droga de mos agora!!
     Alan levantou sua mo esquerda bem devagar e Carlos, por sua
vez, levantou a mo direita. Conservando assim, as mos algemadas


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encobertas pela sombra de um vaso que estava perto da estante. Edson,
vendo isso, sorriu.
     -- No acredito nisso! Mas j que vocs preferem assim, aqui vai --
colocou a espingarda  altura dos olhos e mirou na direo dos dois.
     Carlos respirou profundamente e uma gota de suor deslizou por
seu rosto at se transformar numa manchinha quando aterrissou em seu
palet. Engoliu seco e comeou a levantar a mo esquerda -- a mo
promissora -- lentamente. Alan olhou par Carlos, observou seu
movimento e comeou a fazer o mesmo.
     -- Assim est melhor. Pelo menos no irei gastar minha munio
com vocs -- disse Edson, observando atentamente os dois
movimentarem as mos ao alto, at que notou algo fora do comum. A
medida que os membros dos assaltantes subiam alguma coisa presa a
eles reluzia. Algo parecido com metal ou ao. Uma espcie cromada. A
elevao das mos separaram-nas da sombra e se tornou ntida a coisa
brilhante que envolvia os punhos dos ladres.
     -- Uma algema?!! -- espantou-se Edson
     Nenhum dos dois se mexeu. Os canos da espingarda eram muito
assustadores e fazia com que todas e qualquer reao se tornasse apenas
num pensamento negativo.
     -- Para vocs estarem presos com isso,  porque coisa boa no
fizeram. Tambm  provvel que estejam fugindo de algum, mais
provavelmente da polcia.
     Alan tentou novamente:
     -- Senhor, no somos criminosos. Fomos presos injustamente.
Precisa acreditar em ns...
     Carlos voltou-se para Alan, irritando-se com a situao.
     -- Mas que droga! No est vendo que estamos algemados? Isso j
diz tudo! Tudo isso que voc est dizendo, pra ele,  conversa pra boi
dormir!
     -- Calem a boca!! -- Gritou Edson.
     Os dois se calaram e tornaram-se esttuas novamente sob a mira da
imponente espingarda.
     -- Amor, est tudo bem ai? -- A voz de Jlia ecoou nas paredes do
corredor que dava para a sala.
     Edson deu ouvidos ao chamado da esposa e falou em voz alta:
     -- Jlia, no venha para c, ouviu? -- Edson deu passos pequenos
para trs tentando alcanar o corredor e repetir a precauo  sua
mulher.



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     Carlos baixou os olhos para a mesinha onde estava o telefone e o
cinzeiro e desceu um pouco o brao direito, aproveitando o movimento
retrgrado de Edson, sempre variando o olhar dos fugitivos para o
corredor.
     Em instantes Edson estava onde queria. Deu uma olhada rpida
para os dois homens -- to rpida, que no notou a mo direita de
Carlos um tanto baixa -- para se certificar de que continuavam em seus
devidos lugares e imveis e voltou-se para o corredor onde Jlia se
encontrava.
     Carlos baixou mais um pouco seu brao direito, e ento mais um
pouco e um pouco mais.
     -- Jlia, no venha para c! Suba e chame a polcia!
     -- Chamar a polcia? So ladres mesmo?
     Carlos observou que Edson mantinha o olhar em sua esposa e
aproveitando a oportunidade, pegou o cinzeiro rapidamente.
     -- O que voc est fazendo? -- sussurrou Alan.
     Carlos nada falou, enquanto Edson respondia  Jlia:
     -- Sim. Chame a polcia, rpido!
     Agora!
     O cinzeiro voou da mo de Carlos numa jogada rpida.
     Edson olhou de volta para os invasores e tudo o que pde ver foi o
brilho do cinzeiro antes do impacto em seu nariz, que instantaneamente
se esvaiu em sangue. Houve um grande grito de dor que ecoou por toda
casa. Edson levou uma mo ao nariz quebrado e tentou manter a outra
rija e firme segurando a espingarda. Com grande esforo teimava em
permanecer em p e no ser vencido pelo sofrimento fsico, que era
insuportvel. Gritou outra vez de dor e, com a mo j trmula, puxou o
gatilho.
     O vaso que antes encobria a algema com sua sombra, explodiu em
vrios pedaos, que voaram para todos os lados.
     -- Edson!!! -- Gritou de Jlia ao ver o marido j ensangentado.
Correu ao seu encontro.
     Outro tiro foi disparado. A bala chispou entre Alan e Carlos e
explodiu na parede atrs dos dois, fazendo-os se abaixarem e se
protegerem.
     Dois tiros; duas balas. Pensou Carlos, consigo mesmo, que levantou-
se rapidamente e avanou na direo de Edson. Serrou o punho direito e
puxou Alan com todas as foras, obrigando-o tambm a ficar de p.
Aproximou-se de Edson, jogou o brao para trs e puxou-o velozmente
para frente, desferindo ento, um potente soco no nariz do homem


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ferido que j se encontrava completamente inchado. Desta vez, Edson foi
ao cho, contorcendo-se de dor.
     -- Querido!!! -- Alarmou Jlia quando chegou  sala e juntou-se ao
marido cado no cho sangrando e gemendo com a mo no nariz. Ela se
ajoelhou e deitou sobre o corpo do seu esposo, abraando. -- Por favor,
no o machuquem mais! Por favor, peguem o que quiserem e vo
embora! Por favor! Por favor! Por favor!! -- Chorou ela.
     -- Saia de cima de mim, Jlia! Ningum vai levar o que  meu, nem
que eu tenha que morrer por isso! -- Ordenou Edson aos berros
empurrando a esposa para o lado.
     -- No, querido!!! -- Gritou Jlia, temerosa e histrica.
     Senhor, tem misericrdia de ns! D-nos o livramento,  Deus! Clamava
Alan intimamente, temendo que algo mais grave acontecesse.
     Carlos observou Edson abrir a espingarda e meter a mo no bolso
da cala do pijama manchado de sangue e constatou que certamente
seria para pegar munio. Esse cara  duro de roer, pensou. No soube o
que fazer. Estava meio desorientado no momento. Precisava pensar,
voltar a ser o Carlos de um minuto atrs. Pense! Gritou silenciosamente
para si mesmo. Fugir! Sair do meio de tudo aquilo! Lembrou do chaveiro de
madeira ao lado da porta e das chaves presas a ele. Carlos deu duas
piscadelas rpidas e os movimentos comearam a fluir de seu corpo
novamente. Seus pensamentos e instintos estavam de volta. Puxou Alan
correndo para o chaveiro na parede e observou atentamente todas as
chaves. Pegou um molho com duas chaves que ligeiramente lhe pareceu
as que mais se identificaram com as de uma caminhonete e voltou-se
rpido para Edson, que j estava acabando de recarregar a espingarda.
     -- Vamos!! -- Disse ele, quando comeou a correr velozmente,
passando pela porta e saindo na varanda. Chegando aos degraus da
escada, Carlos preferiu no us-los, pulando sobre eles e chegando no
cho mais rpido. Alan foi puxado para baixo e quase se esborrachou
quando aterrissou com as pernas frouxas no solo, mas no reclamou.
Aquilo era preciso diante das circunstncias. Recomps sua postura
mais que depressa e seguiu a Carlos, que partia na direo da
caminhonete.
     -- Voc sabe dirigir? -- Perguntou Carlos.
     -- Sei.
     -- Espero mesmo que sim, e muito.
     Chegaram diante da porta do motorista no veculo e Carlos colocou
uma das chaves na tranca e girou-a. No servia. Pegou a outra com mo
trmula e tornou a enfiar na tranca, girou-a e, desta vez, a porta


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destravou. Carlos abriu-a e pulou dentro da caminhonete, ocupando o
seu lugar no banco do passageiro, pois no poderia dirigir com seu
brao esquerdo algemado. Alan entrou logo em seguida, ficando de
frente ao volante. Foi-lhe entregue as chaves do veculo.
     -- Liga logo esta coisa e vamos dar o fora daqui, agora!!
     Alan pediu a proteo e direo ao Senhor numa brevssima orao
e meteu uma das chaves na ignio, girou-a e o motor roncou com um
barulho ensurdecedor.
     Edson saiu porta afora at a varanda, empunhando a espingarda j
recarregada e mirou na direo dos invasores/ladres/fugitivos dentro
de sua caminhonete a ponto de roub-la.
     -- Irei mat-los, desgraados. Deixem minha caminhonete onda
est! -- Berrou Edson, escancarando seus pulmes.
     Alan engatou a primeira marcha e acelerou. Os pneus jogaram areia
para trs e o veculo se movimentou com todo o furor para um lado e
outro at ficar firme e ereto na estrada.
     O gatilho foi puxado e a arma sacudiu quando a bala saiu  procura
do alvo, acertando a lanterna traseira da caminhonete, fazendo-a em
pedaos. Outro disparo foi dado e a bala atravessou os pra-brisas de
trs para a frente do veculo, passando no meio dos dois homens,
fazendo-os abaixar de susto.
     -- Jesus!! -- Exclamou Alan.
     Carlos chamou um palavro.
     O carro foi acelerado ainda mais e ganhou maior velocidade,
distanciando-se de Edson e sua espingarda de cano duplo.
     Alan suspirou profundamente de olhos na estrada e agradeceu ao
Senhor pelo livramento: Obrigado, Jesus, pelo livramento que T nos deste.
Obrigado, estou muito grato.
     Carlos tambm suspirava aceleradamente, mas de olhos fechados,
deixando que Alan e o veculo o guiasse naquele instante. Ele tambm
estava muito, mas muito agradecido. Mas se perguntassem-no a quem,
no saberia responder.




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O    hospital Norton Ramos continuava com seu movimento uniforme.
    Pessoas entrando e saindo; macas sendo ocupadas; pessoas chorando,
pessoas rindo aliviadas; mdicos se concentrando para fazer operaes;
portas abrindo e fechando com enfermeiros; residentes e mdicos saindo e
entrando por elas, tudo numa ao rpida e constante. Isso entediara Axel
que, por mais que estivesse acostumado com toda a movimentao das ruas
de Melmar, no agentaria permanecer por mais um minuto nos corredores
do NR.
     Uma residente adentrou o corredor segurando uma prancheta e passou
por ele. Axel segurou em seu brao suavemente. Ela voltou-se e o encarou.
     -- Desculpe, moa, mas  que estou com um amigo aqui, um agente
policial, seu nome  Pablo Tavares, recebeu um tiro no peito e outro na
cabea, e eu queria saber sua condio atual. Se a senhorita puder me dar
alguma informao eu ficaria agradecido.
     -- Pablo Tavares... -- a enfermeira abriu a prancheta e passou o dedo
por sobre alguns nomes e parou embaixo do nome Tavares, Pablo. -- Sr.
Tavares, aqui est. Baleado com um tiro na cabea e um no peito, neste, a
bala est alojada no local. Removido para a sala de operaes s trs horas e
dezesseis minutos e seu estado  preocupante. -- A moa levantou o olhar
at encontrar o de Axel. -- Ele tem algum parente prximo?
     Parente? Axel pensou em ter se esquecido de uma coisa: ele olhou para
o relgio. 3h 23mim.



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     -- Ele tem sim, mas agora eu tenho que ir -- disse. -- Me diga uma
coisa... essa operao demora?
     -- Depende de onde a bala se encontra. Se estiver em alguma rea de
risco, pode demorar mais por ser de maior delicadeza, e como esse  o caso
do Sr. Tavares...
     Axel olhou outra vez para o relgio.
     -- Sendo assim, acho que tenho um pouco de tempo. At mais. -- Ele
andou rpido at o fim do corredor e sumiu da vista da enfermeira quando
fechou a porta da sada atrs de si.

                                 &&&

     O estacionamento do Norton Ramos era uma estrutura rstica de
concreto no muito antiga. Fora projetada um pouco depois do hospital de
emergncias ao seu lado por um arquiteto diferente do que desenhara o NR.
Sua estrutura era formada por um andar e o trreo, sendo que os dois
vages, sustentados por dezenas de colunas de concreto, davam para os
corredores do hospital que levavam  recepo.
     Axel encontrava-se em seu carro-patrulha prximo ao porto de
entrada e sada, numa vaga. Achava que a iluminao estava escassa, pois
estava um tanto sombrio. Deveria ser algumas lmpadas quebradas ou
queimadas. Estava quente tambm, pensou em no haver ali nem um tipo
de ventilao. Talvez ningum ficava naquele estacionamento por muito
tempo, s o tempo suficiente de entrar e sair do hospital. Ele abriu a porta
do carro e saiu dele, no queria ser uma exceo. Fechou a porta e trancou-a
girando a chave na fechadura. Axel comeou a andar at o porto para
tomar um pouco de ar fresco.
     Uma luz forte atingiu a entrada do estacionamento e depois se pde
ver de onde vinha. Um carro esportivo preto passou pelo porto fazendo
clarear toda a sombriedade do lugar. O veculo passou ao lado de Axel e a
pessoa ao volante acenou.
     Era Caroline. Ele acenou de volta e ela estacionou numa vaga,
apagando os faris e devolvendo a escassez luminria ao recinto.
      A bonita mulher saiu do carro e trancou a porta acionando o alarme
com um pequeno controle remoto. Ela ps-se a caminhar na direo de
Axel, guardando o pequeno aparelho na bolsa que segurava em suas mos.
Ao chegar perto do agente ela falou nervosa:
     -- Axel, o que est acontecendo realmente? Onde est Pablo? Como ele
se encontra? Como foi que aconteceu tudo isso? Como...



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     -- Calma, Caroline -- disse Axel, com um leve toque no ombro da
amiga, -- No h nada que possamos fazer no momento a no ser
esperarmos o fim da operao e o parecer dos mdicos.
     -- Operao!!??
     -- , ele est sendo submetido a uma operao, mas tenho certeza que
os mdicos esto fazendo o melhor possvel para que ele fique bem.
     Caroline respirou fundo e acalmou-se um pouco.
     -- Est certo, voc tem razo. Isso vai demorar?
     -- No sei exatamente -- mentiu --, esqueci de perguntar  enfermeira
com quem conversei, mas ela falou que a operao comeou s trs e
dezesseis, e... -- ele olhou para o relgio. -- So agora trs e meia, acho que
isso demorar um pouco mais.
     Ela ficou em silncio e apenas meneou a cabea. Axel props:
     -- Ento, acho que voc est muito tensa e eu um pouco cansado.
Conheo um trailer a alguns quarteires daqui onde se serve um bom caf
quente, e  um lugar timo pra gente relaxar e quebrar essa tenso.
     -- Me parece bom -- disse a reprter, sem muito entusiasmo. -- Assim
aproveitamos e voc me conta o que sabe sobre tudo isso, tim-tim por tim-
tim.
     Axel concordou e deram-se os braos como velhos amigos, dirigindo-se
 sada do estacionamento.
     -- Como est Tina? -- Indagou Caroline, quando j se encontravam na
rua.
     -- Ah! Minha bela esposa est cada vez mais bonita. Ela tem falado
muito de voc ultimamente. O que voc est fazendo com minha mulher?
-- Brincou o agente.
     -- Ora, eu nada, Mas algum dia...
     A voz de Caroline sumiu subitamente em meio ao alarido de sirenes
que gritaram de uma das esquinas da rua por onde caminhavam.
     -- O que  isso? -- Gritou Axel em meio ao barulho. Os dois
permaneceram em seus lugares at que uma ambulncia apareceu numa
curva fechadssima e voou at o porto principal da emergncia,
acompanhada por duas viaturas. Prontamente, os mdicos correram com
uma maca at ambulncia e um homem que estava dentro do veculo
gritou, dizendo que precisariam de mais outra.
     Um para-mdico sumiu, entrando no hospital e aps poucos segundos,
retornou empurrando outra maca. Os homens da ambulncia mais dois
para-mdicos removeram um par de leitos de dentro do veculo e
colocaram-nos no cho, posicionando-se para as trocas de macas. "Um, dois,



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trs, agora!" Disseram antes de mudarem os feridos para as outras camas de
ferro.
      -- Liguem para minha mulher! -- Resmungava um deles. -- Liguem
para ela e digam onde estou! Digam que estou bem!
      Axel achou a voz conhecida. Muito conhecida, por sinal.
      -- Espere aqui um pouco, eu j volto. -- Disse ele, se afastando da
reprter. Andou rpido e chegou at os pacientes feridos. Observou que um
deles sangrava muito, mas no pde ver quem era, pois os para-mdicos o
estavam rodeando, assim como ao outro.
      -- Droga, eles fugiram! -- Berrou o paciente resmungo.
      -- Oliver!? -- Axel chamou e perguntou ao mesmo tempo em alta voz.
      -- Qu!! -- respondeu Oliver, empurrando um para-mdico para longe
no sentido de poder enxergar quem o chamava.
      Axel se aproximou.
      -- O que aconteceu, Oliver? -- Indagou. -- Onde esto os...
      -- Fugiram, Axel. Eles fugiram; escaparam -- disse o velho tira
fazendo uma expresso de dor.
      Axel parecia confuso.
      -- Mas como escaparam? Como...
      -- No sei ao certo -- interrompeu Oliver, pensando numa mentira
outra vez -- aconteceu muito rpido. Parece que um deles tinha algum tipo
de chave, um arame ou algo parecido e conseguiu abrir a algema. -- Selton
viu isso pelo espelho retrovisor, se afobou e bateu o carro num poste.
      -- Selton perdeu o controle?
      -- Isso mesmo, --  isso ai, Oliver, voc conseguiu de novo, pensava --,
no sei como, aconteceu num piscar de olhos, sabe? Mas isso acontece sem a
gente ao menos prever... -- se contorceu com outra pontada de dor -- voc
sabe como .
      -- , eu sei, sim -- concordou Axel.
      Oliver pensou na jogada final; o xeque-mate da situao. Ele puxou ar
num arquejo simulado e decretou:
      -- Axel... eles confessaram.
      -- O qu?
      -- Eles confessaram, cara! -- Um tom de firmeza e veracidade poderia
ser detectada na voz de Oliver. -- Antes do acidente eles confessaram e
disseram que at debocharam da cara de Pablo no momento que o
liquidaram. Cara... me deu vontade de apagar eles naquela mesma hora.
      -- Calma, Oliver, vamos peg-los. No se preocupe.




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     No me preocupar? No  voc que est metido em toda essa confuso com o rei
das drogas da cidade! No  sua cabea que est em jogo! Pensou Oliver, olhando
fixamente para o jovem agente  sua frente.
     Uma mo tocou o ombro de Axel, que olhou para trs e viu quem o
tocava. O mdico piscou para ele.
     -- Desculpe-me, senhor policial, mas temos que remov-los para
dentro agora. Com licena.
     -- Tudo bem -- disse Axel cordialmente, afastando-se e dando espao
para os para-mdicos cuidarem de Oliver novamente. -- Fique bem, Oliver.
-- Observou as macas serem empurradas para dentro do hospital. Selton,
recebendo mais ateno por parte dos mdicos do que seu parceiro. Axel
permaneceu parado, fixo no mesmo lugar por um minuto, absorvendo todo
o relato do veterano tira. Toda a histria era um tanto confusa. Voltou a si e
meneou a cabea, olhou para Caroline, que ainda permanecia esperando-o
no meio da rua. Com esta notcia, com certeza ela ir ficar louca da vida, pensou
ele. Mas ela vai ter que agentar. Afinal,  uma reprter.
     Axel caminhou at Caroline e tornaram a dar os braos. Puseram-se a
andar rua abaixo, na direo do trailer Serve Bem.
     -- H algo errado? -- Perguntou Caroline.
     -- No... Ah... no, no h nada de errado.
     Caroline baixou a cabea.
     Essa no! Ela percebeu!
     -- Axel... eu conheo voc. No muito bem, mas conheo. O que h de
errado? Sua expresso mudou desde que falou com o policial l atrs. O que
foi? Alguma notcia ruim?
     Agora foi a vez de Axel baixar a fronte.
     -- Sim, mas... por favor, no me faa contar nada agora, Sta. reprter.
Quero tomar uma xcara de caf antes, t legal?
     -- Como quiser, Sr. agente.

                                   &&&

     A grande mesa estremeceu com o soco enraivecido de Vip e chamou a
ateno de todos no recinto fechado. Ele esbravejava, parecia um demnio
em pleno manifesto. Quase se podia ver um fogo desvairado em seus olhos.
     -- Admitir seu erro no vai de maneira nenhuma minimizar sua
incompetncia! -- Berrou irritado.
     Lucas, o alvo das acusaes, tentava explicar-se de todas as formas
possveis, mas todo esforo era em vo. Vip continuava a explodir crticas
ferozes:


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     -- Voc no poderia ter deixado que aquela fita permanecesse nas
mos daquele cretino! Voc no v o risco que estamos correndo agora? --
O poderoso homem levou a mo ao queixo e ento alisou os cabelos,
tentando afastar os pensamentos pessimistas. -- Droga! Agora estamos nas
mos dele -- voltou-se para Lucas, seu olhar era como uma metralhadora a
disparar furiosamente --, e no pense que ele  inofensivo e desprezvel s
porque no tem poder, porque no momento ele  mais poderoso que ns.
Vamos nos submeter a ele, e tudo por sua culpa!
     Lucas no reagiu ao desabafo. Tentou permanecer sereno e ocultou seu
impulso assassino.
     -- Vamos peg-lo, Vip,  s uma questo de...
     Outro violento soco na mesa que fez Lucas se calar.
     -- Me diga: como vamos peg-lo, se no momento no sabemos onde se
encontra?
     -- No sabemos agora, mas logo irei descobrir, e estaremos com ele na
nossa mira.
     Vip suspirou de dio, apontou o dedo indicador no rosto de Lucas e
sentenciou:
     -- Pois  bom que faa isso mesmo e logo, porque seno voc nem ir
saber o que lhe atingiu quando estiver dando o ltimo suspiro,  beira da
morte. -- dito isto, virou-se e deixou o recinto, batendo fortemente a porta
atrs de si e deixando Lucas olhando para as paredes  procura de uma
soluo para todos os seus problemas.

                                  &&&

     O trailer Serve Bem era modesto, mas que agradava quem gostava de
um bom lugar para comer um sanduche com batatas fritas ou
simplesmente tomar um cafezinho ao ar livre. Ao chegar no
estabelecimento, podia-se ver dez mesas de acrlico com o logotipo da
lanchonete, espalhadas ao redor do trailer e algumas pessoas sentadas a elas,
todas sorrindo e conversando coisas que somente interessavam a elas
mesmas.
     O proprietrio era George, um senhor de meia idade e barriga
avantajada. Axel o conhecia h algum tempo, pois sempre que tinha alguma
folga acompanhada de fome, dirigia-se ao trailer de George e experimentava
seus deliciosos sanduches especiais.
     Caroline e Axel chegaram ao trailer e sentaram a uma mesa desocupada
 dois metros da lanchonete sobre rodas.



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     -- Eu vou pedir um caf -- disse o agente. -- E voc, qual a sua
pedida?
     Caroline retirou o casaco de cima dos ombros e o colocou sobre as
pernas, junto com a fina bolsa de couro.
     -- No sei, Axel, estou muito preocupada com Pablo... No estou com
muita vontade de comer no momento.
     Um jovem rapaz vestido com o uniforme do trailer se aproximou da
mesa e abriu o seu caderninho de pedidos e prontificou a caneta para anotar
o que os clientes desejavam. Ele olhou para o jovem agente e o reconheceu.
     -- Axel! Como vai? -- Indagou o jovem. -- O que vai querer? O
especial de sempre?
     Axel sorriu.
     -- No, Patrcio, hoje no estou de comer muito. Quero apenas caf,
certo?
     O jovem anotou em seu caderno e voltou-se para Caroline.
     -- E a moa, o que vai pedir?
     -- Oh, eu no sei...
     -- Caf para ela tambm, patrcio -- intrometeu-se Axel. O rapaz
tornou a anotar em seu caderninho, pediu licena e distanciou-se deles para
entregar o pedido a George. Axel virou-se para Caroline. -- J que voc
estava indecisa, tomei a liberdade de pedir. Voc falou que no estava com
vontade de comer, e como caf no  comida... Tambm, essa bebidinha
milagrosa ir lhe acalmar um pouco.
     -- Obrigada, Axel. Mais uma vez voc est se mostrando um grande
amigo.
     O agente tocou as mos de sua amiga, tentando passar confiana e
companheirismo.
     Patrcio retornou com duas xcaras de caf quente e as colocou em cima
da mesa, pondo logo aps, um frasco contendo acar para os dois se
servirem a gosto.
     -- "Sirvam-se bem" e fiquem  vontade -- disse o jovem. -- Qualquer
coisa me chamem, est bem? Com licena. -- Deixou-os novamente,
passando a atender outras pessoas em outra mesa.
     Caroline observou-o se distanciar e comentou:
     -- Deve ser um bom rapaz.
     -- E  mesmo -- confirmou Axel. -- Mas at meses atrs, sua vida era
um verdadeiro caos.
     Os olhos de Caroline tomaram forma de algum interessada e o
impulso jornalstico tomou-lhe de conta.



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     -- J que o conhece to bem, conte-me um pouco sobre ele. Talvez me
distraia por alguns momentos.
     Axel concordou com um meneio de cabea.
     -- Para comear, o pai dele morreu, deixando a me sozinha com dois
filhos: Patrcio, de seis anos na poca e Vanessa, de trs. A me, no
suportando a barra quatro anos depois de tentar inmeras vezes arrumar
um emprego e vivendo dos favores de todos  sua volta, suicidou-se,
matando junto a filha, esta, estando j com sete anos. Patrcio, no momento
em que isso aconteceu, estava brincando com novos amigos que arranjara
nas ruas e, talvez, se estivesse ao lado da me, tambm teria sido
assassinado pela prpria me. Depois disto se viu obrigado a andar com
seus novos amigos, que mais tarde o levaram s drogas -- Patrcio passou
perto deles e Axel pausou a fim de que no escutasse. -- Nos cinco anos
seguintes ele roubou, feriu pessoas, invadiu casas e at, quem sabe, matou
pelo seu vcio ou pelos seus "amigos".
     A expresso de Caroline era de puro espanto.
     -- Nossa! Mas como ele reagiu  atitude da me? Digo, matando a si
prpria e a filha, a irm dele no caso?
     Axel experimentou o caf antes de responder  reprter.
     -- Reagiu como qualquer um de ns reagiria. Ficou em estado de
choque por uma semana numa clnica especializada, tudo bancado por um
programa de auxlio ao menor carente que o governo estava criando. Mas
depois disto, ele fugiu para encontrar os "amigos".
     Caroline tambm ingeriu um pouco do lquido escuro contido em sua
xcara e mais uma indagao fluiu-lhe a mente.
     -- E como Patrcio consegui sair disso? Quero dizer, como conseguiu
superar essa fase de sua vida e passar para essa nova? Porque acho que hoje,
quem olha para ele, nunca iria suspeitar que um dia possa ter passado tudo
isso que voc acabou de me contar. Ele me parece timo!
     O sorriso do jovem agente pde ser visto ao ouvir a opinio da
reprter.
     -- , realmente ele est timo. Mas at chegar a esse ponto, Patrcio
sofrera bastante -- Axel levou a xcara  boca, tomando mais um pouco do
seu caf. Respirou fundo e continuou o relato: -- A mudana dele para
melhor comeou com o pior. Estava to viciado que um dia tomou uma
overdose de cocana. Encontrava-se s nesse dia numa casa abandonada, mas
por muita sorte um de seus "amigos" apareceu e rapidamente ligou para a
emergncia. O socorro chegou, e por um milagre, Patrcio ainda est vivo.
     " Levaram-no para um hospital pela segunda vez, mas agora ele no
fugiu. No acho que estava em condies de fazer tal coisa. Quando estava


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se recuperando, um grupo de jovens e senhores foram visitar aquele
hospital e dirigiram-se at Patrcio. O grupo conversou com ele de um modo
diferente e o convenceram a entrar para um programa feito por eles,
chamado: " Viver Sem Drogas; Viver Com Jesus". Esse programa se baseava
em livrar pessoas das garras das drogas, diziam eles.
     Axel pausou a histria por um momento e junto com Caroline tomou
mais um gole do caf do George, que estava com sabor inigualvel. Ele
continuou:
     -- Colocaram-no em um quarto isolado para fazer a desintoxicao.
Patrcio passou dias penosos l, mas da por diante comeou a bonana.
Depois que saiu do quarto, foi encaminhado para as acomodaes e ali
conheceu vrios jovens que haviam passado o que ele estava passando,
ento se tornou amigo de todos. Patrcio foi encaminhado a um emprego
por um dos jovens que o tinha visitado a um ano atrs no hospital. Esse
jovem conhecia George e apresentou-lhe Patrcio, dando-lhe boas
referncias do seu bom comportamento quando estava dentro do programa
no centro de recuperao. George o aceitou e a est Patrcio, j com um ano
de trabalho, e isto, por coincidncia, est completando hoje.
     -- Puxa, que histria! E que vida! -- Exclamou Caroline.
     -- Isso mesmo. E olha que ele s tem dezessete anos.
     Os dois beberam mais goles do caf de suas xcaras e observaram em
silncio o jovem vencedor.
     Caroline perguntou a seguir:
     -- Axel, conte-me tudo que aconteceu com Pablo, e o que est
acontecendo agora, j que voc tomou todo caf da sua xcara.
     Ele meneou a cabea em pleno acordo.
     -- Voc conhece a quadrilha Vip? -- Especulou Axel.
     -- Sim. Pablo falava comigo sobre essa quadrilha e s vezes me
fornecia algumas matrias sobre ela para colocar no ar.
     -- Mas acho que ele nunca lhe disse o quanto perseguia essa quadrilha
e seu chefe. Parecia at a sina dele.
     -- Eu j havia percebido que ele estava metido em algo desse tipo, mas
no tanto. s vezes ele levava material para minha casa e ficava a noite toda
de olho grudado em papis e mais papis e uma vez por outra resmungava.
Pensei que fosse o cotidiano de um tira como ele. No suspeitava que fosse
to srio assim.
     Axel tamborilava os dedos na mesa enquanto ouvia a amiga, ento
resolveu que era a sua hora de falar.
     -- Ele e Caio estavam querendo pegar mesmo esses caras. Sabe, alguns
dias atrs, os dois prenderam um componente da quadrilha numa batida


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que fizeram a uma refinaria de drogas e, depois de colocar presso em cima
do rapaz, acabaram conseguindo um nmero de telefone que os levaria a
entrar em contato com a quadrilha e...
     -- Com esse telefone -- interrompeu Caroline --, no havia
simplesmente a possibilidade de descobrir a fonte?
     Axel balanou o cenho negativamente.
     -- Esses caras no so idiotas e Pablo sabia disso. Aquele telefone
certamente era roubado ou simplesmente o levaria a dois ou trs
componentes, e isso no chamava sua ateno. Ele queria algo grande.
     -- Pablo e sua mania de grandeza! -- desdenhou Caroline.
     -- Continuando... -- Axel tornou a tomar a palavra --, Pablo e Caio
telefonaram e marcaram um encontro com os traficantes para uma
transao, e pelo que Pablo me dissera, o tal de Vip, chefe da quadrilha,
sempre aparecia quando a transao era de elevadas propores, essa era a
esperana dele. Mas ento aconteceu o pior. Atiraram nele e deram sumio
em Caio. Provavelmente o queimaram como tantos outros que se meteram
com essa organizao.
     Caroline bebeu o restante do caf, achando a voz de Axel um tanto
sombria quando no relato do desaparecimento de Caio. Isso a fez formular
uma pergunta.
     -- Quantas pessoas j morreram carbonizadas por essa quadrilha?
Quero dizer, quantos policiais falharam; foram pegos?
     -- Nos ltimos trs anos a Quadrilha Vip tem agido com mais
intensidade. No primeiro ano destes trs ltimos, doze policiais foram
carbonizados quando em misso de prender a quadrilha. Parece exagero
mas foi isso mesmo. Esse foi um grande impacto na poca para todos ns da
central. Depois, no segundo ano, Pablo assumiu o caso e Caio foi-lhe
apresentado como seu parceiro dali por diante, j que este vinha de outro
distrito para c. De l para c, mais nove foram mortos da mesma forma que
os demais do primeiro ano. O ltimo, voc sabe, foi o oficial Cssio Collina.
     -- O nmero de policiais mortos diminuram bastante desde que Pablo
e Caio entraram no caso. Em dois anos depois que eles assumiram,
conseguiram diminuir mais da metade dos assassinatos -- concluiu
Caroline.
     -- Por ai se v a eficincia dos dois e o quanto estavam dando trabalho
para a quadrilha. Os policiais mortos sempre desapareciam em meio a uma
batida a depsitos, armazns, refinarias ou pontos de drogas da quadrilha e
sempre eram encontrados por Pablo e Caio depois que tomaram conta do
caso.
     -- Por que sempre pelos dois?


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     -- Isso era como um deboche. Componentes da quadrilha sempre
ligavam para eles dizendo onde encontrar os corpos, e os dois ficavam
furiosos com essa atitude dos traficantes. S eu sei como isso os deixava.
Mas isso no servia para outra coisa seno para alimentar ainda mais a gana
que os dois tinham de colocar as mos em Vip e sua quadrilha. Mas, por
ironia, provavelmente Caio  mais um a fazer parte daqueles que foram
assassinados por eles, e Pablo, s no passou a ser mais um por sorte.
     Uma expresso espantada pde ser observada no rosto de Caroline.
     -- Como ?
     Axel respirou fundo antes de responder.
     -- Quando chegamos l, haviam dois caras no local. Um estava cado
no cho e outro estava baixado ao seu lado. Perto deles encontrava-se a
possvel arma do crime e uma garrafa grande contendo gasolina, e... j
sabemos para que ela serviria, no ?
     O agente olhou para a reprter e percebeu o quanto quela histria
perturbava-a. Ela perguntou:
     -- Mas por que deixar Pablo ali e levar Caio? Por que no levar os dois
e carboniz-los em outro lugar para depois, quem sabe, fazerem o mesmo
jogo que faziam com os dois a outros que assumiriam seus lugares?
     -- Talvez por que quisessem mostrar mais uma vez que pessoas como
Pablo, que arruinaram tanto suas transaes e perturbaram de maneira
agressiva suas vidas, sempre acabariam daquele jeito, sem forma alguma,
sem nenhuma possibilidade de reconhecimento, que por mais que
quisssemos ser ou demonstrar ser a lei da cidade, no seramos mais do
que realmente somos: p.  isso que eu acho.
     Lgrimas rolaram dos olhos de Caroline, que teve que abrir a bolsa em
seu colo e pegar um leno para enxug-las.
     -- Oh... me desculpe -- disse Axel. -- No queria deix-la assim...
     Ela meneou a cabea, lutando para que a voz sasse de sua boca.
     -- Isso tudo... -- balbuciou -- to de repente... parece que tudo
desmoronou. Num momento sonho com o homem da minha vida, e em
outro me deparo com a notcia que ele foi apanhado por uma quadrilha e
est  beira da morte numa sala de operaes.
     Axel esticou o brao e tocando o ombro de Caroline, tentando confort-
la.
     -- Sinto muito, amiga. Mas Pablo vai sair dessa, voc vai ver.
     Caroline forou um sorriso sem graa.
     -- Obrigada -- agradeceu, soltando um longo suspiro. Olhou em volta
e indagou com voz abafada: -- Axel... voc falou que encontrou, quando
chegou no local marcado por Pablo com os traficantes, dois homens que


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iriam... inciner-lo. O que os esses miserveis disseram? Eles declararam
alguma coisa? Onde eles esto agora?
     A hora da verdade, pensou o agente. Pensou em se desvencilhar, mas
seria impossvel.
     -- Onde eles esto  o que todos os policiais de Melmar gostariam de
saber -- disse ele com expresso de decepo.
     -- O qu?
     -- Aquele homem com quem acabei de falar  policial e foi ele quem se
encarregou de lev-los para a central. Mas antes de chegarem l, houve uma
coisa que no consigo agora lembrar direito. Mas Selton, seu parceiro,
acabou batendo a viatura num poste e em conseqncia disso, eles fugiram.
     -- Meu Deus do cu! -- Exclamou Caroline.
     -- No se preocupe, Carol. Iremos pegar esses dois e toda a quadrilha.
J temos unidades andando por toda cidade e logo teremos alguma coisa
nas mos que nos possa auxiliar neste caso.
     Caroline no falou nada por um momento. Mantinha o olhar fixo na
mesa. Axel se perguntou se ela havia escutado o que dissera a um minuto
atrs. O olho da reprter piscou, ela levantou o olhar para Axel e
permaneceu assim.
     -- No vou ficar parada enquanto tudo isso se passa a um palmo do
meu nariz.
     -- Do que voc est falando? -- Especulou Axel.
     -- Voc vai ver.
     Caroline retirou o casaco de cima do colo e abriu a bolsa. Revirou-a e
observou seu contedo. Pegou um telefone celular e digitou um nmero.
Edgar atendeu no terceiro toque.
     -- Al -- balbuciou ele do outro lado da linha.
     -- Edgar, aqui  Caroline. Estou com uma grande matria nas mos,
mais do que quente e exclusiva, e no podemos deix-la escapar de ns e
ver outra pessoa peg-la.
     -- Carol... -- houve uma pequena pausa -- so quase quatro da
madrugada...
     -- Edgar -- interrompeu a reprter --,  algo grande e voc  o cmera
mais amigo e confivel que conheo no Sete. Preciso de voc. Preciso desta
matria o mais rpido possvel no ar. Por favor, Edgar... Parte de mim est
em jogo! Por favor!
     Desta vez, o silncio demorou um pouco mais. Caroline sabia que tinha
interrompido Edgar no meio do seu sono ou, quem sabe, do seu namoro
com a esposa e que no momento provavelmente estava pensando se iria
continuar o que estava fazendo ou atend-la.


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     -- Tudo bem -- disse por fim Edgar. -- Onde voc est?
     -- Estou no NR. Vou ficar te esperando na entrada do estacionamento.
Venha depressa, e Edgar...
     -- O qu?
     -- Obrigada.
     -- Te vejo daqui  meia hora. At j.
     Caroline despediu-se, apertou o boto desligar e fitou Axel.
     -- O que voc est fazendo? -- Indagou o agente.
     -- Apenas tentando colocar algo em suas mos que possa auxili-lo
nesse caso e... ajud-lo a pegar as pessoas que fizeram isso com Pablo.
     Nesse momento, Patrcio aproximou-se novamente, pediu licena e
retirou as xcaras da mesa. Caminhou de volta ao trailer, mas num instante
virou-se e retornou  mesa.
     -- Axel...
     -- Pois no, Patrcio?
     -- Desculpe a interrupo, mas  que hoje faz um ano que comecei a
trabalhar aqui no trailer com o George, e...
     -- Eu j sei, Patrcio. Parabns por isso.
     Caroline apenas observava o dilogo dos dois.
     -- Pois  -- continuou Patrcio. --  que nesta data eu no poderia
deixar de agradecer pelo menos uma das pessoas que me tirou das ruas e
me levou para o centro, me ajudou ao longo dos anos a ser algum e por fim
me trouxe pra c. -- O jovem levou a mo a um dos bolsos da cala jeans
que usava e puxou um pequeno embrulho, entregando-o ento ao agente.
-- Obrigado Axel, pelo que voc fez por mim no hospital e continua
fazendo at hoje.
     Patrcio esticou a mo e Axel apertou-a calorosamente.
     -- De nada, Patrcio.
     Caroline olhou para seu amigo agente boquiaberta, mas igualmente
comovida. O tempo todo, quando Axel mencionara quem ajudara
Patrcio, falava de si mesmo.




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N   enhum sinal de vida foi avistado durante os quarenta quilmetros
    que a caminhonete havia percorrido desde a sua captura. A estrada
parecia mais uma pea de tric comprida, de tantos buracos que haviam
espalhados por sua extenso. Ao redor, as paisagens eram ocultadas
pela escurido que cobria a noite como um manto negro e sem fim.
Somente se podia divisar a estrada do acostamento graas s luzes dos
faris que cortava o negror da noite, tornando tudo na frente do veculo
um pouco mais visvel.
     Alan mantinha os olhos fixos na estrada, desviando sempre que
possvel dos buracos que de repente apareciam na frente da caminhonete
fazendo-a estremecer e dar saltos incontrolveis. Que estrada  essa afinal?
No foi por aqui que viemos, pensou o servo de Deus, desconfiando no estar
no caminho certo.
     Carlos apenas olhava a escurido pelo vidro da porta onde se
encontrava encostado, enxergando o nada l fora. Vazio e assustador, como
a sua vida; seu passado, presente e futuro, se  que o futuro ainda existiria
para ele. No conseguia pensar num futuro; para sua vida ou simplesmente
formar uma imagem na mente de como seria ela dali para frente. Acabaria
ele o resto da sua vida atrs das grades, se  que os policiais da cidade o
deixariam viver para isso? Ou simplesmente morreria abatido pela
Quadrilha? Essa era as nicas possibilidades que se acumulavam em sua
cabea alm da desordem que a ocupava. Tentou afastar esses pensamentos


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com uma leve cabeada no vidro da porta. Vip, o estranho ao seu lado
ligado a ele por uma algema, Lucas, o policial morto, toda a polcia de
Melmar, Nicole... S esses problemas j bastavam no momento para manter
os neurnios fervendo.
      Alan desgrudou os olhos da estrada e fitou Carlos, observando seu
estado de hipnose. Era como se ele pensasse em alguma coisa ou... em
algum.
      Algum. Alan lembrou-se de Melina e seus filhos. Como estavam se
saindo com sua ausncia? Sem o seu sorriso que os alegrava nas horas de
tristeza, sem seu ombro amigo? Mas Melina  forte, pensou, s vezes  mais do
que eu. Deus queira que estejam bem. Mesmo com os olhos abertos e voltados
novamente para a estrada, ele se ligou com o cu.
      Senhor, orou, cuide de minha famlia, proteja-os de todo mal e no os deixe
sentirem-se amargurados ou angustiados. Mostra-lhes que teus planos nunca so
frustrados e que o teu amor  maior e mais forte que tudo. Console a cada um deles,
pai, e d-me foras para continuar nesta caminhada. Completa a tua vontade em
minha vida. Em nome do Senhor Jesus eu te peo e desde j te agradeo, amm.
Enxugou uma lgrima que lhe correu o rosto e tornou a voltar o olhar para
Carlos, que continuava vagueando em pensamentos.
      -- Voc est bem? -- especulou Alan.
      Sem virar o rosto, Carlos respondeu:
      -- Se voc se sente bem com tudo o que aconteceu at agora...
      -- Desculpe-me -- Alan desviou de um buraco. -- Posso fazer uma
pergunta?
      Desta vez, Carlos voltou-se e fitou Alan nos olhos por um momento,
ento, sem nada a declarar, virou o rosto novamente para a janela,
retornando a observar a escurido.
      Alan no soube o que aquele olhar significou, ou no quis saber.
Continuou:
      -- Voc tem famlia? Algum prximo... Algum que goste?
      Silncio.
      Alan desviou de outro buraco que j se encontrava em cima da
caminhonete. No disse mais nada, mesmo curioso.
      -- Mais ou menos -- falou Carlos, ainda de olho para alm da janela.
      -- Como assim?
      -- Por que voc est me perguntando isso, hein? Por acaso voc 
homossexual e est interessado em mim?
      Alan sorriu ao ouvir aquilo.
      -- No, no sou homossexual, e sim, de certa forma estou interessado
em voc.


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      -- Vem c -- Carlos tirou os olhos do nada e tornou a fitar Alan --, me
diz uma coisa, cara: quem  voc, o que quer de mim e o que voc estava
fazendo l no meio da transao?! -- Indagou explosivo.
      -- Sou um amigo.
      -- Amigo? -- riu Carlos. -- D pra explicar melhor... amigo?
      -- Meu nome  Alan Williams, seu amigo, e... -- outra cratera -- entrei
nessa para ajud-lo a mando de uma pessoa, que alis, tambm  muito seu
amigo.
      -- Quer dizer que voc foi at l para me ajudar, a mando de algum
que tambm  muito meu amigo? -- Carlos levou as mos aos cabelos
escuros e alisou-os, um tanto impaciente.
      --  isso ai.
      -- Ajudar-me --repetiu o traficante. --  o que voc estava fazendo l.
Mas fica difcil ajudar uma pessoa quando se est na mesma situao que
ela, no acha?
      -- No quando se tem algum ajudando quele que quer ajud-lo.
      -- E quem seria essa pessoa?
      -- Deus.
      Carlos levou as mos ao rosto.
      -- Cara, voc  doido! -- falou, e mal fechou a boca e de repente a
caminhonete morreu, parecendo que a concluso de Carlos soara como um
tiro, que atravessara o painel de fibra  sua frente e atingira o motor que
agora se encontrava parado.
      -- Ei, no-para-no! No precisa parar pra gente discutir as suas
loucuras -- disse ele.
      -- No fui eu. O motor parou.
      O veculo foi diminuindo de velocidade at cessar de andar.
      -- E o que aconteceu? Voc colocou um feitio nele com a ajuda de
Deus?
      Alan aproximou o rosto do painel e passou a observar os leitores.
      -- J sei o motivo do qual paramos: a gasolina acabou -- disse. Tentou
dar partida, mas o motor no funcionou.
      -- Essa  boa! -- Carlos levou as mos ao alto. -- Nosso amigo da
espingarda  esperto. Ele no deixa no tanque nem o suficiente para se
chegar at a cidade. Deve ter combustvel guardado em casa.
      -- E agora?
      -- Agora vamos ter que andar mais, at chegarmos  cidade. -- Carlos
acendeu a luz interna da caminhonete e abriu o porta luvas, mexendo ento
nas coisas que continham dentro dele. Por sorte, encontrou o que estava



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procurando: uma lanterna. -- Vamos precisar disso at l se no quisermos
tropear em mais alguma pedra.
     Os dois abriram as portas simultaneamente, cada um querendo sair
pela porta mais prxima. Ento trocaram um olhar, perguntando um ao
outro atravs dos olhos, por qual lado sair.
     -- Vem por aqui -- disse Carlos, que saiu por sua porta, seguido por
Alan, e comearam a caminhar pela trilha criada pelas luzes dos faris que
se estendiam at mais adiante.
     Depois de algumas passadas, Alan parou, e Carlos, que olhava para
frente fixamente, s percebeu isso quando a algema esticou, puxando-o de
volta para trs.
     -- O que foi agora? Est recebendo alguma mensagem do alm?
     -- No, escute! -- Alan fez sinal para que ficasse em silncio.
     Ficaram atentos a qualquer rudo que fosse.
     -- No estou ouvindo nada! -- disse Carlos. -- Como eu disse, voc 
pirado.
     -- No est ouvindo o barulho da sirene? -- Alan perguntou meio que
assombrado.
     -- Que sirene, cara?
     -- Sirene de um carro de polcia! -- Exclamou Alan, que comeou a
andar de volta  caminhonete puxando Carlos.
     -- Ei! Pra onde voc pensa que vai? A tem que ir para l!
     Alan voltou o rosto para Carlos com olhar de simplicidade.
     -- Confie em mim, por favor -- pediu. E de alguma forma, Carlos foi
tocado pelo olhar simples do homem  sua frente, tanto que no soube o
que dizer. Apenas andou tambm de volta ao veculo.
     Ao chegar  caminhonete em estado de inrcia, Alan abriu a porta do
lado motorista e apagou os faris e a luz interna, deixando assim tudo
escuro ao seu redor. Carlos acendeu a lanterna e iluminou seu rosto, que
com as sombras a cobrir alguns contornos da sua face, ficou parecido com
cena de filme de horror.
     -- Apague isso e venha comigo -- disse Alan, que caminhou em
direo s rvores e plantas (que ladeavam a estrada) do lado esquerdo da
caminhonete e adentrou junto com Carlos novamente no meio da mata.
Pararam e agacharam-se atrs de uma grande rvore no muito longe do
carro.
     Algo chamou a ateno, que comeou a olhar de um lado para outro 
procura de algo especfico. Sim, o homem estava certo. Agora ele podia
ouvir o barulho de sirene vindo em sua direo e a cada segundo tornava-se



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mais intenso, dando para se calcular que a viatura estava em alta
velocidade, se aproximando rpido.
     Os dois se esconderam ainda mais e ficaram na escuta. Estavam de
olho na estrada quando um feixe de luzes coloridas iluminou-a, fazendo
parte da escurido tornar-se clara. A viatura diminuiu a velocidade
aproximando-se da caminhonete at parar ao seu lado. Um dos dois
policiais que existiam dentro do carro-patrulha ligou uma lanterna e
apontou-a para o veculo abandonado, aparecendo com isso, um crculo
luminoso que varria todo seu interior.
     Os policiais saram da viatura e sacaram as armas, ficando de
prontido. Rodeando a caminhonete, olharam a cabina e a caamba, que
estavam vazias. O da lanterna falou:
     -- A caminhonete descrita  essa -- ele caminhou at a frente do
veculo e tocou o cap.
     -- O que aconteceu? Por que a abandonaram? Mais um pouco e
estariam dentro da cidade e poderiam vend-la para um desmanche! --
especulou o outro tira, que tambm acendeu sua lanterna e entrou na cabina
da caminhonete.
     Carlos olhou para Alan, que compreendeu o gesto. Eles estavam na
direo certa e prximos da cidade. Carlos se mexeu um pouco e pisou
numa folha seca, provocando barulho perceptvel.
     -- O que foi isso? -- perguntou o policial que se encontrava fora da
caminhonete, virando rapidamente na direo do local onde se originara o
som. Com uma mo ele segurava a arma de prontido e com a outra a
lanterna, focalizando a luz na mata escura, tentando enxergar quem ou o
que havia feito o barulho.
     Carlos imobilizou-se instantaneamente a ponto de prender a
respirao. Seu corao batia a mil. Foi uma mancada e tanto se mexer
naquela hora, pensou. Queria chamar um palavro, mas no podia. O
policial se aproximava cada vez mais de onde estavam.
     -- Vamos embora! -- chamou o outro tira que estava revistando a
caminhonete por dentro. -- Deve ser algum lagarto ou outro bicho do
mato...
     -- O motor est quente. Acho que eles devem estar por perto.
     -- No perto daqui, tenho certeza. Se voc fosse ladro de carros e o
veculo que tivesse roubado faltasse gasolina, acho que voc no iria esperar
o guincho, iria? J que no h nenhum posto por aqui, voc no iria
empurrar para parte alguma.
     -- Faltou gasolina?
     -- Diesel, para ser mais exato.


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     O policial perto das rvores pensou por um momento -- o que fazia
Carlos sentir um desespero quase insuportvel -- e comeou a andar de
volta  caminhonete.
     Graas a Deus, Alan agradeceu.
     -- Acho que voc tem razo -- disse o policial, j junto ao parceiro. --
Vamos embora e notificar ao Sr. Edson Kruller que seu veculo est a salvo.
     Os dois homens da lei dirigiram-se  viatura, entraram e seguiram em
frente levando junto com eles toda a luz que clareava a estrada, deixando-a
novamente na mais completa e densa escurido.
     Alan e Carlos permaneceram dentro da mata por mais alguns instantes
e depois saram, tirando do corpo algumas formigas mordedoras que j h
algum tempo os atacavam.
     -- Nunca pensei agentar tanta formiga me mordendo por um tempo
to grande -- falou Alan, coando os braos e com Carlos ao seu lado
fazendo o mesmo.
     -- Estvamos na direo certa -- Carlos recordou.
     -- , eu ouvi.
     -- Ento vamos. No quero perder tempo algum. Quanto mais rpido
eu estiver de volta  cidade, maior ser a minha chance de reverter minha
condio.
     Deram uma ltima sacudida nas calas e prosseguiram na direo em
que estavam seguindo anteriormente.
     Carlos tornou a acender a lanterna, passando a iluminar a estrada,
varrendo a escurido de l para c e vice-versa, podendo assim enxergar um
pouco do que se encontrava  sua volta. O foco bruxuleante da lanterna se
limitava  dez metros de distncia e fazia o cho tremer, o que os fazia andar
cautelosamente e ficar sempre na expectativa do que estaria alm dos dez
metros que a luz do objeto proporcionava. A escurido era aterrorizante,
tanto que parecia querer engoli-los, trag-los, devor-los. A sensao que se
tinha era de que havia a todo instante algum a espreitar, vigiando-os e
perseguindo-os.
     Os dois continuavam a andar por entre o manto negro. O vento que
soprava na noite mida e silenciosa fazia-a ainda mais assustadora, eriando
os plos dos corpos dos fugitivos. Carlos permanecia calado e sempre 
frente de Alan, segurando a lanterna coma mo direita estendida diante do
corpo. Observou pelo foco luminoso algo a dez metros adiante e parou.
     -- Olhe aquilo -- disse.
     Alan olhou a forma inanimada e indefinida em silncio. Andaram um
pouco mais e observaram mais atentamente. A cada metro percorrido, a



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visibilidade se tornava mais ntida, at que puderam distinguir a matria
antes desconhecida.
     -- Bem-vindos  Melmar -- Alan, com um leve sorriso, leu as palavras
luminosas ao foco da lanterna escritas numa placa verde.
     Carlos continuou com a expresso fechada de sempre. Conservou-se
quieto por um momento, depois declarou:
     -- Estamos de volta ao lar, onde vai dar-se inicio o novo pesadelo.

                                  &&&

      Aps terem pagado pelos cafs no trailer do George, Axel e Caroline
voltaram para o hospital de emergncias Norton Ramos. Andando pelos
corredores, Axel avistara a mesma residente a quem pedira informaes 
uma hora atrs. Perguntara sobre Pablo outra vez, e ela tornou a consultar a
prancheta.
      -- Sr. Pablo Jordan... Ainda se encontra na sala de operaes quatro.
Remoo de bala alojada no corpo, prximo ao corao e uma cirurgia no
crnio.
      Axel olhara para Caroline e achara que as ltimas palavras da residente
eram como flechas a penetrar seu corpo. Ele encontrara no olhar vago da
reprter a certeza de seus pensamentos: uma angstia profundamente
amarga.
      -- Voc sabe se isso ainda vai demorar? -- Axel perguntou.
      --  provvel que isso demore mais algumas horas. So duas
operaes muito delicadas e de enorme risco.
      Caroline baixara o olhar turvo, tentara se controlar, mas uma lgrima
teimou em rolar pelo seu rosto.
      -- Ele tem alguma chance? -- perguntou a reprter lentamente.
      A residente olhara em seus olhos.
      -- No sei lhe responder a esta pergunta, moa, infelizmente --
mentira ela. No tivera coragem de dar a resposta exata: sinto muito lhe dizer
isso, mas o senhor Jordan tem pouqussima chance.

                                  &&&

    Depois da conversa com a residente, Caroline procurou uma cadeira
para se sentar. Encontrou um banco em um dos corredores do hospital.
Sentou-se e pranteou sob o olhar angustiado de Axel. Ela ficou assim por
quinze minutos at que se recomps e disse que ia ao banheiro para retocar
a maquiagem, pois tinha algo importante a fazer. Quando voltou, dirigiu-se


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ao estacionamento do NR. Axel continuava ao seu lado, curioso com o que a
reprter estava tramando. Do estacionamento, caminharam  rua e l
encontraram um furgo dourado no acostamento. Havia um letreiro de cor
vermelha escrito Canal Sete no veculo.
      A porta corredia do furgo foi aberta e Edgar saltou para fora com
uma expresso ainda meio sonolenta.
      -- S voc mesmo para me tirar da cama uma hora destas, e ainda por
cima justo no meu dia de folga -- murmurou Edgar.
      Caroline teve que rir da cara do seu colega de trabalho.
      -- No vai se arrepender, Edgar -- disse. -- Essa histria ir nos
colocar no auge e todos batero palmas para ns.
      -- Espero que sim. Se no, irei passar um ms inteiro acordando voc
de madrugada.
      -- Edgar, no confia em mim!?
      -- No confio em reprteres! -- gracejou ele.
      Caroline realmente gostava de trabalhar com Edgar. Ele era um
homem mediano, cabelos negros e olhos castanhos. Mas no era isso que
chamava sua ateno e fazia com que gostasse de sua companhia, mas sim o
jeito alegre e sincero com que trabalhava.
      Uma certa vez, Edgar estava para cobrir uma matria com Stela Viaglle,
uma reprter novata que iria fazer sua primeira reportagem. Ela iria falar
sobre a queda de um jato particular que vitimou seis pessoas. Entre elas, um
mega empresrio conhecido mundialmente.
      Edgar olhara para Stela e observara seu jeito nervoso, varrendo
mentalmente seu bloco de anotaes num turbilho.
      -- Dez segundos para entrarmos no ar -- anunciara Edgar. -- Nove,
oito, sete, seis, cinco, quatro, trs, dois, um. Agora  com voc.
      A imagem ao vivo de Stela aparecera em todas as telas de Melmar que
estavam sintonizadas no Jornal Sete no Sete. Stela estava dentro de um fino
terno e saia cor-de-rosa que logo se transformaram numa cor mais escura
por causa do suor que se esvaa dos poros da reprter.
      -- Bem... -- balbuciou ela. -- Estamos, ah... aqui no complexo... --
olhara para o seu bloco de anotaes. -- complexo agropecurio... onde ao
invs da esperada chuva de vero, caiu o avio particular do Sr. Fbio
Santelo...
      Na central de jornalismo do Canal Sete, muito longe dali, Hlio Menz, se
desesperava.
      -- O que essa louca est fazendo?! No  um avio, e sim um jato! E
no  do Sr. Santelo, que droga!!! -- ele ligara o rdio. -- Edgar! Edgar! Tira
esse projeto de reprter da! Corta tudo! Corta!


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     A imagem do ncora do jornal voltara a aparecer na tela outra vez.
     -- Voltaremos logo mais ao complexo agropecurio, onde caiu o jato
particular da JanAir em que estava Fbio Santelo.
     Os minutos se passaram e a tenso aumentara na central de jornalismo
do Canal Sete. Hlio Menz telefonara para todos os reprteres de sua lista
particular, nenhum estava disponvel.
     -- Se depender de mim, essa mulher no cobrir mais nem um
concurso de ces! -- explodira ele.
     A voz de Hlio tornou a soar no fone de ouvido de Edgar.
     -- Edgar?
     -- Sim -- respondeu o cmera-man.
     --  com voc.
     -- O qu?
     -- No encontrei um reprter sequer para substituir essa mulher, e no
vou deixar que ela continue e fale mais alguma besteira ao vivo.
     -- Mas... Hlio, no sou reprter! Sou apenas o cara que fica atrs da
cmera, lembra?
     -- Eu sei, Edgar, mas no temos outra escolha. Sei que voc tem muitos
talentos e confio em voc. Por favor, no falhe, e... d um show de notcias
para que essa Stela aprenda alguma coisa.
     E Edgar dera um grande show, fora brilhante. Colocara a cmera sobre
um suporte e a controlara com um pequeno controle remoto. Quando
aparecera no ar, pde-se ler no canto inferior direito da tela as palavras:
Edgar Serra-- Reprter.
     Hlio oferecera a Edgar uma vaga de reprter especial no Canal Sete.
Ele recusara, dizendo que havia achado tudo muito exaustivo e que
preferiria permanecer em sua profisso, pois era disto que gostava de fazer.
     Depois desse episdio, Edgar ficara muito conhecido no meio
jornalstico, mas nem mesmo assim perdera a simplicidade, nem ignorara
suas amizades. Caroline tirara a prova dos nove h muito tempo. J eram
grandes amigos quando tudo aquilo acontecera, e nada mudara depois
disso.
     -- Muito bem, o que est acontecendo? -- indagou agora Edgar.
     -- Edgar, quero que prepare a cmera e grave tudo o eu disser, mostre
o que eu apontar, pegue tudo e depois quero que leve a fita para o Hlio.
Diga que eu mandei e que pedi para rodar esta fita ainda hoje no jornal da
manh.
     -- Hoje? J?
     -- Sim.  importante que isso saia no ar o mais rpido possvel,
entendeu?


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     Edgar respondeu balanando a cabea afirmativamente.
     Caroline se voltou para Axel.
     -- Oh... este  Axel Brendel, agente policial do distrito de Melmar.
Provavelmente ficar encarregado do caso que vamos mostrar.
     Os dois homens se cumprimentaram.
     -- Axel -- falou Caroline --, quero que me d uma descrio dos caras
que fugiram. Uma descrio bem detalhada, certo?
     Caroline pegou o microfone, passou a mo pelos cabelos para ter
certeza que estavam no lugar, respirou fundo com os olhos fechados e
abriu-os com expresso confiante. Olhou diretamente para a lente da
cmera, fazendo um sinal para Edgar.
     -- Muito bem, grave.

                                 &&&

     O beco era escuro e muito sujo e isso significava que algum j havia
estado ali antes em algum momento. O cho estava encharcado, as paredes
pichadas, o odor era quase insuportvel. Tudo isso levava a pensar que
quem ficasse por ali certamente, assim como os ratos, no teria mais outro
lugar para aonde ir ou... se esconder.
     Uma luz se acendeu no canto do beco. Alan adentrou a claridade e
sentou-se bem abaixo da luz, exatamente no centro dela. Seu aspecto era de
exausto, angstia, medo, desespero, solido. Parecia estar a chorar sob a
luz que o iluminava. Parecia sussurrar algo inaudvel. Num momento, Alan
cochilou e sua cabea tombou para frente, as lgrimas ainda visveis no
rosto cansado. O sono parecia reparador.
     De repente, pde-se ouvir um bater estridente de asas. O que quer que
fosse, parecia estar por todos os lados do beco. Um pequeno vulto cortou a
luz rapidamente de um lado para outro, depois dois vultos fizeram o
mesmo, depois trs, quatro, cinco... Agora eram dezenas deles. Morcegos.
Grandes morcegos sedentos por sangue. Todos eles, inconvenientemente,
fizeram um vo rasante, acertando Alan com suas asas. O homem de Deus
despertou do sono num salto. Um morcego, destacado por seu enorme
tamanho, voou por debaixo do queixo de Alan e o arranhou no pescoo.
Alan jogava os braos para o ar, protegia os olhos, debatia-se. Tudo era em
vo. Os morcegos insistiam em querer sug-lo e davam a impresso de que
nunca iriam se dar por vencidos.
     Por um momento, Alan observou algum se aproximar. Uma sombra
que aparentava-lhe ser familiar. Um morcego, aproveitando o descuido do
seu oponente, mordeu-o rapidamente no ombro. Alan gritou de dor e


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passou a defender-se novamente. A sombra caminhou at a claridade, onde
se transformou em uma forma definida. Agora, Melina podia se ver
claramente. Estava com um vestido branco, um branco sem igual. Ela olhou
para Alan. Pde ver nitidamente, como l das sombras no podia, o ataque
fulminante que os mamferos voadores mantinham sobre seu marido, que
encontrava-se acuado. Cercado pela luz, mas precisando de ajuda. Ela
comeava a desesperar-se, assim como Alan j estava h tempos.
     Melina olhou para o cho, procurando algo que pudesse atirar contra
os morcegos, mas tudo o que pde encontrar foi papis, cascas de frutas
podres e outras coisas que certamente no os machucariam. Melina no
suportava mais olhar a cena diante dos seus olhos. Os morcegos se
acumulavam sobre Alan, fazendo-o se encolher. No!! Gritava ela. Deixem-
no em paz!! Mas os vultos no retrocediam; no a ouviam. Era como no
estivesse realmente ali. Subitamente, Alan olhou para ela, e com uma
expresso fadigada, gritou alguma coisa que ela no pde ouvir. Melina
tentou ler seus lbios, repetia os movimentos dos lbios do marido, dando
som a eles. Socorro, amor! dizia ele. Ajude-me, querida. Socorro! Melina tentou
correr ao seu encontro e ajud-lo a afastar, matar os morcegos ou qualquer
coisa que os fizessem parar de mord-lo, cort-lo, assust-lo, mas no
conseguiu. Suas pernas no se moviam, no se precipitavam para frente.
Melina gritou de angstia e desespero. Estava impotente diante a carnificina
 sua frente. Caiu de joelhos e ps o rosto no cho junto ao lixo. Senhor,
proteja o Alan! No deixe que ele morra! Clamou em alta voz. Leve esses morcegos
embora, Jesus! No abandone o meu Alan! Melina no pde falar mais nada. As
lgrimas tomaram conta da sua face e a sua voz transformou-se em soluos
incontrolveis.
     Em meio ao matraquear das asas das aves negras, Melina ouviu algo
bater no cho ao seu lado como que houvesse cado. Com esforo, ela olhou
para o lado e enxergou uma arma. Uma arma diferente, reluzente, linda.
Sem hesitar um minuto, pegou a arma e apontou para os morcegos. Alan
observou-a e levantou-se. Melina atirou, atirou e atirou, sem fazer mira. O
que saia do cano largo da arma no era nada parecido com uma bala, mas
sim com um raio, que saa cada um ao encalo de um morcego faminto.
Melina via que  medida que os raios acertavam o seu alvo, as aves negras
caiam no cho e transformavam-se em ratos, que se refugiavam sem
cerimnia. Um por um foram caindo e sofrendo a metamorfose.
     Alan observava o acontecimento e sem mais temer, passou a esmagar
com o p os pequenos roedores, que h momentos atrs queriam mord-lo e
sugar seu sangue. Melina continuava a atirar nos morcegos que ainda



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restavam e Alan a esmagar com pises os inofensivos ratos que teimavam
em fugir para longe dos seus ps...

                                    &&&

     Melina abriu os olhos subitamente. O suor corria-lhe o rosto e seus
lenis estavam encharcados do mesmo lquido. Encontrava-se arquejante e
com o corao  mil por hora. Puxou ar at que seus rgos tornaram a
trabalhar normalmente. Ela se sentou  beira da cama e levou a mo ao rosto
para enxug-lo. Em sua mente continuava imagem de Alan sendo atacado
por morcegos sanguinrios.
     Socorro, amor! ajude-me, querida! Socorro!
     O sonho fra bastante assustador, mas tudo era bem claro para ela.
Alan deve estar em apuros, cansado, com medo. Sabe que est sob a luz que  o
Senhor, mas mesmo assim sente o perigo que o envolve. Muitos devem ser esses
perigos e ele precisa de ajuda. Minha ajuda, pensou Melina. Irei ajud-lo sim, meu
querido.
     Colocou-se de joelhos ao lado da cama e prostrou-se, a cabea no
cho como no sonho. A terra foi ligada com o cu e o clamor de Melina
subiu ao Trono da Graa. A ajuda certamente chegaria.




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                                            Captulo 8



A   avenida Amaredo era uma das principais avenidas que davam acesso 
   cidade de Melmar. Com alguns dos maiores bancos e lojas de grifes
famosas espalhadas ao longo dela, tambm era sempre uma das mais
movimentadas em horrio comercial. Mas agora, o relgio digital no
anncio do Dirio de Melmar mostrava 4h e 13mim. A Amaredo no se
encontrava mais repleta de investidores ou pessoas pagando suas dvidas,
ou muito menos gente comprando roupas de marcas caras. Agora, a
avenida estava servindo de abrigo para alguns mendigos, prostitutas,
meninos de rua e casais nada romnticos. Podia-se dizer assim: nem mesmo
quela hora da madrugada, a Amaredo parava. Era inconfundvel que as
pessoas espalhadas ao longo da avenida naquele horrio no eram nada
comuns, e isso era propcio para que Carlos e Alan pudessem vaguear sem
grandes preocupaes pela grande avenida.
     Os dois caminhavam lado a lado, prximos um do outro, ocultando a
algema que insistia em cintilar. Alan no podia deixar de olhar para cada
mendigo, prostituta e menor abandonado por quem passava. Eram
considerados a escria da comunidade, quando na verdade, no eram nada
mais nada menos do que as mais desprezadas dela. No tinham ningum e
com quem contar no mundo a no ser com eles mesmos. No dependiam de
algum que fosse, se no de seus chapus, armas e corpos. Era degradante
para Alan observar tudo aquilo, mas no conseguia deixar que nada lhe
passasse despercebido. Carlos notou isso.


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     -- No olhe muito para eles -- alertou --, a no ser que queira se meter
em encrencas, isto , mais ainda do que j est metido.
     Alan entendeu e tentou desviar o olhar de cada pobre homem e
mulher, assim como tambm de cada criana suja e mal tratada que se
encontrava jogada nas caladas sem ter para aonde ir.
     Uma lgubre voz se fez ouvir em meio ao silncio da noite.
     -- Por favor, ajudem-me, senhores. D-me algum trocado para que eu
possa comprar algo para comer e matar minha fome!
     Alan olhou para o lado e enxergou uma velha maltrapilha sentada
sobre um pedao de papelo no cho. Ela havia erguido a mo para que
pudesse pegar aquilo que Alan e Carlos viessem a dar. O servo do Senhor
fitou-a nos olhos e pde ver algo diferente, algo que no se encontrava nos
demais para quem olhara antes.
     -- Espere -- disse ele, fazendo Carlos parar.
     -- No pare. Vamos...
     -- Espere s um momento -- pediu Alan, olhando diretamente nos
olhos de Carlos, que se expressou com impacincia e balanou a cabea de
um lado para o outro.
     Alan meteu a mo no bolso e tirou uma nota. Abaixou-se e colocou-a
na mo da velha mendiga sorrindo.
     -- Como  o seu nome? -- Indagou Alan.
     -- Bete.
     -- Est tudo bem? Voc tem alguma famlia ou algum assim?
     -- Tenho, mas j estou muito velha e todos acham que sou um atraso
em suas vidas; uma pedra de tropeo; uma velha que s lhes d trabalho.
Viviam reclamando, e eu fugi de casa. No agentava mais ouvir as
reclamaes de todos em minha volta. Pelo menos aqui no tenho que
agentar nenhum murmrio, mas s vezes me sinto sozinha e passo fome...
     Vendo a impacincia de Carlos, Alan achou melhor encurtar a conversa
antes que ele explodisse de alguma forma. Disse em voz baixa:
     -- A est algum dinheiro para o alimento, mas ele no vai durar para
sempre. Faa o seguinte: v at a rua Nivaldo Sampaio e ir encontrar um
templo evanglico. Procure o pastor Nilton Cross e diga-lhe que eu a
mandei e disse para cuidar de voc. Diga-lhe tambm que estou bem e...
pergunte se Melina est l, e se estiver, diga que eu a amo e tambm a Jair,
Jaime e Jssica, est bem?
     A velha coou a cabea e respondeu:
     -- Est.




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     -- Certo. Ele vai cuidar de voc -- falou Alan, por fim, mostrando mais
uma vez um sorriso. Ergueu-se, acenou para Bete e ps-se a andar
novamente.
     Carlos seguiu pensativo. Olhou para Alan e notou que este no olhava
mais para ningum. Baixou o olhar antes de interrogar:
     -- Encontrou sua vtima?
     -- O qu?
     -- Isso mesmo o que voc ouviu.
     -- Por que diz isso?
     -- J conheci pessoas como voc. Elas vm, dizem e fazem coisas
maravilhosas, do-nos pleno apoio, mas s depois de algum tempo  que a
gente percebe que fazem tudo para interesse prprio, assim como voc.
     Alan continuou a ouvir; Carlos prosseguiu a falar:
     -- Dinheiro, apoio, favores, ofertas de todas as formas e valores.  disto
que vocs esto procurando -- Carlos fitou Alan, com um sorriso sarcstico
no rosto. -- Voc no vai ter isto de mim, amigo, pastor ou seja l o que voc
for. No vai ter mesmo.
     Alan sorriu meneando a cabea.
     -- Carlos, olhei para todas aquelas pessoas l atrs e voc tambm
olhou, mesmo me dizendo para no olhar. Voc notou o olhar daquelas
pessoas?
     -- So todos iguais.
     -- Isso mesmo. So todos iguais. Mas voc notou o olhar daquela
senhora a quem ajudei?
     -- Igual a todos os outros.
     -- No, Carlos. Havia algo diferente. Ela estava precisando de ajuda --
Alan fez uma pequena pausa para que suas palavras penetrassem o
consciente de Carlos. -- Mas h uma coisa: todos os outros tambm esto
precisando de ajuda urgentemente, mas, "perceba", ela reconheceu isso.
Reconheceu que precisava de ajuda e eu a ajudei. No posso e ningum
pode socorrer algum que no pea por socorro, mas se algum reconhecer
que necessita de socorro, sempre haver algum para socorr-lo.
     Carlos parou e Alan fez o mesmo, esperando mais alguma acusao ou
algo parecido, pronto a absorver e retribuir com algo que fizesse aquele
equivocado homem refletir.
     -- No pedi ajuda para voc, ento por que veio me ajudar?
     Depois do absorvimento, a retribuio foi instantnea:
     -- Seja sincero, Carlos. Voc implorou para quem quer que fosse ajud-
lo quando tudo isso comeou. S que nunca ir admitir isso no  mesmo?
     Carlos tornou a andar.


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      -- Admitir o qu? -- indagou. -- Tudo o que voc est falando  uma
bobagem.
      -- Ser? -- Alan deixou a pergunta no ar.
      Foi a ltima palavra daquela conversa que, para Carlos, era mais do
que inconveniente. Como ele sabia? Perguntava-se. Era muito estranho ter
algum ao seu lado que nem mesmo conhecia, mas que soubesse coisas a
seu respeito que ningum poderia saber. Que droga! Quem  esse cara afinal?
Os pensamentos de Carlos fluam em diversas formas, todas errneas. As
perguntas eram bastante e preenchiam os minutos de sua caminhada pela
grande avenida, tanto que no percebeu que Alan havia estancado
subitamente, com o olhar fixo  sua frente. Continuou andando, viajante em
seus pensamentos e somente notou o que estava adiante quando deu de
encontro com a ponta de uma faca. Um salto para trs foi imediato.
      Um homem, com um brinco no nariz, mal-encarado e pessimamente
vestido estava imponente diante dos seus olhos segurando uma faca de
lmina brilhante. Carlos observou-a. Mais ou menos de quinze centmetros
de comprimento e afiada dos dois lados, tornando assim mais fcil cortar o
que quisesse, pensou. Carlos reparou mais um detalhe no homem: uma
tatuagem no brao direito. Um desenho de uma caveira e uma foice bem ao
lado.
      -- Muito bem, caras, a gente s quer toda grana e coisa valiosa que
vocs tiverem. Podem entregar as carteiras e esto livres -- falou o homem,
tremendo.
      Est precisando de drogas, disse Carlos a si mesmo.
      -- A gente? -- perguntou Alan, confuso, j que o assaltante era apenas
um.
      Repentinamente, duas sombras surgiram em suas costas. Carlos virou-
se rapidamente ao sentir a presena dos dois outros homens que se
aproximaram. Observou seus braos direitos e encontrou neles a mesma
tatuagem e o mesmo tremelique que o do primeiro. Eram da mesma
Gangue. O da direita usava uma camiseta rasgada e quatro brincos em uma
das orelhas e ao seu lado estava um homem com uma cicatriz abaixo do
olho esquerdo, tambm usava roupas amassadas.
      Senhor, estou nas tuas mos. Faa-se teu querer, meu Deus, orou Alan.
      Um dos viciados que se aproximaram por trs, avanou na direo de
Carlos, puxou um cabo de canivete do bolso da jaqueta e levantou-o at p-
lo  vista. Apertou um boto e a lmina fina e pontiaguda saltou para fora.
      -- E a, otrio?! Passa logo a grana antes que eu te corte inteirinho!
      Carlos voltou-se para Alan e fez um sinal para que entregasse ao
assaltante o dinheiro que tivesse. Alan hesitou por um momento, mas


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comeou a tirar lentamente a carteira do bolso. Carlos tambm ps a mo no
bolso.
     --  isso a. Vo passando logo tudo! -- berrou o outro ao seu lado.
     O da frente, com o brinco no nariz, notou algo brilhante entre os dois
homens os quais assaltavam. Esticou o pescoo, deu um passo e distinguiu o
que era.
     -- Ei! -- exclamou. -- Que algema  essa? Vocs esto fugindo ou o
qu?
     Todos olharam para a algema.
     Outra chance no ser melhor, pensou Carlos numa frao de segundos.
Aproveitou o entretenimento dos trs e movimentou-se rpido, desferindo
um forte chute entre as pernas do assaltante com o brinco no nariz  sua
frente. Com a mesma perna, fez um giro ligeiro e como um golpe de faco,
de um lado para o outro, acertou com o calcanhar o pescoo do homem que
estava com o canivete nas mos, que caiu arquejante. Com olhos
arregalados, o viciado que antes estava ao seu lado, rendeu-se aos
movimentos rpidos e golpes certeiros de Carlos e permaneceu quieto em
seu lugar, apenas tremendo pela falta de drogas.
     -- Caia fora! -- gritou Carlos.
     O homem deu alguns pequenos passos para trs, virou-se e iniciou
uma corrida frentica e cambaleante, at que, quando j se encontrava
longe, entrou num beco. Alan observou os dois assaltantes no cho se
contorcendo de dores. Olhou para Carlos.
     -- Onde aprendeu a lutar assim?
     Carlos no respondeu. Ao invs disso preferiu andar para longe dali.
     Quem? Onde? Quando? Ento vamos dar uma lio neles! As vozes
puderam ser ouvidas ao longe. O resto da gangue estava a caminho.
     -- Vamos correr, rpido! Ou ento vamos virar farelo humano! -- disse
Carlos, acelerando os passos at encontrar-se em alta velocidade. Alan
tambm j corria velozmente.
     Passos foram ouvidos. Pareciam em movimento acelerado, muito
acelerado. Eles estavam vindo na mesma velocidade.
     -- Quem so eles? -- Alan perguntou enquanto corria.
     -- Membros da Gangue da Morte. Todos com quem esbarram morrem,
quer faam o que querem, quer no. Por isso reagi. Iriam nos matar mesmo
se dssemos dinheiro a eles.
     -- Graas a Deus samos dessa!
     -- Ainda no samos. Por isso trate de correr o mais depressa que
puder.



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     Alan olhou para trs. No viu ningum. Mas os passos ainda podiam
ser ouvidos.
     -- Pode no estar vendo nada, mas eles so espertos e rpidos e podem
estar mais prximos do que imagina.
     Os dois fugitivos correram e correram. Era como fugir de um inimigo
invisvel que no momento no podia se ver, mas num piscar de olhos
poderia aparecer, e ento o pior poderia acontecer. Aps um bom tempo de
corrida, no ouviram mais os passos. Carlos avistou um beco escuro  frente
e apontou.
     -- Vamos dobrar ali.
     Fizeram a curva rapidamente e encontraram-se de uma hora para outra
em total escurido.
     -- H horas que no descansamos, nem pregamos os olhos. Se aqui for
seguro ser um bom lugar para descansarmos. -- comentou Alan.
     -- Apesar desse cheiro...
     -- Acho que isso no ir me incomodar muito. Com o sono que estou e
juntando o cansao...
     O local era mido, frio e mal cheiroso, alm de totalmente escuro.
Carlos e Alan adentraram ainda mais o beco. Com passos cuidadosos,
caminhavam sempre tateando aqui e ali para no tombarem em alguma
coisa. Carlos andava sempre atento, em posio de combate para alguma
eventual luta. Caminharam at chegarem ao final do beco, e s souberam
disso quando Alan, mesmo a tatear, quase quebrou o nariz no muro. Os
dois sentaram em meio a negrura, e Carlos, sem enxergar um palmo  frente
do rosto, disse a Alan:
     -- Ei, ... bom samaritano, dizem que pastores fazem milagres. Ento
que tal fazer um e acender uma luz aqui?
     De repente Carlos viu um fogo se acender um pouco acima dos dedos
de Alan e ficou de boca aberta.
     -- No se assuste -- acalmou-lhe Alan. -- Achei uma caixa de fsforos
quando sentei aqui.
     Carlos suspirou e baixou a cabea.
     -- Vamos fazer uma pequena fogueira com os pedaos de papel que
tem por aqui -- falou Alan, acendendo outro fsforo e comeando a
recolher algumas folhas de papel do cho. Amontoou o material e ateou
fogo, fazendo clarear e aquecer um pouco o lugar. -- Assim est bem
melhor.
     -- Ser que d pra fazer alguma coisa tambm para isso aqui cheirar
melhor? -- resmungou Carlos.
     -- Acho que isso j seria pedir de mais, no acha?


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      -- Humm... Acho que no.
      Alan sorriu. Esticou os braos at a fogueira para se aquecer, encostou-
se na parede e fechou os olhos.
      -- Carlos...
      -- O que ?
      -- Posso lhe fazer uma pergunta?
      -- Mais uma?
      -- J que estamos assim... de certa forma juntos... a gente podia se
conhecer melhor. Digo, saber mais um sobre o outro, no acha?
      Carlos nada falou. Aquela conversa no o interessava. Quem esse cara
pensa que ? Mas subitamente lembrou-se de como aquele homem sabia de
coisas que ningum poderia saber: seus sentimentos.
      Alan continuou, j que no houve resposta.
      -- Carlos... por que voc se meteu nessa? Quero dizer... vivendo
assim, fazendo coisas... erradas -- Alan abriu os olhos e observou a
reao de Carlos. mas este no moveu um msculo sequer. -- Voc sabe,
ficar sempre a lutar, se esconder, fugir... sem parar?
      Nenhum movimento; nenhuma resposta.
      -- Desculpe, Carlos. Estou querendo saber de mais e acho que isso no
faz voc sentir-se bem -- Alan fechou os olhos novamente, baixou a cabea
e suspirou. , senhor, acho que no estou me saindo nada bem. Ajude-me a tocar
no ponto fraco dele. Faa com que fale comigo sobre algo para que possa compreend-
lo e ajud-lo a Te encontrar.
      -- Tudo comea sempre em pequenas doses -- falou Carlos.
      Alan levantou a cabea num piscar de olhos. Fitou Carlos, que, com a
cabea erguida, fixava o olhar nas chamas da pequena fogueira.
      -- Seja drogas -- continuou Carlos --, seja m companhia, seja um
roubo, seja sexo. Tudo comea em pequenas doses. Assim aconteceu
comigo. Entrei nisso em pequenas doses, e... sabe, pastor... -- Carlos olhou
para Alan. -- posso cham-lo de pastor?
      -- Claro.
      -- Bem... depois, sabe... depois de um tempo a gente acaba se
acostumando a tudo. No importa o que seja. Bom ou ruim; desejvel ou
indesejvel. -- Carlos voltou-se novamente para a fogueira. -- Vou lhe
contar um pouco da minha histria, j que est to interessado nessa droga.
      Obrigado, Senhor, agradeceu Alan.
      Carlos deu um longo suspiro e ento comeou.
      -- Morei com Vera at os doze anos de idade...
      -- Quem  Vera? -- interrompeu Alan.



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     -- Era -- disse Carlos. -- Era minha me. Eu no tive pai, um cara
engravidou Vera quando ela ainda morava com os pais dela e depois se
mandou. Quando Vera soube da gravidez, contou aos velhos, na esperana
de que mostrassem compreenso e lhe dessem apoio. Mas ao invs disso,
enxotaram-na para fora de casa.
     "Vera viu-se desesperada, sem saber para onde ir nem como iria viver,
ainda mais naquele momento com uma criana em seu ventre. Ela andou
um bocado. Um bocado mesmo, at ficar tarde. Ento ela chegou perto do
metr, observou e achou que ali seria um bom lugar para passar a noite, j
que no tinha mais nenhum lugar onde poderia ficar. -- Carlos parou o
relato por um breve momento, vasculhando em sua mente as lembranas
que tinha de Vera. Ento continuou: -- Vera se enganou quando pensou
que ficaria ali uma noite, pois, na verdade, ficou dois meses. Sim. Dois
meses inteiros antes de Aldemar aparecer. Segundo ela, Aldemar se
apresentou como Wilson. Ele prometeu ajud-la se ela o seguisse e ficasse ao
seu lado. Vera disse que estava grvida e ele disse: "Tudo bem, eu no me
importo." Ela ficou maravilhada, surpresa e assustada com as palavras
daquele homem que nunca tinha visto antes. Todas suas promessas fizeram-
na acompanh-lo. Tudo pareceu maravilhoso desde ento. Wilson dava a
ela quase tudo, mas era o suficiente: Comida, bebida, roupas e aconchego
em seus braos. Vera perguntou-o por que fazia aquilo e ele respondeu que
um certo dia a viu no metr, sentada na escadaria, e simplesmente um
cupido atirou uma flecha que acertou seu corao. Disse tambm que ainda
passou dois dias pensando nela antes de procur-la.
     Carlos observou o olhar curioso de Alan antes de confessar:
     -- Mas o sonho de Vera durou apenas at eu nascer e completar um
ano. Da ela foi descobrir quem era Wilson. Sabe, pastor, Vera me contou
que quase ficou louca quando soube quem verdadeiramente era o homem
que a havia tirado do metr. Wilson na verdade era Aldemar, um cafeto
muito esperto. Ele acolhia mulheres abandonadas na rua, trazia todas elas
para sua casa, onde dava todo conforto e tambm um amor irreal para
engan-las. Depois oferecia drogas a elas, prometendo que se sentiriam
maravilhosas. Aldemar tomava as drogas primeiro para mostrar que no
era nada de mais, que no fazia mal algum. Depois passava para elas. Todas
as mulheres experimentavam por amor a ele. Algum tempo mais tarde
todas se tornavam viciadas. Ento, Aldemar j no precisava pedir para que
elas tomassem as drogas. Elas  que passavam a implorar
desesperadamente para t-las.
     -- At que um dia, Vera pediu a droga a ele, e o descarado disse que
no tinha. Ela estava desesperada, tanto, que tremia pela falta de txico,


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assim como aqueles caras l na avenida Amaredo. Vera suplicou, implorou,
mas Aldemar continuava a neg-la. At que ele falou que, se ela quisesse a
droga mesmo, teria que ganhar dinheiro e dar a ele para que pudesse
comprar. Assim poderia sustentar o vcio dela e o seu filho estpido, esse
era eu.
      Alan continuava sentado, apenas escutando a voz de Carlos que
vinha em meio  escurido. Ele sentia que aquele homem sofrera muito
no passado e ainda naquele instante continuava a sofrer, agora mais
intensamente. Mas sentia tambm que Deus estava ao seu lado,
sondando seu corao e ouvindo sua estria. Alan sentia a presena do
Senhor naquele momento, ouvindo os detalhes angustiantes da vida de
seu "parceiro de algema" e de tantos sofrimentos padecidos, sabendo,
porm, que tudo aquilo poderia ter logo um fim.
      -- Ento -- continuou Carlos --, Aldemar lhe mostrou o modo mais
fcil de arranjar dinheiro: a prostituio. Ela concordou prontamente com a
proposta e a profisso, pois estava louca, fisgada pela droga. Como ela
concordara, Aldemar deu-lhe a ltima droga gratuita. -- Carlos suspirou. --
Vera prostituiu-se, pensando mais na droga do que em mim. Fui descobrir
isso aos doze anos. Foi alguns dias depois de completar essa idade. Aldemar
disse a Vera que eu j estava bem grandinho para me cuidar sozinho, pois na
sua concepo de vida, um menino de doze anos j suficientemente capaz
de se virar. Vera protestou, mas Aldemar tirou do bolso da cala um
saquinho de herona e disse: "Voc escolhe: ou ele ou isso".-- Carlos sorriu
sem graa. -- Ela me botou para fora de casa, depois de me contar toda essa
histria desde o comeo. Por fim ela afirmou quando abriu a porta e me
conduziu  rua: "Acho que poderei viver sem voc, mas, com certeza, no
poderei viver sem aquela coisa branquinha que tem dentro daquele
saquinho".
      -- Ela disse isso? -- perguntou Alan, espantado com a atitude de Vera.
-- Nenhuma me deixaria o filho por nada no mundo!
      Carlos balanava a cabea afirmativamente quando disse:
      -- Essa frase no saiu da minha cabea muito e muito tempo. No
conseguia dormir s vezes me perguntando por que ela tinha feito isso
comigo. Mas a ns podemos ver o poder que as drogas tm.
      -- Sinto muito, Carlos -- lamentou Alan.
      -- Da o motivo de no cham-la de me, pastor. Porque ela no foi
minha me. Seno, no teria me abandonado por causa de droga nenhuma.
Ela no pensou em me sustentar e sim em sustentar seu vcio; No pensou
em continuar comigo, dando-me carinho, acolhendo-me em seus braos,
mas ao invs disso, preferiu ficar com Aldemar e sua maldita herona. Ento


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posso dizer com certeza, pastor: ela no foi minha me. Nenhuma me faria
o que ela fez comigo.
     Houve um longo silncio. Um penoso e angustiante silncio. At que
Carlos voltou a contar mais uma parte da sua triste vida:
     -- Aquele dia em que Vera me jogou fora de casa e da sua vida, foi o
pior dia da minha vida. Apesar de naquele tempo eu j tinha conhecido
algumas pessoas e lugares naquele bairro, me senti como se s eu existisse
no mundo. Ningum mais me importava, nada importaria mais daquele dia
em diante, e prometi a mim mesmo que no precisaria de mais ningum
para sobreviver. Caminhei muito naquele dia, assim como Vera caminhou
no dia que seus pais tambm colocaram-na para fora de sua casa. s vezes
fico refletindo se ela no pensou no sofrimento que havia passado quando
isso aconteceu. Ser que no pensou no mesmo sofrimento que eu haveria
de passar?
     Estancou as palavras, respirou fundo para continuar.
     -- Depois de ter caminhado bastante, fui parar num banco de uma
praa. Lembro-me que tinha umas garotas bonitas sentadas em um banco
atrs de onde eu havia sentado. Eu me dobrei para poder v-las melhor. De
repente senti algum me cutucar nas costas. Olhei e notei cinco rapazes mais
altos e mais fortes que eu atrs de mim. Um deles me perguntou: "O que
voc t fazendo aqui, hein? No sabe que aqui  o territrio dos Dracus?" Eu
fiquei com medo, pois j tinha ouvido falar sobre os Dracus, uma gangue s
de rapazes e moas "barra pesada". Ento, outro garoto tirou um canivete
da jaqueta e falou gritando: "E a, moleque, t preparado pra sangrar?"
Pastor, eu no sei o que deu em mim... Eu acho que foi o que aquele garoto
disse... Eu pensei: "Puxa, eu no fiz nada! Por que esse cara quer me
cortar?" Sabe, naquele instante eu tremi todo. Mas no era mais de medo e
sim de raiva e dio. Eu pulei em cima dele e uma forma to rpida que at
hoje no consigo imaginar como fiz aquilo. O impacto do meu corpo contra
o dele o fez cair de costas e bater a cabea no cho. Com a batida, um corte
bem grande se abriu na cabea dele e com isso ele desmaiou. Eu ainda
estava encima dele quando sua mo se abriu, soltando o canivete. Da, sem
pensar, peguei o canivete e me levantei apontando a arma na direo dos
outros garotos. "Venham aqui provar do seu prprio remdio! Venham!!"
gritei. Rapidamente fui em direo a um dos garotos e o feri no brao
esquerdo. Ele gritou e saiu correndo, sendo seguido pelo resto dos garotos
que estavam com ele.
     "Quando os quatro rapazes sumiram de vista, eu voltei o olhar para o
garoto no cho desmaiado ou talvez morto, eu no o sabia. Uma poa de
sangue j estava se formando em volta da cabea dele. Foi quando me voltei


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na direo das garotas que estava admirando antes da confuso comear e
elas no estavam mais l. Ao invs disso, tinha um garoto muito feio com os
olhos bem abertos fazendo beicinho com o lbio inferior esticado e
balanando a cabea para cima e para baixo. Eu apenas continuei olhando
para ele, e ento ele se pronunciou: "Meu irmo, eu nunca vi isso em toda
minha vida imunda! Nunca mesmo!" Ento comeou a me aplaudir como
se eu fosse o astro de um espetculo. Perguntei-o quem era. Disse-me que
seu nome era Timtio e que fazia parte de uma gangue chamada Os Vespas.
Me elogiou outra vez pelo que havia feito com o Lico, um dos caras mais
carrascos da gangue rival, o garoto que eu havia batido ou... matado. Disse-
me que havia algo de assustador em mim e deveria ser por isso que os
outros garotos da gangue no reagiram quando nocauteei Lico. Por fim ele
me disse: "Cara, com certeza tem um lugar pra voc nos Vespas! Um cara
que faz o grande Lico beijar o cho com apenas um golpe, no pode ficar
andando por a sozinho  toa.  perigoso... no pra voc, mas sim para
quem cruzar na sua frente." Ele deu um risada e concluiu: "Vamos, Meu
amigo. Vou te apresentar ao Anderson, o lder dos Vespas. Certamente ele
vai gostar de voc."
     -- E ele gostou? -- especulou Alan.
     -- Aquele desgraado no gostava de ningum a no ser de si mesmo.
Quando Timtio me apresentou, Anderson riu de mim por eu ser pequeno.
Mas depois que disseram o que fiz com Lico, me olhou dos ps  cabea
com olhar de espanto. "Esse garoto fez o Lico ver estrelas?" Perguntou ele.
Responderam acrescentando: "Ver estrelas ou o diabo, pois do jeito que o
Lico ficou  capaz que esteja morto." Mas o pior ainda estava por vir. --
Carlos tirou o olhar da fogueira e passou a fitar as milhares de estrelas no
cu, incontveis pontos luminosos suspensas sem qualquer auxlio, prontas
a desmoronar a qualquer momento sobre sua cabea. Ele prosseguiu: --
Trouxeram-me uma garota. Anderson me disse que era uma traidora, que
tinha entrado para os Vespas j fazendo parte de outra gangue rival apenas
para entregar membros para os inimigos, at que descobriram sua traio.
Anderson disse para eu dar uma lio nela para nunca mais sarar. Falou-me
que, se eu fizesse aquilo, faria parte da gangue, teria abrigo, amigos...
     -- Voc fez?
     Carlos ficou calado por um momento, mas logo murmurou:
     -- Fiz. Anderson falou: "Vai l cara. Faz essa moleca pagar pelo que
fez! Massacra ela! Membros da turma gritavam de excitao. Berravam:
"Bate! Quebra ela! Acaba com ela!" Fiquei sem reao, vendo que a garota
chorava. Anderson me segurou pela gola da camisa e alertou: "Vai l, meu
irmo! Mostra que tu  o tal ou ento a gente vai te expulsar daqui 


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porrada!" Aquela foi a palavra mgica que virou a minha cabea: Ou ento a
gente vai te expulsar daqui... No. Eu no queria ser expulso. Mais uma vez
no. Eu no suportaria. Virei bicho. Parti para cima da garota com socos e
pontaps. Estava fora de mim. Tiveram que me tirar de cima dela, seno eu
a estrangularia. Anderson me adorou. "Cara, voc  doido!" disse ele. Entrei
na gangue e enquanto fiquei l fiz tudo o que me mandaram. Tudo para no
ser abandonado outra vez. Voc nem imagina o que fazamos.
     -- Posso ter uma leve impresso.
     -- Eu acho que no.
     -- Voc no sabe o que eu j vi.
     Carlos voltou-se para Alan.
     -- E voc no sabe o que eu j fiz. Mas chegou o tempo que completei
dezenove anos e me dei conta de que no valia mais a pena fazer tudo o que
fazia por motivos banais...
     -- Voc ficou na gangue por sete anos?
     Carlos confirmou com cenho.
     -- Ento achei que estava na hora de fazer algo para beneficiamento
prprio. Passei a guardar algum dinheiro dos furtos que fazamos. Um
pouco daqui, um pouco dali e consegui uma quantia razovel. Um tempo
depois, decidi sair da gangue. Mas no era permitido sair, por isso eu fugi
escondido para bem longe. Com o dinheiro que tinha aluguei um cortio e
l conheci um cara chamado Srgio. Ele roubava carros e ganhava uma boa
grana. Entrei nessa e assim me sustentei at aos vinte e trs anos. Acho que
nessa poca que roubava carros, consegui roubar um nmero incontvel
deles. Os caras com quem trabalhava me achavam o melhor. Foi nesse
tempo tambm que comecei a trabalhar na minha educao, pois tinha
certeza de uma coisa: sendo semi-analfabeto, eu no seria ningum. Em
quatro anos aprendi muita coisa com a professora que paguei. Passei a
entender melhor as coisas e aprendi a me comunicar razoavelmente bem
com as pessoas. Usufruindo disto, conheci Clber, um cara que conhecia
Lucas. Aquele filho da me com quem briguei l na rua treze com a Clintel.
     -- Eu me lembro.
     -- Pois . E foi assim que eu entrei para a Quadrilha Vip, meu caro. Foi
a que eu cavei a minha cova.
     -- Por que eles querem dar um fim em voc como diz? Fez alguma
coisa errada?
     -- Para eles eu fiz uma coisa sem perdo, mas isso  uma outra estria
que se voc quiser ouvir  mil paus vivinhos aqui na mo.
     -- Pode ser fiado?
     -- No mesmo.


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      Houve uma pausa, at que Alan quebrou o silncio e arriscou:
      -- Carlos... quero lhe dizer algumas palavras.
      -- Quanto ?
      --  gratuito.
      Carlos resolveu no falar nada. Alan achou melhor desabafar antes que
ele dissesse algo negativo, ou voltasse a se comportar como antes. Era a sua
chance. A oportunidade concedida por Deus.
      -- Primeiro quero saber se voc conhece a Bblia Sagrada. Conhece?
      -- J ouvi falar, mas... nunca fui muito chegado a livro nenhum. Por
qu?
      -- Porque Nela est escrito, em um livro chamado de Carta aos
Romanos, que todos os seres humanos esto sujeitos a fazer tudo isso que
voc fez e muito mais. L est escrito: "Todos se extraviaram, e juntamente se
fizeram inteis. No h quem faa o bem, no h um s". Tambm est l: "Porque
todos pecaram e esto destitudos da glria de Deus". Todos somos iguais, e com
isso estamos a merc do mesmo julgo. Assim como voc est agora, como eu
tambm estou... poderia ser qualquer outra pessoa, pois somos todos
iguais...
      -- Continue, estou prestes a dormir. Isso relaxa, sabia? -- ironizou
Carlos, fechando os olhos e se encostando  parede.
      Alan no ligou. Sabia que Carlos escutava, querendo ou no.
Continuou:
      -- Carlos, e como todos somos iguais, para cada situao difcil que
passamos h sempre um escape programado. Este escape  dado
gratuitamente assim como estas minhas palavras. H algum querendo dar
esse escape, Carlos...
      Carlos riu.
      -- Esse algum  voc, pastor?
      -- No.
      -- Ah, me lembrei! Aquele meu amigo, no ? Deus?
      -- Isso mesmo. Deus.
      -- Corta essa! -- zombou Carlos.
      -- Jesus quer te dar esse escape, Carlos. Pegue-o! Ele  a sada para
todos os problemas. Afirmou isso quando disse: Eu sou o caminho; Eu sou a
porta...
      -- Pastor, pastor! Para! -- falou Carlos em voz alta. -- Olha, se houver
um escape, ser aquele que eu fizer; ser com o meu esforo. E lhe digo uma
coisa: vou conseguir escapar disso e ningum ir me impedir.
      -- Amm. -- finalizou Alan, que suspirou. Senhor, ser mais difcil do que
pensei.


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     -- Tente dormir -- disse Carlos, fechando os olhos e baixando a cabea.
-- Est amanhecendo e teremos que pelo menos cochilar para continuarmos
vivos; eu tenho que continuar vivo.
     Alan fechou os olhos. O cansao tomando conta de seu corpo, que
esmorecia. A mente trabalhava inconscientemente, reproduzindo as
ltimas palavras proferidas por Carlos: ...cochilar para continuarmos
vivos... vivos... vivos... vivo... vivo... Deus vivo.




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                                               Transformao - Naasom A. Sousa




                                               Captulo 9



B   iiip! Biiip! Biiip! Biiip! Biiip! O despertador tocara exatamente s seis
    horas.
      Depois de haver orado a madrugada quase inteira, Melina
adormecera mais tranqila. Aps um sono meio reparador, fra
despertada pelo bip do rdio-relgio em cima do criado mudo.
Levantara-se, dirigira-se ao banheiro onde tomara um banho quente e
ento, aps uma refrescante ducha, caminhara  cozinha.
      Olhara ela para o relgio na parede na cozinha. 6h e 15mim.
      -- Meninos, acordem rpido! -- gritou ela. -- Jair, Jaime, Jssica!
Vamos, est na hora de tomar banho e ir ao colgio!
      Era hora dos trs pequeninos sarem dos seus quartos,
cambaleando, desembaando os olhos, cada um deles resmungando
alguma coisa:
      -- No quero mais estudar!
      -- Irei aprontar alguma com o diretor para que me expulse do
colgio!
      -- Amanh irei fazer de conta que estou doente. Assim. Mame ir
me deixar dormir at mais tarde.
      Assim diziam eles. Porm mais tarde ou no dia seguinte, nunca
cumpriam suas promessas. Lembravam-se sempre das palavras de Alan:
"Vocs tm que estudar bastante para serem doutores, advogados,
gerentes de multinacionais. E assim, estudando, todos vocs tambm me


                                    112
                                               Transformao - Naasom A. Sousa



fazem muito orgulhoso." Todos eles queriam deixar o pai orgulhoso, e
cumpriam o seu querer  risca. Formaram uma fila na porta do banheiro
e um por um tomaram o seu banho. Logo aps, todos se dirigiram aos
quartos e vestiram seus uniformes.
     -- Vamos depressa! -- tornou Melina a gritar. -- J so seis e
quarenta. O nibus j deve estar para chegar! -- ela acabara de aprontar
o lanche de cada um e agora estava sentada  mesa, descansando.
     Os trs desceram a escadaria correndo e pararam em frente  me.
Melina, graciosamente distribuiu os lanches a todos.
     -- Meu beijo... -- cada um deles abraaram Melina e beijaram-na.
-- Agora, todos para o nibus que j deve estar esperando vocs l fora.
     Todos correram para a porta, despediram-se e saram.
     Melina continuou sentada e ouviu o nibus se distanciar.
     Mais um dia de lutas, meu Senhor, pensou ela. A casa por limpar e
arrumar; lavar e passar as roupas; fazer a refeio... Todo dia a mesma coisa.
Ah, tomara que tu venhas logo, Jesus, para me dar descanso eterno! Ela se
levantou e caminhou at a dispensa.
     -- Deixe-me ver... -- pensou em voz alta, olhando os mantimentos
nos armrios embutidos na parede. -- Acho que hoje irei preparar uma
macarronada com um molho delicioso. -- Melina parou o que estava
fazendo e um pensamento veio-lhe  mente: Do jeito que Alan gosta,
lembrou. Oh, Senhor! Onde e como estar o meu Alan neste momento?
Balanou a cabea e tentou afastar as lembranas do marido. No queria
ficar a se remoer o tempo todo. Tinha f em Deus e a certeza de que Ele
estava ao lado de Alan, onde este estivesse, protegendo-o e guardando-
o.
     Melina tirou da dispensa um pacote de macarro e uma lata de
extrato de tomate. Era o que precisava para o prato do dia. Voltou 
cozinha e ps tudo sobre a mesa. Pegou uma panela dentro de um
armrio embutido e encheu-a de gua pela metade, colocando-a logo a
seguir em cima de uma das bocas do fogo.
     -- Muito bem -- disse ela --, enquanto essa gua ferve, vamos ver o
que est passando no noticirio das sete. -- segurou o controle da TV e
apertou o power. O aparelho foi ligado e logo apareceu o ancora
jornalstico Silvio Trindade na tela, um homem simples e autoritrio que
influenciava o povo com suas crticas aps cada reportagem, e, no
momento, era exatamente o que estava a fazer. O denunciado era um
poltico corrupto descoberto a dias atrs.
     -- O pior  que somos ns quem os elegemos, quem os colocamos no poder.
Da surge a pergunta de cada um: "Mas ser que existe um poltico honesto no


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mundo, que no vise apenas as verbas pblicas para o seu bolso, mas que
respeite a populao em geral e faa o melhor para ela?" Eu posso responder a
essa pergunta, e digo: "Existe, sim." Ento voc pode me perguntar: "Ento me
diga onde est!" e eu lhe respondo: "Bem... existir eu sei que existe, mas
responder onde est, isso  trabalho para Deus e no para um simples ncora de
noticirio."
     -- Voc tem toda a razo -- concordou Melina, enquanto colocava o
macarro dentro da panela.
     Silvio Trindade olhou para outra cmera e o quadro atrs de si, que
antes era a foto do poltico corrupto que, momento atrs estava em
questo, mudou para uma bandeja recheada de todo tipo de drogas com
a palavra logo abaixo: NARCOTRFICO.
     Silvio voltou a falar:
     -- E nessa madrugada, mais um pesadelo para a polcia de Melmar.
Membros de uma quadrilha de traficantes agiram assassinando um agente de
polcia e seqestrando outro. Essa  mais uma ao terrorista, completando trs
s neste ms. A reprter Caroline Lima esteve na madrugada de hoje no hospital
de casos especiais e emergncias Norton Ramos, de onde fez esta reportagem.
     A foto de Caroline apareceu atrs de Silvio e depois avanou at
ocupar totalmente a tela. A foto comeou a se movimentar e sua voz
pde ser ouvida:
     -- Bem, Silvio, estou aqui no hospital Norton Ramos, onde foi dada a
entrada do agente Pablo Tavares, que foi ferido gravemente numa misso com
dois tiros: um prximo ao corao e outro na cabea. Segundo um dos mdicos, o
agente Tavares chegou ao hospital em estado grave e estava desacordado, como
est at esse momento. Tambm h informaes de que o agente estava
sangrando bastante e quase sem respirao. Faltam agora exatamente quinze
para as cinco, e o que sabemos no momento  que o agente Tavares est na sala
de operaes, numa delicada cirurgia.
     Melina ouvia atentamente a reportagem enquanto cortava a
verdura para decorar a macarronada. Achava horrvel o que acontecia
no mundo do crime e o que essas pessoas faziam para ganhar a vida:
matando outros seres humanos.
     -- Segundo oficiais da polcia local -- continuou Caroline --, tudo isso
comeou com um plano do agente Tavares e de seu parceiro, o agente Caio
Vieira. Eles entraram em contato com um membro de uma quadrilha
denominada de Quadrilha Vip, e assim marcaram um local para uma suposta
transao, e foi nessa inteno, de acabar com o domnio dessa quadrilha que o
agente Tavares recebeu as duas balas, e seu parceiro, o agente Vieira, foi
seqestrado pela prpria quadrilha.



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     "Est aqui comigo, o agente Axel Brendel, que est acompanhando este
caso e ir esclarecer algumas questes. -- o zoom da cmera foi minimizado
at Axel aparecer na tela ao lado de Caroline. A reprter voltou-se para
o amigo. -- Agente Brendel, como o senhor pode explicar o desaparecimento do
agente Vieira? Podemos considerar isso um seqestro?
     Axel olhou diretamente para a cmera.
     -- A explicao que temos a dar sobre o desaparecimento do agente Caio
Vieira  de que ele deve estar na posse da Quadrilha Vip. Estamos fazendo o
possvel para encontr-lo antes de acabar como os outros agentes, que foram
assassinados da mesma forma: carbonizados. Mas... infelizmente, calculamos
que o agente j esteja sem vida, pois encontramos marcas de sangue prximo de
onde estava o agente Tavares e achamos que essas marcas sejam do agente
Vieira. E as marcas se estendiam at um certo ponto, o que nos faz pensar que o
arrastaram para um carro e o levaram do local.
     -- Mas por que levar o agente Vieira em um carro, agente Brendel? Por
que no deixar junto a Pablo Tavares?
     -- Bem, a Quadrilha Vip tem um tipo de marca registrada desde que
comeou a operar aqui em Melmar. E essa marca  meio que, podemos dizer...
macabra.
     -- E o que seria essa marca registrada?
     -- Para provar que  a melhor, a quadrilha tenta amedrontar at a polcia.
H algum tempo, agentes tm sido designados para acabar com o domnio dessa
quadrilha, e esses agentes tm sido exterminados; assassinados; mortos. E o jeito
com que vm sendo mortos tem sido essa marca registrada de que falei. E como
seria? Eles queimam os corpos dos agentes designados. Carbonizam. Os agentes
desaparecem e depois de algum tempo aparecem totalmente carbonizados. Todos
foram mortos desta maneira.
     -- Agente Brendel -- disse Caroline e Axel fitou-a --, h alguma pista
nesse caso? O senhor pode falar algo sobre isso?
     -- Na verdade h, sim. Quando chegamos no local onde encontramos o
agente Pablo Tavares, havia dois homens perto dele, e junto a eles estava uma
arma que acreditamos ser de onde saiu os disparos contra o agente Tavares e
tambm uma garrafa de querosene que, logicamente, para ns, serviria para
carbonizar o agente que ali estava.
     -- E quanto a esses dois homens... onde esto? O que se sabe sobre eles?
     -- Esses dois homens foram capturados e pegos em flagrante,
encaminhados ento para a central de polcia...
     -- Que crueldade esta quadrilha est fazendo com todo mundo, meu Deus!
Tomara que prendam todos eles e dem um fim logo a essa carnificina -- falou
Melina, agora colocando as verduras dentro de uma tigela de porcelana.



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     -- ... dois policiais os levaram, mas houve um acidente, onde o carro-
patrulha em que estavam, se chocou com um poste, fazendo assim, os dois
policiais ficarem inconscientes e os dois suspeitos fugirem. No momento eles se
encontram foragidos. -- Axel olhou para Caroline. -- Por enquanto no
temos quaisquer informaes sobre eles, mas vamos examinar nossos registros
na central e verificar se os dois ou mesmo um deles tem passagem na polcia, e se
tiverem, vamos saber tudo sobre esses sujeitos. Se no, vamos providenciar os
retratos falados dos dois e distribuir pela cidade. Tenho certeza que se
prendermos esses dois homens teremos grandes possibilidades de chegar ao
cabea da quadrilha.
     -- Certo, agente Axel Brendel, mas antes de encerrarmos esta matria "por
enquanto", o senhor nos poderia dar as caractersticas fsicas desses dois
fugitivos?
     -- Oh, sim -- o olhar de Axel se encontrou novamente com a lente
da cmera. -- Mas antes, queria dizer que, quando chegamos ao local onde
encontramos os dois, um deles estava muito machucado. Pelo menos era o que
parecia, o que significa que este deve estar lento e bastante fraco...

                                   &&&

     -- Voc no conhece esse doido que  o Carlos, agente Brendel --
murmurou Vip, num riso amarelo em frente ao seu aparelho de TV. --
Ele parece um polvo que a gente corta um de seus tentculos e logo
nasce outro. E se voc bobear, te pega e mata.
     Axel continuava a se pronunciar:
     -- ...achamos que deve ter havido alguma luta com o agente Tavares antes
deste ser baleado ou por membros da prpria quadrilha e a causa pode ter sido
alguma discusso, isto  uma hiptese. Voltando  sua pergunta, o que estava
machucado  um homem branco, forte, alto, aparenta uns vinte e sete anos para
trinta, cabelos negros e vestia um palet cinza. O outro homem  de meia
estatura, tambm de pele branca, cabelos castanhos e lisos, uma aparncia jovial,
na casa dos trinta anos para quarenta. Vestia camisa manga longa e cala de
linho cor-de-vinho.

                                 &&&
    Melina deixou cair a tigela repleta de verduras no cho. Junto com a
surpresa, sentiu um profundo aperto no corao.
    -- Meu Deus,  Alan!  Alan!
    Melina ainda se lembrava nitidamente da vestimenta do marido
quando este partira.



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    -- Senhor, ele est metido com esta quadrilha! Ento no foi
realmente um sonho e sim uma revelao! Ele est mesmo precisando de
ajuda, Jesus; minha, de toda igreja e principalmente da Tua ajuda, meu
Senhor!
    Ps-se rapidamente de joelhos e ali mesmo na cozinha, ligou-se com
o cu em uma fervorosa orao, clamando, pedindo, suplicando a ajuda
divina.

                                   &&&

     A TV na sute de Vip, no quarto andar do Quaid, ainda estava
ligada e Caroline estava encerrando a reportagem.
     -- Uma ltima pergunta: quando iro divulgar o resultado da pesquisa nos
livros da central ou ento dos retratos falados?
     -- Hoje  tarde ou amanh iremos divulgar uma das duas coisas.
     -- Obrigada, agente Brendel -- o zoom da cmera voltou a enquadrar
somente Caroline. -- Bem, Silvio, ficaremos por aqui aguardando mais
informaes, e se isso acontecer, voltaremos a comunic-lo. Caroline Lima, do
NR para o Noticirio Sete.
     A imagem de Caroline recolheu-se para detrs de Silvio Trindade, e
este mais uma vez comunicou, falando:
     -- Um pouco depois de recebermos esta fita de vdeo com a reportagem,
soubemos tambm, atravs da reprter Caroline Lima, que o agente Pablo
Tavares faleceu na mesa de cirurgia, s cinco horas desta manh. O projtil da
bala na cabea do agente policial fez com que a cirurgia, delicada, demorasse
vrias horas, mas no final, o paciente no resistiu e em conseqncia disso veio-
lhe a morte. -- o ancora suspirou. -- Olha, no  possvel que fiquemos 
merc de quadrilhas de traficantes. Temos que lutar juntos com a polcia,
denunciando, prevenindo seu filho e sua filha contra as drogas e assim vamos
acabar com o submundo, comeando dentro de nossas casas. E sobre esses dois
sujeitos que esto foragidos, vamos ficar de olhos abertos. Qualquer suspeita,
no hesite; ligue imediatamente para a polcia. -- Um nmero de telefone
apareceu na tela. -- Vamos acabar com o narcotrfico juntos.
     O aparelho de TV foi desligado e o controle remoto jogado longe.
     -- Qualquer dia desses eu mando te matar, seu miservel -- berrou
Vip, com relao a Silvio Trindade. Ele encostou as largas costas na
poltrona e passou a mo pelos olhos. Pegou o aparelho telefnico, discou
o nmero de Lucas.
     -- Al?
     -- Lucas, estava vendo o Noticirio Sete?


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    -- No.
    -- Ento venha para c. Precisamos conversar.
    -- Certo.

                               &&&

     Lucas levou meia hora de seu apartamento at o Quaid. Pegou o
elevador reservado e subiu ao quarto andar. Entrou na sala de
conferncias e Vip j o aguardava em sua grande e imponente poltrona
na ponta da mesa.
     -- Colocaram uma reportagem na TV hoje -- disse Vip. -- Falaram
sobre Pablo, Caio, Carlos, o estranho e tambm sobre ns.
     -- O que disseram sobre Carlos? J o pegaram?
     -- No, mas esse desgraado do Silvio Trindade influenciou, como
sempre, as pessoas para ficarem atentas s caractersticas dele e do
estranho que um agente chamado Brendel descreveu. Falou tambm
para ligarem para a polcia se os vissem. E como esse Silvio  aclamado
por esse povo...
     -- Est preocupado que o peguem e ele acabe falando alguma
coisa?
     Vip hesitou em responder. Pensou por um momento e disse:
     -- No. Carlos no falaria nada, nem que o torturassem at a morte.
Mas ele est com a fita -- Vip apontou para Lucas --, que, bem dizer,
voc deu para ele, e essa fita pode parar nas mos dos tiras. Se isto
acontecer, tudo estar acabado para ns.
     -- No se preocupe. J tenho pessoas procurando-o. j contatei os
nossos policiais que tambm esto na ronda atrs dele.
     -- Tambm quero o estranho -- lembrou Vip. -- Quero mostrar-lhe
o nosso mtodo de aprendizagem para aqueles que interferem em meus
planos.
     -- Iremos traz-lo para voc.
     -- Ento... -- Vip levantou-se e caminhou at um armrio de
mogno. Abriu uma gaveta e tirou uma caixa de charutos. Levou-a para
Lucas e abriu-a. -- vamos comemorar.
     Lucas fitou seu chefe, espantado.
     -- Com tudo isso acontecendo voc quer comemorar o qu?
     Vip gargalhou.
     -- Voc acredita que o desgraado do Pablo Tavares ainda estava
vivo mesmo com os dois tiros que voc deu nele?
     -- O qu? Mas no poderia, eu...


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     -- No se preocupe, ele morreu de uma cirurgia nesta manh, com
o balao na cabea. Por isso vamos comemorar com charutos. -- Lucas
tomou um em sua mo e o acendeu. Vip fez o mesmo com outro. -- 
morte de Pablo e Caio: os tiras-encrenca. Que agora nos deixem em paz!
     -- Isso mesmo! -- Lucas cantou a vitria.
     Os dois fora-da-lei deram uma longa tragada e expulsaram logo
aps a fumaa cinza aos risos de jbilo.
     -- Mas me diga uma coisa -- falou Lucas --, e quanto a Oliver e
Selton, o que voc pretende fazer?
     -- Bem, por enquanto meus planos esto voltados unicamente para
Selton. Oliver pode esperar. Ele nos ser til, o pescoo dele tambm
est exposto ao carrasco.
     E comemoraram mais uma vez com tragadas e mais risos.

                               &&&

     Todos no NR estavam uma pilha de nervos com os ltimos
pacientes que haviam chegado. Uma briga entre gangues tinha
acontecido na rua Amaredo e agora uma tropa de vndalos
estraalhados chegava pouco a pouco no hospital. Enfermeiros e
mdicos corriam empurrando as macas porta abaixo; residentes e para-
mdicos empurravam porta acima. A adrenalina estava  flor da pele, a
tenso subia pela garganta; a histeria tomava conta dos corredores do
Norton Ramos.
     Caroline estava em um dos quartos do hospital, sentada numa
cadeira de olhos fechados de frente para a cama onde Pablo se
encontrava deitado, ainda desacordado. O silncio era soberano sobre o
recinto e qualquer movimento que ela fizesse, o som parecia ser
reproduzido por um alto falante. A porta do quarto foi aberta e Caroline
pde ouvir a balbrdia que vinha dos corredores. Ela abriu os olhos e
viu Axel em p ao lado da porta.
     -- Posso entrar? -- perguntou o agente policial.
     -- Claro, entre.
     -- Voc est bem?
     Caroline optou por outra pergunta:
     -- O que est acontecendo l fora? Um concurso de gritaria?
     -- Membros de gangues rivais se trucidaram e agora esto pagando
o preo.
     Caroline baixou a cabea e ps o rosto entre as mos.
     -- Posso fazer alguma coisa? -- indagou Axel.


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      -- Pode fazer ele acordar, levantar e vir me abraar? Preciso dele.
      Axel suspirou fundo.
      -- Caroline ... eu sinto muito mesmo...
      -- Eu sei que sim, Axel, mas  muito difcil para eu suportar tudo
isso, entende? Sabe como  uma pessoa que j viu de tudo, pessoas
morrendo, pessoas sofrendo pela perda de outras... Mas quando
acontece com ela, ela desmorona. Isso est acontecendo comigo. --
Caroline respirou fundo, tentando segurar as lgrimas.
      Axel ajoelhou-se ao lado da reprter e tocou-lhe o ombro.
      -- Tenha f, Caroline. Creia em Deus e acabar tudo bem.
      -- Acho que  tudo que eu posso fazer agora, no  mesmo? Esperar
na boa vontade de Deus.
      --  a melhor coisa que se pode fazer. A melhor de todas as coisas.
Quando h coisas que o homem no pode mais resolver, Deus entra em
ao.  s crer. E saiba de uma coisa: Ele somente faz o que  melhor
para ns.
      Caroline permaneceu em silncio.
      A porta do quarto tornou a ser aberta e o doutor Csar Stone entrou
e caminhou at o casal de amigos. Caroline abriu os olhos e levou-os ao
encontro do doutor. Ela se ergueu da cadeira, enxugou os resqucios de
lgrimas. Axel a seguiu nos movimentos.
      -- Eu esqueci de lhe falar -- disse Axel, olhando para Caroline --,
falei com o doutor Stone e ele queria conversar com voc sobre o
"nosso" assunto.
      O Dr. Stone retirou os culos de aros de tarraruga do rosto e fitou a
linda mulher morena  sua frente.
      -- Quer sentar-se, Dr. Stone? -- perguntou Caroline, oferecendo-lhe
a cadeira.
      -- Obrigado, Sta. Lima, mas eu raciocino melhor em p.
      -- Bem, como queira, doutor. -- Caroline fez uma pequena pausa.
-- Creio que o senhor j deve estar inteirado sobre o teor desta conversa.
      -- Sim, o agente Brendel j me adiantou alguma coisa. S no
entendo os motivos dessa idia meia que absurda para mim.
      -- Sei que parece meio estranho, Dr. Stone -- interveio Axel --, mas
no tem nada de absurdo nela. Eu e a Sta. Lima conversamos sobre isso
e, sinceramente, acho que essa  a melhor forma de colocarmos a vida do
seu paciente em segurana.
      -- Em segurana contra o qu?
      -- O senhor sabe o motivo pelo qual o Sr. Tavares chegou at aqui?
      -- Sim.


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     -- Ento sabe do que estou falando.
     -- No.
     Caroline tentou novamente:
     -- Dr. Stone, a quadrilha que colocou Pablo aqui, milimetrou passo
a passo para que isso acontecesse, quero dizer, para que ele morresse.
Tanto, que deram dois tiros em suas partes letais. Esto contando com a
morte dele. Agora pense, doutor: se descobrirem que seu paciente est
vivo? Que o plano cuidadosamente estudado no dera certo; que
falhara? Ser que no faro de tudo para que o plano seja completado?
Aposto que sim. Por isso pensamos nisso. E j que o senhor  o mdico
encarregado de Pablo enquanto ele estiver aqui, contamos com sua
deciso para que isso seja verdadeiramente um "fato". Mas quero
ressaltar uma coisa, doutor: no quero pression-lo, mas  que j fiz uma
matria sobre tudo o que aconteceu com Pablo e informei que ele havia
morrido na mesa de cirurgia. Por isso, no  s a vida do seu paciente
que est em suas mos, mas tambm minha matria e, mais que isso,
minha reputao como a "reprter da verdade".
     -- Senhorita...
     -- Dr. Stone, estamos falando aqui em salvar uma vida! --
interrompeu Caroline. Ela apontou para Pablo inconsciente sobre o leito
-- A vida do seu paciente!
     O Dr. Stone calou-se e o silncio pairou outra vez no quarto, sendo
possvel ouvir os bips do monitor cardiolgico ao lado da cama de
Pablo. O Dr. Stone caminhou at ladear o seu paciente sobre o mvel
metlico e ficou a fit-lo.
     -- Tenho que ser sincero com voc, Sta. Lima -- disse ele. --
Removemos parte do crebro do Sr. Tavares e isso no se limita apenas a
milhes de neurnios, mas sim de suas condies fsicas, emocionais e
at mesmo vitais daqui por diante.
     -- O que o senhor est querendo dizer ...
     -- O que estou querendo dizer  que essa quadrilha conseguiu, de
um jeito ou de outro tirar o Sr. Tavares de seus calcanhares.
     -- Quer dizer que ele no sair do coma? -- indagou Axel.
     O Dr. Stone colocou os culos de volta no rosto.
     -- Talvez ele saia, mas... isto  uma incgnita. Mas se vier a sair,
tenho que lhes prevenir que ele poder no andar mais, nem falar ou
ouvir coisa alguma, e... tambm poder no se lembrar de muita coisa.
     Os olhos de Caroline, de repente tornaram a se encher de lgrimas,
que escorreram por sua face. Ela enxugou-as, mas logo outras tomaram
o lugar das anteriores.


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     -- No pode ser... -- sussurrou ela, olhando para Pablo,
inconsciente e ligado a diversos tubos, que o alimentavam por via
intravenosa. -- Isso no pode estar acontecendo...
     -- Sta. Lima, eu... -- Dr. Stone tentou dizer algo.
     -- Por favor, doutor, no posso ouvir mais nada.-- Caroline deu as
costas para os dois homens e deixou o quarto, pranteando. O silncio
voltou a reinar no recinto.
     O Dr. Stone respirou fundo e colocou as mos nos bolsos de seu
jaleco para se descontrair, mas foi uma atitude v.
     -- Agente Brendel, eu realmente sinto muito pelo que est
acontecendo.
     Axel tentou sorrir.
     -- Sabemos disso, Dr. Stone. Obrigado por seus sentimentos.
     -- Diga para a Sta. Lima que irei fazer de acordo com seu plano, e
falarei com minha equipe mdica, as pessoas que me ajudaram na
operao do Sr. Tavares e que eles iro colaborar. Fale com ela e fique ao
seu lado, confortando-a. ela ir precisar.
     O Dr. Stone precipitou-se  porta.
     -- Pode deixar, doutor -- disse Axel --, farei isso.
     -- Ento  isso. At logo -- despediu-se o doutor, antes de fechar a
porta atrs de si.
     Axel viu-se a ss com Pablo, inconsciente no quarto silencioso. Ele
ps-se a fitar comovido o amigo em coma. Caminhou e postou-se ao
lado da cama de metal, fechou os olhos e esticou o brao, tocando o
corpo do amigo.
     -- Ei, parceiro, acorde! -- pediu. -- Esto precisando de voc aqui.
     Pablo no acordou, no se moveu nem mesmo balbuciou nada. Axel
apenas continuou ouvindo o som que saa do monitor cardiolgico.
     Pip-pip! Pip-pip! Pip-pip! Pip-pip!...




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                                          Captulo 10



A    Primeira Igreja Crist de Melmar era um prdio simples de dois
    andares, coberto pelas cores branca e azul-claro e com duas colunas
que sustentavam a marquise que enfeitava a frente do templo. Acima da
marquise havia escrito em vistosas letras azuis: 1.a IGREJA CRIST DE
MELMAR. E um pouco abaixo: SEJA BEM-VINDO. Todo o templo era
protegido por grades que formavam um muro metlico que o rodeava.
Podia-se ver cinco janelas de vidros verdes de cada lado do templo. Em
cada uma delas estava escrito um mandamento dado aos homens por
Deus. Quo bonito era aquele templo de adorao a Jesus.
      Porm, Bete parou em frente ao porto e ficou a pensar se haveria
um tira a entrada do templo, mas no havia ningum. Coou a cabea e
projetou-se mais  frente, at que chegou  grande porta de madeira
macia que dava acesso ao interior do templo. Olhou para um lado e
para o outro  procura de algum fardado ou com uma arma na cintura
 espreita. No havia nem uma pessoa nessas condies. Bete segurou a
maaneta e girou-a lentamente a fim de no fazer o menor rudo
possvel. A grande porta foi aberta por ela e ento pde ver o interior do
simples prdio. Um grande vago cheio de bancos enormes de madeira,
definiu Bete, em sua mente, maravilhada com a simplicidade e
aconchego do lugar. Ela varria tudo com os olhos, tentando absorver
cada detalhe no interior do templo que o tornava humilde, mas ao
mesmo tempo to lindo e atraente.


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     --  a primeira vez que a senhora est entrando em um templo
evanglico?
     Bete foi despertada de seus vagos pensamentos. Ela olhou para a
origem da voz que ouvira e enxergou um senhor de meia idade sentado
em uma cadeira prximo ao plpito -- o que ela no tinha a menor idia
do que era. Uma grande caixa fechada de madeira envernizada. Pensou.
     -- Oh... no... Eu nunca entrei num lugar assim, no -- disse
desajeitada.
     -- Ento que Jesus a abenoe e seja bem-vinda.
     -- O-obrigada -- balbuciou Bete, com um sorriso amarelo nos
lbios.
     -- Fique  vontade se quiser orar, clamar ao Senhor. Aqui  casa de
orao, o lugar certo para falar com o Soberano e nico Deus. E assim
fazendo, Ele responder s suas splicas e suprir todas as suas
necessidades.
     Bete fitava o homem de longe. Ela comeou a coar a cabea.
     -- Oh, no... -- falou ela, um tanto acanhada. -- eu no vim aqui
orar, rezar, nada disso. Ei vim aqui falar com um homem chamado... --
tentou lembrar do nome. Andou com passos longos at o plpito. --
Pastor Nilon... No! Nicon... No! Nilton! Nilton Cross! Pastor Nilton
Cross!  isso! -- Bete encontrou-se pulando de alegria por ter lembrado
o dito nome. Olhou para o homem e viu sua expresso de espanto.
Enrubesceu de vergonha. -- E... eu queria falar com ele. O senhor sabe
onde posso encontr-lo?
     O homem balanou a cabea afirmativamente.
     -- Pode cham-lo pra mim? -- Bete pensou em uma hiptese
quando viu o homem no mover um msculo e permanecer a fit-la. --
No me diga que o senhor...
     O homem sorriu.
     -- Isso mesmo. Eu sou o Pastor Nilton Cross.
     Bete corou novamente.
     -- Oh, desculpe-me, eu... eu...
     -- No se preocupe, essa no  a primeira vez que isso acontece.
     -- ... o senhor  muito gentil -- bete tornou a mostrar o sorriso
amarelo.
     O pastor Cross era um homem muito maduro, pois j estava na casa
dos sessenta e j havia passado por vrias experincias em seus muitos
cargos na igreja. Todos gostavam dele ou pelo menos aprendiam a
gostar. Com seus cabelos grisalhos, seu bigode sempre bem aparado e
sua barriga avantajada, ele fazia todos se sentirem  vontade, e com seu


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                                           Transformao - Naasom A. Sousa



1,80 m de altura, fazia sentirem-se submissos. Mas as ovelhas no
precisavam disso para ser obedientes, porque sempre acabavam
admirando-o e dando-lhe apoio em tudo o que planejasse e fizesse.
     Ele olhou para Bete, curioso.
     -- Mas... o que tem para me falar? Sra....
     -- Bete. Oh, sim...  que um homem passou hoje cedinho na rua
Amaredo e mandou eu vir aqui falar com o senhor.
     Nilton franziu a testa.
     -- Comigo? Mas que homem?
     Bete coou a cabea, num gesto de lembranas.
     -- Um senhor at simptico. O nome dele ... Alan.
     A expresso de surpresa como num passe mgica apareceu no rosto
do pastor Cross.
     -- Alan?
     --.
     -- Por favor, Sra. Bete, conte-me tudo o que aconteceu. Como ele
chegou at a senhora?
     Bete no teve muita dificuldade de contar como Alan atravessara
em seu caminho. Lembrava muito bem do dinheiro que lhe dera e da
boa comida que comprara com ele. Agora estava farta, de barriga cheia.
Bete descreveu Alan de forma especial. Como um anjo que desce do cu
com aquilo que mais necessitamos e entrega em nossas mos. Falou que
ele estava acompanhado de outro homem e mandou-a procurar o pastor
Nilton Cross e dissesse que ele estava bem e... com jeito um tanto
desconcertante, mencionou o pedido de Alan para que Nilton cuidasse
dela.
     O pastor Cross notou seu acanhamento.
     -- Alan mandou falar para que eu cuidasse de voc?
     -- Bem... foi o que ele disse, mas se o senhor no quiser eu irei
entender...
     O pastor Cross sorriu.
     -- Oh, no. No  nada disso que voc est pensando.  que sempre
Alan faz isso quando  tocado pelo Senhor. A igreja tem um
departamento para pessoas desabrigadas, por isso ele lhe mandou at
mim.
     -- Oh, sim -- Bete se sentiu maravilhada.
     -- Espere um momento -- Nilton caminhou at uma porta ao lado
da tribuna e abriu-a. -- Querida, venha aqui um minuto! -- Gritou ele,
chamando algum e dentro de poucos instantes, uma senhora robusta e
morena apareceu.


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     -- O que foi, Nilton? -- perguntou ela.
     -- Alan mandou-nos uma pessoa -- ele mostrou Bete com a mo.
     -- Oh, que bom!
     O pastor Cross dirigiu-se a Bete e levou-a  forte senhora.
     -- Esta  minha esposa Tatiane. Ela cuidar de voc, Bete, eu lhe
garanto. Voc estar em boas mos.
     -- Tenho certeza que sim -- disse Bete com um sorriso largo --, se
no o senhor no estaria casado com ela.
     Nilton e Tatiane sorriram orgulhosos um do outro.
     -- Leve-a para tomar um banho e d-lhe roupas limpas.
     -- Est bem -- concordou Tatiane. Pegou a mo da velha senhora e
conduziu-a at a porta. Foi ento que Bete lembrou-se das ltimas
palavras de Alan. Ela voltou-se para Nilton.
     -- Pastor... eu lembrei agora de uma coisa que aquele homem disse!
-- exclamou ela. -- Melina est aqui?
     O pastor e sua esposa se entreolharam.
     -- Melina? -- indagou o Ps. Cross. -- O que Alan falou sobre
Melina?
     -- Ele falou para perguntar se ela estaria por aqui, e se estivesse, era
para dizer que ele a amava... e tambm a Jamil, Jairo e Gina.
     -- No seria Jair, Jaime e Jssica?
     Bete ergueu o sobrolho.
     -- Isso mesmo! -- disse eufrica.
     -- Eles no esto aqui, mas eu me comunicarei com eles e passarei o
recado.
     -- Faa isso mesmo, pastor. Ele parecia preocupado -- avisou Bete,
coando a cabea.
     -- No se preocupe. Farei isso, sim.
     Bete deu o brao pata Tatiane e as duas passaram pela porta.
     -- Tat! -- chamou Nilton.
     Tatiane voltou alguns passos e olhou para o marido.
     -- Cuide bem da cabea dela, acho que ela tem...
     Os dois voltaram-se para Bete, no momento em que ela coava a
cabea.
     -- No precisa dizer mais nada, querido -- assegurou Tatiane,
conduzindo a velha senhora para o interior dos aposentos do templo.
     Nilton Cross tornou a sentar-se na cadeira, abriu sua bblia e
continuou sua leitura diria, mas seus pensamentos no o deixava
refletir na palavra. Fechou o Livro Sagrado.



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                                            Transformao - Naasom A. Sousa



    O que Alan estria fazendo de madrugada na rua Amaredo, Senhor? Ainda
mais acompanhado de um homem! Pensou Nilton. Quem poderia estar com ele
numa hora daquelas? Poderia ele estar com outro membro da igreja
evangelizando? Mas de madrugada?
    Levantou-se e ps-se a caminhar pela tribuna.
    Bete falou que Alan havia dito para comunicar  Melina que ele estava
bem. Mas no era para estar? E porque mandou dizer por Bete que a amava?
No poderia dizer pessoalmente quando chegasse em casa?
    Por fim, Nilton Cross concluiu:
    -- Tem alguma coisa errada nisso tudo.

                                &&&

     O escritrio do templo era bastante simples e pequeno. Continha
uma escrivaninha com sua respectiva cadeira, um arquivo de ferro com
quatro gavetas e um pequeno cofre onde era guardado temporariamente
as ofertas das reunies dirias.
     Nilton sentou-se atrs da humilde escrivaninha e organizou o seu
contedo, repassando mentalmente aquilo que sempre gostava que
ficasse  sua disposio em cima da mesa: um telefone, um bloco de
notas com um calendrio impresso na parte superior do papel, um estojo
de canetas e lpis e um pequeno computador. Nilton massageou a
voluptuosa barriga e retirou o fone do gancho, comeando a discar o
nmero da casa da famlia Xavier.
     Ao terceiro toque, Melina atendeu.
     -- Melina, Alan est em casa?
     Houve um instante de silncio.
     -- Pastor...
     -- Est acontecendo algo ruim, no ?
     -- O senhor no sabe? Alan no lhe contou?
     -- Contou o qu, minha filha? Ele s pediu uma licena do cargo de
auxiliar por algum tempo por causa da viagem que ia fazer.
     O pastor Cross ouviu o suspiro de Melina do outro lado da linha.
     -- No quer me contar o que est acontecendo?
     -- O senhor poderia vir at aqui?
     -- Claro! Estarei a em um minuto.
     -- Irei esper-lo.
     Nilton Cross desligou o telefone e encostou-se na cadeira.
     E agora, Pai, o que est acontecendo com meu irmo? Ser que est
passando por algum perigo? Pelo menos ele sabe como nos acalmar, mandando


                                   127
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Bete para dizer-nos que est bem. Seja como for, Pai, que o Senhor esteja com ele
em sua caminhada.
     Nilton levantou-se da cadeira estofada e saiu do escritrio, bateu a
porta atrs de si e seguiu rumo  casa dos Xavier.

                                   &&&

     A porta do quarto foi aberta e Oliver despertou assustado, mas era
apenas uma simples enfermeira segurando um telefone. Ele fechou os
olhos. Segurando um telefone? Arregalou ligeiramente os olhos e a
mulher fardada de branco estava ao lado da sua cama oferecendo-lhe o
aparelho.
     -- Um telefonema para o senhor. Os mdicos acharam que j est
em condies para receber -- disse ela com um sorriso no rosto.
     Oliver pegou o telefone e a enfermeira saiu do quarto fechando a
porta silenciosamente.
     -- Al, Oliver falando.
     -- Com isso, posso concluir que voc continua vivo.
     A voz era terrivelmente conhecida.
     -- Vip?! -- Oliver notou que havia falado um pouco mais alto do
que deveria. Escutou por um momento se algum passava pelo
corredor. Ningum, estava em total silncio. -- Vip? -- repetiu com a
voz moderada.
     -- Quebrou quantos ossos, Oliver? Espero que tenha quebrado
alguns para compensar a besteira que voc fez deixando Carlos e o outro
cara escapar.
     Oliver engoliu saliva com dificuldade.
     -- Eu tive sorte. Sofri apenas um corte no superclio e uma pancada
no lbio que o deixou muito inchado. Levei uma pancada na costela,
mas no  nada grave. Selton foi quem levou a pior. Est todo quebrado
e parece que est inconsciente. ... ele no est nada bem.
     -- Foi exatamente por isso que liguei para voc.
     -- O qu?
     --  sobre Selton. Era ele quem estava dirigindo o carro-patrulha,
quem o fez bater no poste. Oliver, tenho certeza que lhes perguntaro
porque vocs dobraram na rodovia Trs ao invs de irem direto para a
central. Voc j pensou em uma resposta coerente?
     -- No exatamente.
     -- Voc j falou com algum sobre o que aconteceu com vocs?
     -- Falei com um agente. O nome dele  Axel.


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                                               Transformao - Naasom A. Sousa



      -- E... ?
      -- Ele no me questionou muito sobre isso, e eu no contei por que
desviamos da central...
      -- Oliver! -- interrompeu Vip. -- Se lhe perguntarem por que
desviaram da central, quero que diga que foi Selton quem o fez,
entendeu? Diga que voc ficou confuso, perguntou-lhe por que havia
dobrado na rodovia 113 em vez de seguir para a central, mas que ele no
respondeu e... por um erro no volante arrebentou o carro no poste, ok?
Diga que foi culpa do Selton.
      A voz de Oliver soou cheia de indignao.
      -- Mas Vip, assim irei sujar a barra do Selton. Acabaro
suspeitando que ele faz parte da quadrilha, que  corrupto e quando ele
acordar iro fazer milhares de perguntas e ele vai acabar deixando
alguma coisa escapar...
      -- Ele no ir acordar.
      Os lbios de Oliver se encontraram subitamente tremendo de
choque.
      -- O que voc disse?
      -- Ele no ir mais acordar, Oliver, e voc cuidar para que isso
acontea.
      Imediatamente um surto nervoso tomou conta do experiente
policial.
      -- Mas e-ele  m-meu parceiro e amigo... e... voc est pe-pedindo
que e-eu...
      -- Voc j entendeu tudo -- disse Vip com voz spera. -- No
podemos arriscar o futuro da quadrilha, j que o futuro de todos ns
est incluso nela. Voc bobeou, Oliver, fracassou, e por causa disso abriu
uma fresta por entre a parede e agora, mais cedo ou mais tarde nossas
aes podero ser visualizadas, a menos que voc faa com que essa
fresta seja fechada, e isso s acontecer se voc fizer o que tem que ser
feito. Ento faa e o mais rpido possvel, no importa como.
      A ligao foi finalizada e Oliver ouviu quando Vip bateu o telefone
na sua cara, no dando mais tempo para seus protestos. Oliver apertou o
boto de finalizar a ligao e repousou o telefone em cima do seu
prprio corpo. Fechou os olhos e ficou a pensar em todas as palavras
ditas durante a conversa, que parecia mais com uma das horrorosas
reunies no Quaid.
      No podemos arriscar o futuro da quadrilha, j que o futuro de todos ns
est incluso nela...
      ...Ento faa e o mais rpido possvel, no importa como.


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                                                Transformao - Naasom A. Sousa



     Oliver passou a mo pela cabea calva e percebeu gotas de suor
sobre ela.
     Que droga! Pensou. No poderia ter acontecido o que aconteceu, Selton.
No poderamos ter batido naquele maldito poste! No era para aqueles dois
terem escapado!
     Oliver olhou para seu lado esquerdo e fitou seu parceiro.
     ...Voc bobeou, Oliver, fracassou, e por causa disso abriu uma fresta por
entre a parede e agora, mais cedo ou mais tarde nossas aes podero ser
visualizadas, a menos que voc faa com que essa fresta seja fechada, e isso s
acontecer se voc fizer o que tem que ser feito...
     Selton encontrava-se deitado sobre uma cama metlica, ligado a
tubos onde respirava com a ajuda de aparelhos. Oliver ergueu-se e
dirigiu-se  cama de Selton, se postando ao seu lado.
     -- Desculpe-me, Selton, mas tem que ser feito -- sussurrou Oliver.
     ...tem que ser feito.... o mais rpido possvel, no importa como.




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                                            Transformao - Naasom A. Sousa




                                         Captulo 11



--     Socorro! Ajudem aqui! -- o grito de Oliver encheu o quarto do
       hospital NR. Ele correu at a porta e abriu-a apoiando-se na
parede. -- Socorro! Por favor, algum venha at aqui e me ajude! Gritou
ele novamente, agora enchendo os corredores do hospital. Em alguns
segundos, dois residentes e um mdico de planto chegaram s pressas
ao quarto.
     -- O que aconteceu? -- perguntou o mdico, fitando Oliver, que se
encontrava visivelmente atordoado.
     O policial em trajes simples de paciente -- uma bata azul -- engoliu
o n que estava na garganta e piscou os olhos incessantemente. Tentou
falar algo, mas de sua boca no saa outra coisa seno palavras
incompreensveis.
     O mdico tentou novamente:
     -- Sr. Oliver, o que aconteceu aqui?
     Os dois residentes caminharam  cama de Selton e, ao chagar l,
olharam com expresso preocupante para o mdico.
     -- Doutor Juarez... venha aqui, rpido!
     O mdico aproximou-se. Os residentes apontaram o problema um
tanto alarmados. O tubo de oxignio havia se soltado do aparelho de
bombeamento artificial que levava o ar at os pulmes do paciente em
coma e a cama estava desarrumada. Todos olharam para Oliver; todos



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                                           Transformao - Naasom A. Sousa



os olhares pedindo explicaes. O Dr. Juarez colocou o estetoscpio
sobre o peito de Selton e no escutou nenhuma palpitao.
    -- Sr. Oliver, definitivamente, o que aconteceu aqui? -- agora o
mdico requeria.
    Oliver balanou a cabea de um lado para o outro.
    -- Oh, Selton! Selton! -- ele correu  cama do seu parceiro e
debruou-se sobre o corpo imvel, segurando na gola da bata azul. Ele
chacoalhou Selton, fazendo o leito ranger. -- Selton, no faa isso
comigo, cara! No desista agora! -- chorou Oliver.
    O Dr. Juarez e um residente seguraram o descontrolado policial.
    -- Calma, senhor, calma! -- pediu um dos residentes, que acenou
para o outro e retiraram Oliver de cima do corpo de Selton, e logo aps
do quarto, que parecia mais escuro naquele momento.
    Est feito, meu caro Vip. Est feito, proferiu Oliver em seu
pensamento.

                               &&&

     -- Sr. Oliver, diga-me exatamente o que aconteceu l no quarto com
o Sr. Selton -- perguntou outra vez o Dr. Juarez, agora em um outro
quarto que tambm exibia duas camas metlicas formalmente
acolchoadas e cobertas com lenis puramente alvos. Oliver sentava-se
numa delas e dois mdicos de planto fitava-o ao lado do agente de
polcia negro, Axel. O velho policial encontrava-se de cabea baixa,
matraqueando com as mos, uma na outra, como se estivesse montando
uma pequena caixa.
     -- Ele se mexeu -- balbuciou Oliver.
     O Dr. Juarez voltou-se para Axel.
     -- Ele se mexeu? -- indagou ele, espantado. -- Isso quer dizer que
ele saiu do coma!
     -- Provavelmente -- disse Oliver.
     -- O senhor no tem certeza? No viu ele se mexer?
     -- No.
     -- Oliver... -- Axel tomou a palavra e o policial/paciente fitou-o
nos olhos. -- O que aconteceu? Conte-nos como Selton se desligou do
bombeador artificial de oxignio.
     -- Ele morreu, no foi? -- perguntou Oliver, respirando fundo.
     -- . Morreu, sim -- confirmou Axel, pesaroso.
     Oliver tornou a baixar a cabea como em reverncia e silenciou por
um momento.


                                  132
                                            Transformao - Naasom A. Sousa



     -- Recebi um telefonema. Era minha mulher, Joana. Conversamos e
logo a seguir adormeci -- disse ele, a voz fraca. -- Ouvi, durante meu
sono, um barulho de algum se debatendo. Abri os olhos e vi a cama do
Selton desarrumada. Vi tambm que o tubo que o ligava  mquina
havia se desprendido. Eu... eu... -- Oliver silenciou novamente. --
Tudo o que pude fazer foi gritar daquele jeito, sabe... eu estava
desesperado, eu... -- ele perdeu a fala, sendo sufocado pelas lgrimas.
     Axel aproximou-se e tocou-lhe o ombro.
     -- Sinto muito, Oliver. Todos sentimos muito. Tudo vai acabar bem.
     O choro foi estancado e o policial em trajes de paciente olhou nos
olhos de Axel com expresso de fria.
     -- No vai no, cara. Nunca acabar, agora que perdi o meu
parceiro. Tudo graas queles desgraados. Vou peg-los, cara, espere s
eu botar as minhas mos neles. Espere s.
     -- Vamos peg-los, policial. Vamos peg-los -- confortou Axel.

                               &&&

     Assim que deixou Oliver a ss com os mdicos, Axel recebeu um
chamado de seu capito na central pelo seu pager. Vinte minutos depois
ele estava em frente  porta da sala mais temida do departamento de
polcia. Do outro lado da porta de mogno, Axel podia ver pelo vidro seu
capito Afonso Sander, um homem corpulento, de cabelos grisalhos,
bigode cheio e de aparncia impertinente. Todos o temiam por ele ser
muito explosivo e gostar de pegar no p de quem no lhe agradasse.
     Axel bateu no vidro da porta e respirou fundo. Vamos ver no que
vai dar, pensou.
     O capito Sander levantou os olhos dos papeis que estava revisando
e acenou para que entrasse. Axel abriu a porta, entrou e postou-se em p
 frente do forte homem.
     -- Senhor?
     -- Sente-se, Brendel -- Sander ofereceu a nica cadeira alm da sua
na sala e Axel puxou-a, acomodando-se  mesa.
     -- Senhor, antes de mais nada, tenho uma notcia nada agradvel
para comunicar.
     -- Diga.
     -- Agora pela manh, o oficial Selton Canhedo faleceu em um dos
quartos de internao do NR.
     A face do velho capito permaneceu inexpressiva.
     --Morreu? Como isso aconteceu?


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                                             Transformao - Naasom A. Sousa



     -- Ele se encontrava em coma. Mas acho que ele despertou alterado
e isso acabou fazendo com que batesse num tubo que levava o oxignio
aos seus pulmes e desprend-lo dele, fazendo-o morrer por falta de ar.
     -- Meus Deus! -- exclamou Sander. No tom de sua voz podia-se
sentir sua frieza e Axel quis saber se ele realmente sentia alguma coisa.
     -- O oficial Oliver Batista estava dormindo numa cama no mesmo
quarto quando o trgico acidente aconteceu. Quando acordou, Canhedo
j havia falecido. Foi Oliver quem chamou, aos gritou, os mdicos. Ele
ficou muito aturdido quando soube que seu parceiro no abriria mais os
olhos.
     -- Os dois eram sem dvida muito apegados um ao outro.
     -- No os conhecia bem, mas era o que diziam.
     O silncio tomou conta da sala por um momento. Axel se sentiu
compelido a quebr-lo.
     -- Mas... o senhor me chamou...
     -- Oh, sim! Victor, Lauro e Levi no encontraram os dois caras nos
livros de antecedentes. Pedi para que viesse para tomar as providncias
e encaminhar o processo do retrato falado.
     -- , eu j vinha para c mesmo. Obrigado por me lembrar mesmo
assim.
     Sander deslizou os dedos pelo bigode, como se os penteasse.
     -- Mas voltando a falar sobre Oliver e... o falecido Selton, que Deus
o tenha... Voc os interrogou sobre o por qu de ter levado os dois
suspeitos para a rodovia Trs em vez de ter vindo direto pela Nando
Arrais?
     Axel meneou a cabea.
     -- J que Selton estava em coma, hoje eu iria falar apenas com
Oliver, mas acabou acontecendo o acidente e observei o jeito como ele
reagiu... Enfim, achei melhor no tocar no assunto naquele momento to
difcil. Mas... na noite em que ele chegou ao NR, ele me falou que Selton
perdera o controle do carro e assim eles bateram.
     Sander pareceu confuso.
     -- Selton perdera o controle? Logo Selton? Ele foi eleito o melhor
motorista da central ano passado. Por que ele iria perder o controle do
veculo?
     Axel pensou por um instante e lembrou-se das palavras de Oliver.
     -- Oliver falou que Selton perdeu o controle porque viu pelo
retrovisor um dos homens tentando abrir as algemas.




                                   134
                                              Transformao - Naasom A. Sousa



    -- De qualquer jeito, quero que interrogue Oliver sobre o desvio 
rodovia Trs. Quero um relatrio completo sobre isso e sobre o acidente
com Selton na minha mesa o mais breve possvel.
    -- Ento isso quer dizer...
    -- Quer dizer que o caso  seu daqui por diante.
    -- Obrigado, capito. Assim que eu falar com Oliver,
imediatamente mandarei os relatrios.
    O bip do pager de Axel subitamente soou novamente, Ele levou a
mo ao cinto e o removeu at a altura dos olhos. Leu a mensagem.

 "QUERO V-LO HOJE  NOITE EM MINHA CASA. JANTAR  ESPERA". SANDRA.

     Afonso Sander observava-o.
     -- Algum problema?
     -- Oh! Nenhum, senhor, e... se me der licena, tenho que dar um
telefonema.
     -- Certo, est dispensado.

                                 &&&

     Axel ligou de um dos telefones pblicos da central.
     Tina, sua esposa, atendeu ao terceiro toque.
     -- Al, residncia dos Brendel.
     -- Tina,  Axel.
     -- Oi, amor. Algum problema?
     -- No, nenhum. Quero dizer... mais ou menos.
     -- O que foi? -- a voz de Tina exibia um tom de preocupao.
     -- Calma, querida. No  nada de grave.  que surgiram problemas
por aqui. Dois policiais morreram hoje e fui designado para o caso. Isso
vai custar horas extras de trabalho, j que as coisas se tornaram difceis.
Por isso estou ligando para voc. Acho que no irei para casa hoje.
     -- Puxa, logo hoje que fiz lasanha com molho de tomate para voc!
-- resmungou Tina, com tristeza.
     -- Oh, no! -- protestou Axel. -- S agora que voc me diz?!
     -- No esquente com isso. Leonardo e eu daremos conta direitinho
desta lasanha e desde j agradecemos.
     Axel sorriu.
     -- Eu te amo, Tina -- declarou ele.
     -- Eu tambm te amo, querido.



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                                             Transformao - Naasom A. Sousa



    Axel levou o fone de volta ao gancho e caminhou em direo 
sada, de retorno ao Norton Ramos.

                                &&&

     Quando ouviu que Axel desligara, Tina olhou por alguns segundos
para o fone e depois o devolveu ao console. Foi at a mesa e retirou os
ingredientes para a lasanha de cima dela, levou-os at a dispensa e
guardou-os l.
     Leonardo, o filho de oito anos do casal, observou os movimentos e a
expresso de angustia no rosto da me.
     -- No vamos mais ter lasanha no jantar, mame?
     Tina aproximou-se dele e tocou-lhe delicadamente o rosto.
     -- No, querido, mas vamos comer uma deliciosa pizza. O que
acha?
     -- Papai ir gostar mais da lasanha.
     -- Iria gostar, querido. Ele no vir  noite.
     Leonardo fechou os olhos e balanou a cabea de um lado para o
outro.
     -- Outra vez? -- sentenciou ele com uma pergunta que fez Tina
estremecer.
     Ela puxou o pequeno filho contra o corpo e acochou-o num caloroso
abrao. Foi tudo o que pde fazer, e isso tomou o lugar de suas palavras.
Depois disto, deixou Leonardo com seus brinquedos e distanciou-se do
mundo quando se trancou em seu quarto, fazendo das quatro paredes
suas fronteiras. Tina debruou-se sobre a cama e ento escorregou por
ela at encontrar-se de joelhos.
     Gotas de lgrimas rolaram por seu rosto, e ento o choro foi liberto.
Seus lbios tremiam em uma splica sussurrada, incompreensvel para
os homens, mas no para o Senhor.
     Tina entregou-se inteiramente  orao naquela manh. Nalgum
dia, tinha certeza, o Senhor cumpriria com suas palavras em Lucas 18:7.
Ela rogou em voz alta:
     -- Oh, Senhor! Traga-o de volta para mim! depois de pertencer a ti,
ele pertence a mim, Senhor! Por favor, traga-o para mim! -- e ento, as
lgrimas sufocaram-na novamente.

                                &&&




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                                              Transformao - Naasom A. Sousa



     Axel entrou em seu carro-patrulha com a cabea num turbilho.
Tudo era um tanto estranho, pensava ele. Pablo e Caio pegos em uma
armadilha, dois suspeitos so flagrados e levados por dois policiais que,
mais tarde, saem da rota da central de polcia por motivos
inimaginveis. A viatura em que se encontravam bate em um poste por
culpa de um dos policiais que, horas depois de sofrer traumatismo
craniano acorda do coma e, de forma afoita, desconecta-se do aparelho
de bombeamento de oxignio de que precisava e morre.
     -- O mal est se alastrando -- disse consigo mesmo.
     Ele colocou a chave na ignio, mas no a girou de imediato. Outros
pensamentos tomaram-lhe a mente.
     Oliver falara que tinha sido Selton quem havia perdido o controle da
viatura, e de modo estranho. Qual a explicao para isso? Pensou. Qual a
explicao por terem sado da rota da central? Ou... Axel refletiu numa
frao de segundos. Ou apenas... apenas um ter sado da rota: quem guiava o
carro... Selton.
     Ps-se a girar a chave, mas, de repente, uma mo tocou-lhe o ombro
e chamou-lhe a ateno. Era Victor.
     -- Assustei-o?
     -- Oh, no -- disse Axel, mentindo. -- Como voc est?
     -- Estou bem, mas no  sobre mim que vim at aqui para falar com
voc. Recebemos um telefonema neste instante. Um telefonema
"daqueles", annimos, mas nem tanto.
     Axel entendeu imediatamente o que significava.
     -- No me diga que...
     -- Isso mesmo.  Caio.
     -- Meu Deus! Voc sabe onde ele est?
     -- Sei.
     -- Ento o que est esperando? Entre, vamos l!

                                 &&&

    Ding Dong! Ding Dong!
    A campainha soou e Melina caminhou at a porta. Abriu-a e o
pastor Nilton Cross saudou-a com um largo sorriso.
    -- A paz do Senhor Jesus, Melina -- disse ele, estendendo a mo
grossa e gorda.
    -- A paz do Senhor Jesus, pastor -- ela apertou a grande mo. --
Entre, por favor.



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                                             Transformao - Naasom A. Sousa



      Nilton adentrou a casa humilde, mas bem cuidada e mobiliada dos
Xavier. Ela parecia maior em seu interior do que se imaginava quando se
olhava por fora, mas o pastor Cross matou a charada quando descobriu
que era o modo como Melina arrumava os mveis da casa que deixava
os cmodos dos aposentos mais espaosos.
      Ele se acomodou no sof ao canto da sala e Melina sentou-se  sua
frente. Nilton notou-a um tanto abalada. Resolveu ir devagar, iria chegar
ao ponto certo com calma.
      -- Voc est bem?
      Ele forou um sorriso.
      -- Estou.
      -- E as crianas?
      -- Tambm. Esto na escola e esto se saindo bem l.
      -- E... Alan?
      Melina baixou a cabea.
      -- Alan... -- ela respirou fundo. -- Eu no sei onde ele est agora.
No sei se est bem ou mal, doente ou com sade. No sei como est,
mas gostaria de saber.
      -- Ele est bem -- confortou-a Nilton, de imediato.
      -- , eu tento sempre pensar assim, pastor, mas...
      -- No -- interrompeu Nilton, tocando a mo de Melina --, ele est
bem, Melina, e muito bem por sinal. Tanto que nos mandou uma velha
senhora para que cuidssemos.
      A Sra. Xavier levantou rapidamente o cenho.
      -- O qu?
      Nilton observou a expresso de ansiedade no rosto da sua ovelha e
abriu um sorriso espontneo.
      -- Isso mesmo -- confirmou ele. -- Essa senhora chegou hoje de
manhzinha no templo procurando por mim, e quando descobriu que
"eu era eu", disse que Alan havia-lhe mandado me procurar e dizer para
eu cuidar dela. Ento, depois ela perguntou por voc e falou que Alan
mandou-a dizer a voc que estava bem e que a amava e tambm a Jaime,
Jair e Jssica.
      Uma lgrima rolou dos olhos de Melina e ento conseguiu sorrir.
      -- Oh, Deus, obrigada! Muito obrigada!
      O pastor Cross deduziu que era o momento de esclarecer todas as
questes em pauta.
      -- Melina... diga-me: o que Alan estava fazendo, tamanha
madrugada, na avenida Aramedo acompanhado de um homem?
      Melina hesitou um pouco, ainda emocionada.


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                                            Transformao - Naasom A. Sousa



     -- De madrugada na avenida Aramedo, acompanhado de um
homem? No fao a mnima idia!
     -- Era onde Bete, a velha senhora, estava. Na avenida Aramedo. Ela
disse que ele estava com um homem.
     Melina ps as mos na cabea, pensando, e repentinamente
lembranas fluram em sua mente.
     Carlos!
     -- Ser que...
     -- Ser que o qu? -- indagou Nilton.
     --  que... eu estava pensando. S se esse homem for o que Deus
revelara a Alan lguns dias atrs.
     -- Que estria  essa?
     -- Eu pensei que Alan tinha falado com o senhor sobre isso,
pastor...
     -- Falado o qu, Melina?
     Melina observou seu pastor e notou seu estado de ignorncia. Ele
no entendia nada do que ela estava falando. No estava a par de nada.
Na mente, um milho de interrogaes. Ela resolveu contar tudo do
princpio.
     -- Lembra-se da profecia do Senhor, para que Alan O buscasse e o
propsito de Deus lhe seria revelado?
     -- Lembro, sim. Est querendo me dizer...
     -- Sim, pastor. Esta semana, o Senhor revelou a Alan o que lhe
havia prometido na profecia.
     -- Sim, continue -- pediu o velho guerreiro de Deus.
     -- Revelou-lhe que iria mand-lo a um lugar onde encontraria um
homem, e esse homem se chama Carlos. Foi-lhe incumbido a misso de
pregar a Palavra de Deus a esse homem e se possvel ganh-lo para
Jesus. Alan falou-me que seria grandioso se Carlos se convertesse ao
Senhor. Eu pensava que esse Carlos fosse um homem de recursos ou...
sei l, algum que pudesse influenciar as pessoas a aceitar Jesus. --
Melina suspirou, com rosto tomando novamente a forma de tristeza. --
Mas depois juntei tudo o que Alan havia me dito e...
     -- Sim? --induziu o pastor.
     -- Ao nos despedirmos, perguntei se ele voltaria para mim logo,
e... -- ele pausou um breve momento. -- Ele disse que no sabia se
retornaria. Disse que o mais importante era a vontade de Deus, pois seus
planos jamais seriam frustrados. -- lgrimas tornaram a descer pela face
de Melina e emocionaram Nilton. -- falou-me ainda que... que isso



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                                            Transformao - Naasom A. Sousa



poderia ser muito perigoso, pastor. Desta vez mais ainda do que foi da
primeira vez.
     O pastor Cross arregalou os olhos de horror.
     -- Mais ainda? Jesus Cristo!
     Melina balanou a cabea confirmando suas prprias palavras.
     -- Sabe, pastor Cross, no quero ser prepotente nem descrente do
poder de Deus, mas... -- Melina conteve com grande esforo o choro
que teimava explodir garganta afora. Continuou. -- ...estou com medo.
Tento no expor meu lado carnal, tento no pensar no que ele possa
estar passando de mal. De hora em hora dobro meus joelhos em orao e
suplico ao Senhor que multiplique minha pequenina f e que me ajude a
confiar no seu poder, graa e sabedoria. Mas sempre minha carne entra
em conflito com meu esprito e ento surge em mim o egosmo, e vejo-
me a discutir com Deus e... dizer-Lhe que Alan tambm me pertence
assim como pertence a Ele, e... -- Melina no pde mais continuar. O
choro tomou-lhe a fala.
     -- Oh, Deus -- chorou ela --, por favor, perdoe-me! Ajude-me a
confiar e esperar plenamente em ti, Senhor!
     O pastor Cross certificou-se que a sua hora era chegada.
     -- Senhor Deus -- orou ele --, Te adoramos, pois tu s Santo,
Tremendo e Soberano sobre a terra, cu e mar, que reinas sobre as
naes e como Tu no h outro. Olha, Senhor, para a tua filha neste
momento e contemple sua aflio, suas dvidas, seus anseios e tudo
aquilo que a impede de confiar cegamente em Ti. Remove todas as
barreiras do seu corao e d tranqilidade e ela, Pai. Mostra-lhe que a
Tua palavra  perfeita quando fala que todas as coisas acontecem para o
bem dos que Te temem...
     O pastor Nilton Cross orou fervorosamente a Deus naquela manh.
Apresentou-se ao senhor, assim tambm como  Melina, Alan e os trs
pequeninos do fiel casal. Pediu que os guardasse e que os ajudasse a
suportar todas as aflies, pois a vitria era certa.
     Ao trmino da orao, Melina sentiu-se veementemente melhor. O
peso exaustivo do seu corao havia se transformado em um leve e
suave sentimento de calma. Ela agora respirava fundo, serenamente.
Enxugou as lgrimas do rosto e sorriu ternamente.
     -- Obrigada por ter vindo, pastor. Estava precisando mesmo desta
orao.
     Nilton tambm abriu o largo sorriso.




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                                               Transformao - Naasom A. Sousa



     -- O Senhor sabe o que faz, Melina. E se no fosse eu a vir aqui,
teria sido outra pessoa que da mesma forma teria orado por voc assim
como eu orei.
     -- Eu creio nisto -- disse Melina e como um relmpago o sonho da
noite anterior veio-lhe a mente. -- E... creio tambm que Alan est
precisando muito das nossas oraes, porque tive um sonho e este sonho
significava isto. Devemos orar para que Deus o proteja e o ajude cada
vez mais nesta caminhada.
     Nilton acenou com a cabea, concordando plenamente.
     -- Vamos orar.

                                  &&&

     Axel nem precisou perguntar a Victor qual o local que a quadrilha
tinha determinado agora. O rdio da viatura anunciou:
     Ateno viatura oito e prximas  rua Doroth Palheta. Corpo encontrado
no beco Assuno. Possivelmente ligado ao caso 5349. Dirijam-se ao local para
registros e averiguaes.
     A viatura passou voando pela Marechal Hermes, fazendo os
transeuntes taparem os ouvidos com o barulho da sirene e dobrou na
rua Jacinto Nyer, seguindo por mais alguns quarteires. Ao dobrar na
Doroth Palheta, Axel observou ao longe que algumas viaturas j se
encontravam no lugar. Ele estacionou ao meio-fio e desceu do carro s
pressas, seguido por Victor.
     Eles passaram por um oficial que comeava a isolar a rea com a
conhecida fita amarela e por outros conhecidos e desconhecidos agentes
at chegarem ao corpo.
     Um outro policial tirava fotografias de todo permetro ao redor do
vulto enegrecido e rijo. Axel agachou-se e olhou para o corpo escuro
esticado no cho. Absorveu cada detalhe com os olhos, cada parte
queimada, cada parte da carcaa carbonizada que lhe pudesse, mesmo
imvel e impossibilitada para sempre, ressaltar-lhe alguma palavra,
revelar-lhe algo importante. Mas nada de especial passava-lhe  mente,
nem lhe revelava coisa alguma ou falava-lhe qualquer palavra oculta.
Tudo o que lhe resgatava as idias ou o olhar furtivo era o que todos
comumente podiam ver e assim tirar a mais bvia das concluses: O
distintivo intacto da polcia de Melmar sobre o corpo carbonizado ao
cho, aberto, possibilitando a observao de todos e a leitura do nome
do portador -- agora ex-portador -- Caio Vieira.
     Axel respirou fundo e passou a mo no rosto suado.


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     -- Tudo bem, cara? -- perguntou Victor. Axel olhou por cima do
ombro.
     -- ... acho que sim -- falou Axel, voltando o olhar para o corpo de
Caio.
     -- Esses canalhas! Quantos mais iro se transformar nisto pelas
mos deles? -- Victor protestou. -- Temos que dar um jeito nisso, cara!
Temos que det-los.
     Axel tirou os olhos de cima da matria queimada e levou-os de
volta para trs, fitando Victor. Viu ao mesmo tempo um olhar de medo e
coragem naquele jovem de vinte e poucos anos, que no tinha visto
ainda muita coisa naquela profisso ingrata. Desejou que ele aprendesse
logo todos as manhas e truques da vida de policial assim como um
estmago forte para que no se perdesse no caminho.
     -- O cerco est se fechando, Victor -- concluiu ele. -- Mas como
voc disse, temos que dar um jeito nisso. E eu lhe digo: vamos dar.




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                                           Captulo 12



A   noite havia-se ido embora fazia tempo, e no momento o sol clareava
   no cu. Agora se podia ver perfeitamente onde se encontravam: No
meio do lixo completo. Pilhas de latas de lixo encontravam-se jogadas de
um lado para o outro do beco, formando uma segunda camada de
parede construda de lato. O cho estava coberto de papis, sobras de
comida e todo tipo de sujeira e material descartvel e perecvel. O odor
continuava, e agora mais intensamente por causa da temperatura que
aumentava gradativamente.
     Alan tinha dormido muito pouco e "acordou com o sol". Sem se
mover, orou ao Senhor por um longo tempo e agora se ocupava apenas
em pensar. Refletir no que viria a seguir, no que os reservava o futuro
prximo. Diante desta pergunta, um versculo tomou-lhe a mente:
Portanto, no andeis ansiosos pelo dia de amanh, pois o amanh se preocupar
consigo mesmo. Basta a cada dia o seu prprio mal. A palavra de Deus tem
razo. Sabemos que todas as coisas acontecem para o bem daqueles que amam a
Deus, daqueles que so chamados segundo o seu propsito.
     Os pensamentos de Alan foram interrompidos quando Carlos
despertou assustado, seu corpo estremecendo. Carlos baixou a cabea e
levou as mos ao rosto.
     -- Um pesadelo? -- indagou Alan.
     Carlos nada falou. Apenas levantou os olhos, fixou-os no nada e
assim ficou por um bom tempo, sem piscar.


                                    143
                                              Transformao - Naasom A. Sousa



     -- Acho que teve mesmo -- concluiu Alan. -- Quer falar sobre isso?
     Nem um msculo foi movido. Alan suspirou em desapontamento.
Agora voltou a ser como era antes, pensou. E os dois permaneceram em
silncio. Carlos deixou escapar um grunhido e Alan especulou:
     -- O que foi? Est sentindo algo? Alguma dor? Do jeito que voc
ficou depois que aqueles caras te pegaram, no me admiraria se voc
ficasse arriado, ainda mais com todo o caminho puxado que
enfrentamos...
     Carlos voltou-se para o homem ao seu lado.
     -- No precisa se preocupar. J suportei muitas coisas e isso no
chega nem perto do que j passei.
     Alan sabia disso.
     -- Sei disso, Carlos. Talvez no possa parecer, mas tambm j passei
por muita coisa na vida, assim como voc. Acho que no pelas mesmas
experincias, mas j vivi vrias situaes, por isso, acho que sei pelo que
est passando; o que est sentindo.
     Carlos sorriu zombeteiro.
     --  mesmo? Pois t, pastor, fale. Diga pra eu ouvir. O que estou
sentindo?
     Realmente queria ouvir o que aquele homem iria falar? Carlos viu-
se curioso. Agora ele vai se dar mal, pensou. Mas de alguma forma sentiu-
se em dvida e temeroso, pois suas palavras poderiam ser verdadeiras,
falar exatamente de sua vida. Aquele estranho homem ao seu lado sabia
como cativar seu interesse, e assim, como das vezes anteriores, mais uma
vez ele conseguiu fisgar sua ateno.
     Alan suspirou vagarosamente, olhou para o cu azul l em cima.
     -- Na bblia -- comeou ele -- encontra-se uma parbola de Jesus...
     L vem ele para contar coisas sem interesse. No falou que achava que
sabia o que eu estava sentindo? Por que est mudando de assunto?
Pensou Carlos, mas no interrompeu Alan. Queria saber aonde iria dar
sua "conversa".
     Alan continuava:
     -- ...em que Ele conta a estria de um homem de riquezas. Ele tinha
dois filhos. Um dia, o mais moo disse ao pai: "D-me a parte dos meus
bens que me pertence". E o pai repartiu os bens entre os dois. Poucos
dias depois, o filho mais moo, ajuntando tudo, partiu para uma terra
distante, e ali desperdiou os seus bens, vivendo dissolutamente. Tendo
ele gastado tudo, houve naquela cidade uma grande fome, e ele
comeou a passar necessidade. Ento, um dia, chegou-se a um dos
cidados daquela terra, o qual o mandou para os seus campos para


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                                            Transformao - Naasom A. Sousa



apascentar os porcos. Ele desejava encher o estmago com as alfarrobas
que os porcos comiam, mas ningum lhe dava nada. Ento, caindo em si,
disse: "Quantos trabalhadores de meu pai tm abundncia de po, e eu
aqui pereo de fome! Levantar-me-ei e voltarei at meu pai e lhe direi:
`Pai, pequei contra o cu e perante ti. J no sou digno de ser chamado
teu filho; faz-me como um dos teus trabalhadores'." Ento, levantou-se
ele e foi para seu pai. Quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se
moveu de ntima compaixo e, correndo, lanou-se-lhe ao pescoo e o
beijou. Depois disso, o filho falou o que falara antes consigo mesmo. Mas
o pai disse aos seus servos: "Trazei depressa a melhor roupa e vesti-o
com ela, e ponham-lhe anel nas mos e sandlia nos ps. Trazei o
bezerro cevado, matai-o. Comamos e alegramo-nos. Pois meu filho
estava morto e reviveu, tinha-se perdido e foi achado". E comearam a
alegrar-se.
     Alan pausou por um minuto para que suas palavras pudessem ser
absorvidas pelo consciente de Carlos.
     -- O filho mais velho estava no campo, e quando voltou, chegou
perto da casa, ouviu a msica e as danas. Chamando um dos criados,
perguntou o que era aquilo. Ele lhe disse: "Veio o teu irmo e teu pai
matou o bezerro, porque o recebeu s e salvo". Ento, o filho mais velho
indignou-se e no quis entrar. Porquanto saiu o pai e falou com ele, mas
ele respondeu: "Olha, sirvo-te h tantos anos, sem nunca transgredir o
teu mandamento, e nunca me deste um cabrito para alegrar-me com
meus amigos. E vindo, porm, este teu filho, que desperdiou todo os
teus bens com prostitutas, tu mandaste matar para ele um bezerro
cevado". Respondeu-lhe o pai: "Filho, tu sempre ests comigo, e todas as
minhas coisas so tuas. Mas era justo alegrarmo-nos e folgarmos, porque
este teu irmo estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado".
     Carlos meneou a cabea.
     -- Bela estria, pastor. Mas no tem nada a ver com...
     -- Pode parecer que no tem nada a ver com a sua vida, Carlos --
interrompeu Alan, ligeiramente jovial. -- Mas lhe digo: Esta parbola e
sua vida, ao se fundirem, mostram-se inegavelmente idnticas em certos
aspectos.
     Carlos no abriu a boca. O momento, pensou ele, era de ficar atento.
     -- Lembre-se que contei que o filho pediu a seu pai os seus bens e
depois partiu para uma terra distante e, trazendo  sua vida, voc
ganhou de Deus o seu mais precioso bem: a sua vida. O filho desperdiou
todos os seus bens com os prazeres da vida, como tambm com
prostitutas, e voc desperdiou a sua na gangue, no roubo de carros, na


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participao em operaes envolvendo drogas... e no tendo mais para
onde correr, voc se entregou para a quadrilha -- para ser mais exato,
para o Vip. Assim aconteceu tambm com o filho prdigo quando se
chegou quele cidado da cidade.
      As palavras cessaram por um instante e a mente de Carlos se
encheu de pensamentos.
      -- Mas nisso tudo h uma diferena entre vocs dois -- tornou Alan
a falar, fitando os olhos de Carlos --, que pode parecer pequena, porm
de grande valor. O filho, depois de ter passado por tudo aquilo, caiu em
si, e ento entregou-se ao arrependimento, decidiu voltar  casa do pai,
pois l, at os empregados viviam melhor, muito melhor do que ele
estava vivendo naqueles dias. E ele voltou. Optou pelo melhor; optou
corretamente. Visualizou a soluo; escolheu o caminho; encontrou a
sada. Quanto a voc... bem, voc ainda est  procura desta soluo,
desta sada. Posso sentir que est arrependido, mas ao contrrio do filho
prdigo, voc no visualizou a soluo dos seus problemas, e se assim o
fez, foi de modo errado.
      Est plantando verde para colher maduro, pensou Carlos. Pegou uma
folha de papel no cho e comeou a amass-la tentando descontrair-se,
mas em vo, pois se perturbou com o pensamento seguinte: Mas e se no
for? Como ele pode saber de tudo isso? Como pode saber o que penso e
almejo? A mente de Carlos era um turbilho e ele pensou que a
expresso do seu rosto e a sua inquietao pudesse denunciar o medo
que lhe empertigou o ntimo de repente.
      -- Como pode saber? Como pode saber se encontrei a soluo ou
no? E se a encontrei, por que acha que foi de modo errado? -- indagou
Carlos.
      Alan sorriu.
      -- Eu no sei -- respondeu ele --, mas Deus sabe. E se venho a
saber de algo, Carlos, como as coisas que acabei de lhe dizer,  atravs
dEle.  atravs dEle que sei que voc no est mais pensando nas
conseqncias, e sim apenas no seu objetivo. No est raciocinando
direito, pelo que no liga para muita coisa agora a no ser sair dessa
enrascada em que est metido.
      -- Ns -- corrigiu Carlos.
      -- Certo, ns. Mas voc muito mais que eu. No  assim que deve
ser, Carlos. No por fora nem por violncia, pois temos algum que
pode fazer isso por ns.
      -- Espere, espere -- cortou Carlos. -- Eu j conheo essa frase. Voc
j falou isso na viatura quando fomos presos por aqueles dois cretinos.


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                                               Transformao - Naasom A. Sousa



     -- Exatamente. Que bom que se lembrou. Isso quer dizer que est
ouvindo tudo o que digo.
     Droga! Fui pego nessa. Entreguei a mim mesmo.
     -- Numa passagem bblica, est escrito: Se Deus  por ns, quem ser
contra ns? Se estamos com o Senhor do nosso lado, Carlos, no temos o
que temer, pois "Ele quebra a flecha e corta a lana, queima os carros no
fogo, porque Ele  o Senhor dos exrcitos". Nem homens, nem
quadrilhas, nem exrcitos podem derrot-lo, porque Ele  Deus
Onisciente: sabe todas as coisas, tudo o que pensamos, planejamos e
ocultamos; Onipresente: est em todos os lugares, no podemos nos
esconder de sua presena. Voc poderia se esconder no mais profundo
dos abismos, ou no mais profundo dos mares, ou mais do que nenhum
homem poderia chegar e l estaria Deus; e Onipotente: pode todas as
coisas no mundo. O impossvel para ns  possvel para Ele. No h
barreiras que no possa transpor, no h correntes que no possa
quebrar. -- Alan apontou mansamente o dedo para Carlos. -- Agora
imagine Ele lutando ao seu lado. Voc no precisa fazer fora nem
esforo de forma alguma. Bastaria apenas ligar-se a Ele.
     Carlos respirou profundamente sem dizer uma palavra, esfregou os
olhos e comeou a levantar-se vagarosamente. Alan acompanhou-o e
reservou-se a observ-lo em silncio, pois concluiu que o movimento
encerrara a conversa.
     -- Vamos -- disse Carlos, pondo-se a caminhar para a sada do
beco.
     -- Para onde?
     -- Telefonar novamente e pr um fim nisso tudo de uma vez por
todas.
     -- E voc far isso com um simples telefonema?
     Carlos estancou e virou-se para fitar Alan, mas antes que pudesse
falar alguma coisa, foi advertido: -- Foi s uma pergunta! Apenas uma
pergunta!
     -- , farei, sim -- voltou a dirigir-se para a sada do beco --, ou pelo
menos irei tentar.

                                  &&&

      O telefone pblico ficava  dois quarteires do beco em que Carlos e
Alan haviam passado  noite. Em cima do telefone encontraram uma
lista telefnica, mas o nmero a ser discado no constava nela.
      Alan estava um tanto agitado e Carlos percebera isso no caminho.


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     -- Algum poder nos ver, poder ver as algemas... -- balbuciara
Alan.
     -- Esta rua no  muito movimentada -- Aquietara-o Carlos --,
mas de qualquer forma ande bem junto a mim e deste jeito ocultamos a
algema.
     Assim no houve problemas at ali.
     -- Quem fala? -- falou a voz do outro lado da linha.
     -- Quero falar com o Vip. Agora -- Carlos esforava-se para que a
voz pudesse sair. -- Diga que Carlos quer falar com ele...
     -- O Sr. Vip no pode atender agora, ele est...
     -- Olha cara, se voc no cham-lo neste momento, ir se
arrepender pelo resto da sua vida; e garanto, se no coloc-lo nesse
telefone em um minuto, sua vida no ser muito longa.
     Fez-se silncio na linha.
     -- Espere -- pediu a voz.
     Carlos esperou impacientemente.
     Sempre existia aquela conversa melanclica e medocre de que Vip
no poderia atender, pois estava muito ocupado. Conversa fiada, pensou
Carlos. Aquilo, em termos leigos, significava: "Vip no est a fim de
falar com ningum agora. Se quiser falar com ele, ligue outra hora e v
se no enche!" Algumas vezes, o fato de estar ocupado com os negcios
era verdade, mas a maioria -- absoluta, para ser exato --, era a mais
pura mentira.
     Verdade ou mentira agora no vinha ao caso, e sim a conversa que
haveria que ter de qualquer forma.
     O silncio foi quebrado pela voz familiar:
     -- Ora, ora... Carlos, bom dia! Espero que a noite no tenha sido...
turbulenta seria a palavra certa?
     Desgraado! Pensou Carlos. Sempre fazendo piadinhas, mesmo
estando em desvantagem em relao a outros. Nunca deixa transparecer
qualquer resqucio de preocupao.
     -- T legal, vamos logo ao assunto...
     -- Por falar em assunto -- Vip tomou a palavra --, o que aconteceu
ontem quando me telefonou? Parecia que estava em encrencas. Foi
baleado? Est perdendo sangue? Ficaria contente em saber eu sim. Seria
menos trabalhoso cuidar de voc.
     Carlos sentia dores por todo o corpo, e tinha certeza que se fosse
uma pessoa mais fraca, estaria desmaiado a muito tempo. Mas no seria
inteligente da parte dele declarar isso ao inimigo.



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                                            Transformao - Naasom A. Sousa



     -- Fique descansado. Estou bem, nada me aconteceu para facilitar
sua vida.
     -- Oh, sinto muito -- murmurou Vip. -- Sinto muito mesmo.
     -- No, no sinta, e escute. Sua fada madrinha est falando com
voc neste momento. Voc pode livrar-se de mim com facilidade, Vip, e
eu j lhe disse como.
     -- Eu lhe dou o que voc quer e voc me d o que eu quero? --
indagou o poderoso homem do crime.
     --  isso a. E lhe prometo: voc nunca mais me ver novamente.
Nunca mesmo.
     Houve um silncio prolongado. Carlos se perguntou se era um bom
ou mau sinal. A resposta encontrava-se nas palavras que viria a seguir.
Sentiu-se como um ru -- apesar de nunca ter sido um --  espera do
resultado da votao do jri a cerca de sua absolvio ou condenao.
     -- Como isso pode ser feito? -- perguntou Vip, cortando o silncio
na linha.
     Agora era como se o jri tivesse dando a oportunidade do ru se
defender das acusaes contra ele. Sua absolvio passou ento a
depender somente dele. Teria que convencer o "grande juiz".
     -- Marcamos um encontro onde poderemos fazer a troca. Fazendo
assim, tomamos ento nosso curso, longe da sua vista e voc fica com a
cidade inteira sem se preocupar comigo. Garanto, Vip, estaremos longe
quando voc acabar de contar at dez.
     A linha ficou muda por um momento.
     -- E se eu no quiser fazer do seu jeito?
     -- Sei que voc no far isso -- mentiu Carlos, torcendo para que
no fizesse. -- Voc quer o que tenho tanto quanto eu quero o que voc
tem, e esse  o meio mais fcil e rpido para acabarmos com toda essa
estria de uma vez por todas.

                                &&&

    Depois de desligar o telefone, Vip olhou para Cludio Chart, um
homem de quarenta e poucos anos, cabelos cor-de-fogo de barba bem
aparada. Ele estava  direita de Vip, com um fone de udio nos ouvidos
e a mo sobre um gravador ligado ao telefone o qual seu chefe havia
acabado de falar.
    Cludio havia feito parte de uma equipe da polcia internacional.
Especialista e tcnico em segurana e vigilncia, fra contratado por Vip
no auge de sua carreira ao lado da lei, passando a fazer parte do "outro


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                                              Transformao - Naasom A. Sousa



lado" da sociedade quando a quadrilha estava comeando a estender
sua teias e dominar o mundo do crime organizado na cidade de Melmar.
O trabalho de agora no era muito diferente em relao ao anterior, mas
cinco salrios a mais compensava qualquer coisa. Cludio Chart que o
dissesse. No ltimo perodo de frias tinha viajado at a Itlia e provado
as deliciosas comidas napolitanas e j tinha em mente o local perfeito
para o prximo descanso: Barcelona, Espanha. Era um sonho antigo.
     Nada mal para algum que no podia ter um descanso decente naquela
droga de polcia.
     Ele olhou para Vip com um sorriso nos lbios e meneou a cabea,
satisfeito com seu prprio trabalho.
     -- Peguei-o -- comunicou Cludio.
     Um pouco acima do gravador havia um aparelho com uma tela de
cristal lquido, onde um nmero e endereo se destacavam.

         741-3792 # TP
         BIAL SEVERO / DORA CARVALHO


     Vip inclinou-se para verificar o endereo e abriu os lbios num
sorriso de contentamento.
     Carlos sabia que usavam o gravador junto ao rastreador.
Certamente sabia tambm o que estava fazendo, pensou Vip. Ele no
ficaria ali por perto depois que desligasse. H essa hora j deveria estar a
um quilmetro de distncia.
     -- Quer que a gente v atrs dele, chefe? -- voluntariou-se Bino, de
p junto  mesa.
     Vip coou queixo suavemente e respondeu:
     -- No, se eu quisesse j o teria mandado -- fez uma pausa,
saboreando a frustrao de Bino. Ento acrescentou: -- Carlos j no
estaria l quando vocs chegassem. No precisamos de nenhum esforo
para procur-lo, se vamos encontr-lo mais tarde. -- apertou a tecla do
gravador e a fita correu num rpido movimento retrgrado e parou num
estalido. Quando a outra tecla ao lado foi pressionada. A fita comeou a
falar:
     -- ...e esse  o meio mais fcil e rpido para acabarmos com toda essa
estria de uma vez por todas.
     -- Muito bem, voc me convenceu. Onde podemos nos encontrar e fazer a
troca?
     Carlos respondera quase que instantaneamente:



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                                            Transformao - Naasom A. Sousa



      -- No mesmo lugar onde tudo isso comeou: na Clintel com a Treze, e
Vip... nada de truques, ou ento...
      A reproduo foi subitamente interrompida ao toque feroz e pesado
no boto stop.
      Lucas,  esquerda, arriscou uma pergunta:
      -- Voc... ir mesmo fazer a troca?
      -- O que voc acha? -- respondeu Vip, com outra indagao.
      -- Diante de uma situao normal, eu diria com a maior convico
que no, voc no iria fazer qualquer troca. Mas, diante da situao
atual, estando todos os seus planos e reputao em jogo, eu fico sem
saber o que dizer.
      Lucas estava certo e Vip se admirava pela sua firmeza e convico.
      Havia anos que Lucas Givaldi tinha entrado para a quadrilha, e ao
longo desses anos tinha se mostrado confivel e da mais alta
competncia -- at o dia em que Carlos o passara para trs na noite em
que Caio e Pablo morreram. Lucas era um homem de corpo atltico,
estatura mediana, trinta e poucos anos, cabelos castanhos com o
comprimento que vinha at o ombro, mas sempre se encontrava bem
penteado. Seus penetrantes olhos azuis faziam qualquer um estremecer
diante de tanta frieza que deles era transmitido.
      Vip gostara dele no momento em que o viu em ao pela TV,
roubando um banco no centro da cidade.
      A cmera estava trmula nas mos do cmera-man e a imagem que
se vira fra a de policiais atirando; balas explodindo num som alarmante
nas chapas de ao dos carros-patrula parados em frente ao banco que
serviam de escudo para os tiras; pessoas correndo para todos os lados,
histricas. O que se seguira fra Lucas saindo do banco com dois refns
como escudo, duas armas pesadas nas mos apontando para cada um
deles. Os disparos foram cessados subitamente. Lucas gritara uma
ordem para os tiras e algum tempo depois, um carro vermelho metlico
parou abruptamente, as rodas fazendo barulho ao se arrastarem no cho
 sua frente. Soltara um refm -- um homem de meia idade
apresentando com cabelos grisalhos nas tmporas -- e entrara no carro
com o outro -- uma mulher jovem na casa dos trinta.
      A imagem oscilante exibiu o carro disparando, deixando apenas
uma camada grossa de fumaa que sara dos pneus traseiros
espalhando-se pelo ar.
      Ao contemplar o que acontecia pela TV, Vip ficara arrebatado.
Queria estar l naquele exato momento. S por acompanhar o assalto



                                   151
                                            Transformao - Naasom A. Sousa



pela TV, Vip estivera eufrico, mas queria algo concreto, no apenas
uma imagem numa tela de vidro.
     O carro em que Lucas estivera j se encontrara distante quando os
policiais entraram em suas viaturas e aceleraram atrs dele. A imagem
fra cortada e a exibida em seguida fra as ruas passando velozmente
pela janela do carro de reportagem. Aps alguns minutos, depois que o
reprter repetira todos os acontecimentos at ali pela dcima vez, a
cmera mostrara uma dezena de carros-patrulha paradas adiante. O
carro de reportagem -- uma van Chevrolet -- parara e o reprter junto
com cmera-man saltaram novamente para a rua e seguiram os policiais
numa corrida frentica, que fra cessar no final de um beco de luz
aparentemente escassa -- mesmo estando o sol a iluminar quele dia. O
carro vermelho metlico estava l; a jovem mulher tambm, apesar de
imensamente conturbada. A cmera varrera toda a rea com sua lente,
mas nem ela nem os policiais encontraram Lucas. Ele escapara sem
deixar quaisquer pistas.
     Vip achara-o o mximo.
     Alguns dias depois, Vip falara com seus contatos e no demorara
muito para que encontrassem Lucas. Sua conversa havia sido "curta e
grossa", convencendo-o imediatamente a entrar para a quadrilha.
      medida que os anos se passaram, Lucas se mostrou prestativo e
extremamente confivel, e isso influenciou muito em seu "crescimento"
prematuro dentro da quadrilha -- chegando, por fim, ao cargo de
subchefe em todas as atividades que a quadrilha exercia, e isso inclua
nas decises.
     Vip teve que sorrir por um momento breve. Agora Lucas o conhecia
como ningum, assim como nenhum outro conhecia Lucas melhor do
que Vip. Eram como irmos. Vip, o irmo mais velho, que s vezes tinha
que repreender o mais moo. Mas agora no havia necessidade para
repreenso e sim de uma declarao de admirao. Mas o ego de Vip
no lhe permitia fazer tal coisa.
     -- E ento -- tornou a inquirir Lucas --, ir fazer ou o qu?
     Vip fitou-o nos olhos e sorriu.
     -- Voc me conhece melhor do que imaginei, Lucas -- disse,
meneando a cabea. -- Certssimo. Numa situao comum, em que no
estivesse em jogo a mim e a organizao, e sim outra coisa, por exemplo:
uma mercadoria; eu no pensaria duas vezes. Mataria quem quer que
fosse num estalar de dedos. -- Vip respirou, fazendo um zunido quando
o ar saiu pelas suas narinas. -- Mas esse jogo que Carlos est fazendo 
algo muito delicado, algo perigoso para mim, voc e toda organizao.


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A sim, temos que ter um cuidado todo especial com esta situao. --
desta vez olhou para todos  mesa. -- Porm, digo-lhes que, nem esta
delicada situao salvar Carlos de uma morte dolorosa. Ningum
banca o espertinho comigo e sai ileso. Ele sabe de mais a nosso respeito.
No que eu no pense que ele no cumprir sua parte no acordo: sumir
de vista para sempre e no abrir a boca pra ningum, pois me pareceu
bem convincente ao me prometer.
     Lucas interrompeu-o cautelosamente:
     -- Mesmo assim, no acho de todo seguro deix-lo ir, pois mesmo
que ele nunca mais aparea, digamos que at mesmo saia da cidade, ser
que conseguir se esconder da polcia? Ele  esperto, e pelo pouco que o
conheo, diria que o nosso amigo , nada mais nada menos, que um
autntico vingador. Ento...
     Lucas deixou que o ento surtisse o efeito desejado na mente de Vip
e o clima que surgiu mecanicamente foi de total apreenso em todo o
recinto. At que Vip concluiu:
     -- Voc tem razo. Se os tiras pegarem-no, ele no se calar. Falar
e far tudo para acabar conosco, j que para ele no restar, se isso
acontecer, mais nenhuma esperana, seno a cela de uma priso para
passar o resto da sua vida intil. -- Vip petrificou o olhar, numa
expresso intrigante e sentenciou: --  por essa e outras que Carlos no
estar mais vivo amanh de manh.

                                    &&&

      Aps ter desligado o telefone, Carlos ficara imvel um instante,
relembrando partes cruciais da proposta, a qual achava ter conseguido
xito.
      -- Muito bem, voc me convenceu. Onde podemos nos encontrar e fazer a
troca?
      -- No mesmo lugar onde tudo isso comeou: na Clintel com a Treze, e
Vip... nada de truques, ou ento voc no ter outra chance para salvar o seu
grande imprio. Sei que irei perder, mas voc perder muitssimo mais que eu.
      Ao se lembrar daquelas palavras, Carlos imaginou o quanto mentira
ao proferi-las.
      -- Fique tranqilo, meu rapaz. Se voc fizer direito a sua parte, no haver
com o que se preocupar. Farei a minha direitinho.
      -- timo. Nos veremos l.
      -- Bom. Eu...



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     Carlos desligara o telefone mais uma vez na cara de Vip. Duas
vezes em menos de um dia. Isso acabaria virando rotina, mas Carlos no
receava por isso. Queria agora desesperadamente cumprir sua parte no
acordo, obter o que queria e desaparecer da face de Vip e da vista de
todos, principalmente da polcia.
     Olhou pelo canto dos olhos para Alan em silncio ao seu lado. O
que faria com aquele homem? No o conhecia direito, mas ele parecia
conhec-lo muito bem. Ento, como um relmpago atingindo-o, um
pensamento invadiu sua mente: Seria ele algum comparsa da organizao?
Estaria desempenhando um papel fundamental num plano para aniquil-lo?
Perguntas nesse sentido explodiram como torpedos nos pensamentos de
Carlos. Mas uma sensao de confiana tomou-o por completo
novamente quando, desta vez, deparou-se com o olhar daquele estranho
homem. Ele no inspirava nenhuma maldade ou mentira, mas sim paz e
serenidade. Mas como? Como algum assim poderia estar metido
naquilo tudo? Algemado a um homem que s fizera o mal e trouxera
desgraa para tanta gente? Os reflexos da mente de Carlos ou uma
"fora desconhecida" fizeram-no tornar a erguer a guarda a caminhar
rumo ao pensamento mais bvio: Aquele homem estava tentando
engan-lo. Mas no teria chance para isso. Carlos iria dar um jeito nele.
No agora. Estava com a mente ocupada demais no momento com a
troca e no queria acumular mais preocupaes com qualquer outra
coisa.
     Primeiro pretendia colocar em prtica um plano que iria pegar Vip
de surpresa se no cumprisse sua parte no acordo. Fra trado uma vez,
mas no seria tolo para deixar que isso acontecesse novamente, talvez
aquele homem que se dizia pastor, poderia ser includo no plano. Isso
poderia se tornar benfico. Primeiro -- se fosse o caso -- acabaria de
uma vez por todas com Vip e sua pose imperialista, e ento, logo a
seguir, seria a vez de Alan Xavier, o "maldito" que de dizia servo de
Deus.

                                &&&

      Melina estava entusiasmada naquela manh para fazer um novo
tipo de prato que aprendera na TV no dia anterior: uma lasanha 
italiana com risoto. Jaime, Jair e Jssica iriam amar, pois gostavam muito
de frango e mais ainda de lasanha.
      Estava pousando outra camada de macarro em cima do presunto
cozido dentro de uma tigela retangular de vidro transparente, quase no


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                                          Transformao - Naasom A. Sousa



ponto certo para ser encaminhado ao forno j pr-aquecido, quando
Melina sentiu um sbito impulso de orar. Orar por Alan. Sem vacilar,
correu at o quarto, ajoelhou-se  beira da cama e ps-se a clamar ao
Senhor, suplicando pela vida de seu marido.




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                                            Transformao - Naasom A. Sousa




                                         Captulo 13



O    clima parecia mais obscuro e lgubre do que antes. O assassinato de
    Caio era mais um lembrete escrito a sangue de que ningum podia
interferir nos planos da quadrilha. Mais uma vtima das muitas que
pereceram ao longo dos anos. Quantos mais viriam a perecer nas mos
desses crpulas? Essa era a pergunta que corroia o ntimo de cada
policial de servio no beco Assuno naquele momento. O medo
misturava-se com a raiva e frustrao de ver mais um parceiro sem vida,
morto pelo inimigo. Um inimigo invisvel, intocvel.
     O corpo de Caio foi envolto em um saco plstico preto e posto por
trs paramdicos numa maca metlica que comeou a ser empurrada na
direo de um furgo branco com faixas vermelhas. Axel observou toda
a rea nas proximidades do beco. O quarteiro estava infestado por vans
das emissoras locais e pessoas curiosas  procura de notcias comoventes
para contar  famlia quando chegasse em casa. O pessoal da segurana
estavam bem ocupados com os reprteres e fotgrafos clicando
furiosamente suas mquinas, fazendo seus flashes dispararem num
claro ofuscante, famintos por imagens, declaraes e respostas s suas
perguntas, no ligando de forma alguma para as fitas que isolavam a
rea do crime.
     Axel viu o corpo de Caio sendo colocado no interior do veculo
branco avermelhado e sumindo l dentro quando as portas traseiras
foram fechadas e trancadas. Sentiu um pequeno sentimento de perda.


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                                            Transformao - Naasom A. Sousa



No sabia porqu -- ou melhor, sabia sim -- mais um policial havia sido
assassinado, queimado talvez vivo por traficantes frios e calculistas que
no faziam outras coisas seno matar e destruir as esperanas da
populao mundial.
     Caio no era muito conhecido por Axel. Desde que chegara 
diviso policial de Melmar, Caio passara mais tempo com Pablo (este
muito bem conhecido por Axel) do que com toda e qualquer pessoa na
Central de Polcia. Pelo que j ouvira falar, Caio viera da diviso de
entorpecentes da cidade de So Paulo, sendo algumas vezes
condecorado por l. Fizera muitas apreenses de carregamentos de
txicos na capital paulista e dera continuidade ao seu trabalho ao chegar
em Melmar, juntando-se quase que imediatamente com Pablo no
combate  Quadrilha do Vip -- que j estava se tornando, na poca, uma
potncia do narcotrfico na cidade. Pelo que Axel sabia, Caio no tinha
parentes. Seus pais tinham morrido num acidente automobilstico h
cinco anos atrs e ele era filho nico. Um solitrio no mundo, pensou
Axel, pois no havia sequer uma namorada que pudesse ser avisada de
sua morte e chorar por ele.
     Axel achou melhor afastar esse pensamento.
     Concentrou-se num homem vestido dentro de um uniforme
esbranquiado ao lado do furgo onde colocaram o saco preto com o
corpo de Caio. Axel o reconheceu. Era o legista. Estava conversando com
um policial negro e de porte extremamente atltico, chamado Antnio
Gonzaga -- tambm da diviso de narcticos, que, por acaso, seu irmo
que tambm fora policial, Jos Nogueira, havia sido, assim como Caio,
assassinado pela Quadrilha do Vip. Axel permaneceu a observ-los por
alguns minutos pensando como Gonzaga estaria se sentindo, at que
este apontou em sua direo. O legista acompanhou o movimento do
homem e olhou para Axel.
     O legista caminhou at ele e estendeu a mo.
     -- Sou o legista encarregado, ngelo Tellez.
     Axel j o conhecia. Pegou-lhe a mo e apertou-a num cumprimento,
logo aps se identificou:
     -- Agente Axel Brendel.
     O Dr. Tellez assentiu numa cortesia. Ele no o conhecia e no fazia
qualquer questo em conhec-lo.
     -- Gonzaga me informou que voc est sendo o encarregado deste
caso.
     -- Acho que ele no mentiu.
     -- Conhecia a vtima, o agente Dreammy?


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                                            Transformao - Naasom A. Sousa



      -- No muito...
      -- Preciso fazer a autpsia, fazer o reconhecimento pela arcada
dentria. Tem algum parente que possa dar permisso para que eu
possa fazer isso?
      Axel suspirou em desapontamento em relao quela pergunta,
como se ele fosse o prprio Caio.
      -- No. Ele no tinha nenhum parente. Acho que a nica pessoa
que ele tinha era Pablo. Mas este no poder fazer coisa alguma... para
sempre -- Axel forou-se a pensar que isso era mentira.
      ngelo Tellez estava assentindo com a cabea novamente.
      -- , eu vi no noticirio. Todos sentiremos falta dele.
      Axel perguntou-se o quanto Pablo era conhecido na polcia de
Melmar. Um timo policial; um timo amigo.
      Os dois ficaram sem palavras, como se tivesse sido estabelecido um
minuto de silncio.
      -- Preciso de uma autorizao para fazer a autpsia -- disse o Dr.
Tellez, por fim.
      -- Eu consigo uma para voc -- tranqilizou Axel, tirando o olhar
de cima do legista calvo e de aparncia cansada e observou a rua cada
vez mais empestada de curiosos. -- Pode fazer o que achar necessrio.
      -- Certo -- ngelo Tellez tornou a estender a mo, despedindo-se,
e Axel tomou-a na sua, sacudindo-a firmemente. Foi uma conversa e
fria, mas que teria de acontecer, pensaram os dois.
      Alguns segundos depois, o legista estava dentro do furgo,
dirigindo-se para o necrotrio, emitindo a estridente sirene. Axel
observou os fotgrafos aglomerados na rua, correndo ao lado do
veculo, tentando a sorte numa foto nua e crua do corpo carbonizado de
Caio, que com certeza teria seu lugar reservado na primeira pgina do
jornal para quem trabalhavam. Ento seus olhos se depararam com a
figura ligeiramente polida e visivelmente abatida que, encostada numa
van de reportagem, parecia isolada em seu mundo particular. At que
reconheceu que era Caroline. Caminhou at ela e ps-se ao seu lado. A
reprter somente se deu conta da presena de Axel quando por este foi
tocada no ombro. Despertou com um susto.
      -- Oh, Axel... Desculpe-me, eu...
      -- No tem nada com o que se preocupar -- sorriu ele,
singelamente. -- Como voc est?
      Ela receou em responder.
      -- Humm... estou bem... eu acho.
      -- Veio do NR?


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     No houve nenhuma resposta por meio de palavras, apenas um
meneio de cabea.
     -- Como ele est? -- perguntou Axel em voz baixa.
     Caroline engoliu seco e forou-se a dizer:
     -- Na mesma. Pelo menos... pelo menos no... no est... morto.
     Axel tocou-lhe gentilmente o brao, tentando confort-la. Caroline
enxugou uma lgrima que teimou em deslizar por seu rosto e tentou
colocar um tom firme na voz.
     -- Ele vai ficar bem. Tenho certeza.
     -- Pablo  duro. Vai passar por essa.
     Caroline forou um sorriso, balanando afirmativamente a cabea,
esperanosa.
     -- Mas... ento -- disse ela --, vai me dar uma entrevista exclusiva
ou no?
     -- Eu...
     Ela interrompeu-o de forma ameaadora.
     -- Se voc no me conceder essa entrevista, no serei mais sua
amiga, agente Axel -- agora, o sorriso foi uma tentativa de descontrao.
     Os dentes brancos de Axel tambm foram mostrados num alegre
sorriso. Levantou a mo numa completa rendio.
     -- Oh, no! Est bem! Est bem!
     -- Hoje  noite, ento?
     -- Humm... no. Hoje  noite no vai dar. J tenho um
compromisso.
     Caroline estreitou os olhos.
     -- J sei. Tina Brendel e seus deliciosos pratos, no ?
     -- No...  outro assunto... l na central.
     A reprter pensou por um momento.
     -- Quando, ento?
     Axel levou as mos  cabea.
     -- ... d-me o nmero do seu pager e assim que me derem uma
folga, entro em contato com voc.
     -- Tudo bem -- concordou Caroline. Pegou sua esferogrfica e
rabiscou num pedao de papel. Entregou ao agente.
     Axel pegou o pedao de papel e guardou-o em seu bolso. Voltou-se
atentamente para a reprter  sua frente e estudou sua fisionomia.
Mesmo esbanjando sua irrefutvel beleza, Caroline deixava escapar um
ar desgracioso e melanclico que podia ser notado a metros de distncia.
Por um instante, Axel teve a impresso de que Caroline tremia. Por sorte
ela no fumava. Do contrrio, poderia ela agora estar, pelo menos, com


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trs cigarros ao mesmo tempo na boca. Numa busca modesta de alcana
a amiga, Axel ps as mos no ombro da reprter e sacudiu-a levemente.
     -- Ligo pra voc assim que eu puder -- disse ele.
     Ela sorriu polidamente.
     -- Vou ficar esperando. Espero que te liberem o mais depressa
possvel.
     -- Tambm espero -- Axel alisou o queixo e arriscou-se a cutucar a
ferida. -- Voc... ir voltar ao NR?
     O sorriso desapareceu lentamente dos lbios de Caroline.
     -- Irei, mas no agora. Estou indo  redao. Fui informada a pouco
que os dois fugitivos invadiram uma casa perto do limite da cidade, 
leste, e roubaram um veculo que foi abandonado logo a seguir. Helena
deve estar l neste momento entrevistando o proprietrio e j estar de
volta  central de jornalismo do Canal Sete quando eu chegar l. Irei ver a
fita e conversar com ela sobre o que aconteceu por l e, quem sabe, eu
possa encontrar ou descobrir alguma coisa no ar.
     -- timo. Assim no irei ficar igual a um acusado no banco dos
rus, apenas respondendo suas perguntas como Pablo... -- Axel
percebeu que entrara em territrio proibido outra vez, sem querer.
Tentou passar por cima das ltimas palavras rapidamente para que
Caroline no pudesse ter chance de ficar a se remoer por causa delas. --
Agora irei poder encost-la na parede tambm; fazer um segundo
tempo; a vez do outro lado da moeda. Eu quem irei fazer as perguntas e
voc somente ir responde-las. -- Ele balanou o cenho para frente e
para trs, com um ar de mero contentamento.
     -- ... Acho que depois de hoje, teremos muitas coisas do qual
poderemos conversar -- disse a reprter, posicionando melhor sua bolsa
no ombro esguio.
     O silncio pairou no ar, pois os dois no souberam mais o que dizer,
no tinham mais palavras para se expressarem um para o outro. Ento,
uma grossa voz foi ouvida por detrs de Axel, chamando-o. Soa o gongo,
pensou ele. Voltou-se na direo da voz e enxergou Fernando Vern,
detetive do departamento de homicdios, gesticulando para que
caminhasse at ele. Axel olhou para Caroline novamente. No gostaria
de deix-la naquele estado deprimente. Pensara por um momento em ir
com ela  redao do Canal Sete e fazer-lhe companhia um pouco mais.
Sabia que a amiga necessitava de todo apoio que pudessem dar, e ele
queria fazer mais do que simplesmente apoi-la. Queria confort-la,
queria de alguma forma amenizar sua visvel dor. Na realidade, queria



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ter o poder de tirar Pablo do coma e entreg-lo a Caroline, mas isso lhe
era impossvel. Assim, a frustrao tomou conta de Axel.
     Pelo menos alguma coisa do passado ainda vive em mim: bondade e
compaixo, pensou o agente negro.
     -- Tenho que ir agora -- despediu-se.
     -- Certo -- concordou ela, como se fosse a nica coisa a se dizer.
     Axel virou-se e caminhou na direo de Fernando Vern, mas de
repente voltou-se para a reprter outra vez.
     -- Carol,... acho que depois daqui irei ter um tempo livre. Ento,
estou pensando... se no seria boa idia eu ir  redao tambm, ajudar
voc, a outra reprter e, quem sabe, a mim mesmo.
     Caroline sorriu.
     -- Claro! Vai ser bom termos voc l.
     Ele meneou a cabea, contente.
     -- Ento esperem por mim -- virou-se e se juntou ao detetive Vern.

                               &&&

     -- Tomara que no nos recebam  bala -- torceu Carlos.
     Estavam em frente a um pequeno edifcio alguns quilmetros da
cabina telefnica de onde tinham tratado de negcios com Vip. Parecia
mais um sinistro amontoado de concreto encardido e velho. Alan no
simpatizou com o lugar no primeiro instante em que o viu. Era uma
estrutura em evidncia no meio de muitas outras mais, por no ser
rodeada por muros e por estar totalmente desmembrada dos demais
prdios e casas da rua, e sim ladeado por becos que se enegreciam ao
fundo. Pela frente, visualizaram uma grande porta rolante de ferro,
obviamente para a entrada de automveis -- uma garagem. Trs metros
 direita da grande entrada de veculos, existia uma porta menor: um
porto igualmente de ferro, mas esta feita com chapas grossas e  altura
dos olhos notava-se uma escotilha, que ao longe, dava-se a impresso de
estar entreaberta.
     Carlos olhos pelo canto dos olhos para Alan. Ele estava mais
prximo do que devia, assim como por todo o percurso at ali. Sua
presena era perceptvel e por vezes irritante, principalmente quando se
esbarravam com o ombro um no outro ao andarem. Carlos tentava no o
encarar, mas a tentao de olhar nos olhos daquele homem enganador era
mais forte que ele, e assim, de vez em quando se voltava para fitar os
olhos do "falso crente".



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     Alan tentava agora se manter tranqilo. A caminho dali, tinha
caminhado junto de Carlos e percebera que ele no gostara quando em
alguns momentos, esbarrava com o ombro no dele de to prximos que
ficavam, a fim de que ningum avistasse a algema nos pulsos dos dois.
     Agora, se concentrava no velho edifcio e limitava-se a pensar no
que se encontrava alm daquelas paredes de concreto encardidas e
daqueles portes de ferro. Com a "grande" frase de confiana que Carlos
proferira: Tomara que no nos recebam  bala, Alan concluiu que a resposta
para suas indagaes mentais era: encrenca.
     Carlos ps-se a caminhar na direo do edifcio, atravessando a rua,
puxando Alan pelo brao. Este caminhava com o olhar variante,
revirando de um lado para o outro, observando os pouco transeuntes
que haviam nas caladas, enquanto Carlos mantinha os olhos vidrados
no porto pequeno do prdio, mais diretamente para a fresta que a
escotilha exibia.
     Pararam em frente  entrada menor, e a tenso que percorria os
corpos dos dois fugitivos tornou-se mais intensa. Carlos levou a mo
livre ao porto e bateu trs vezes, tirando dele um som que ecoou por
um breve instante. Nada aconteceu l dentro, e ento bateu novamente,
desta vez quatro batidas. Aos poucos se fez ouvir passos apressados
dentro do recinto, um som que parecia distante, mas que foi se tornando
mais audvel, mais forte, at que, por fim, parou. A escotilha foi aberta
totalmente e um par de olhos arregalados e nervosos apareceram na
fresta do porto de ferro. Eram de um tom azul, mas estavam um tanto
avermelhados.
     -- Quem so vocs? -- inquiriu a pessoa por detrs do porto. Sua
voz era grossa, rouca, agressiva e irritante aos ouvidos de Carlos.
     -- Meu nome  Carlos Lacerda, eu...
     -- No conheo nenhum Lacerda. Caiam fora -- falou o dono dos
olhos azuis-avermelhados, que a seguir, retirou-os da escotilha.
     Carlos deu uma rpida olhada para Alan e adiantou-se, bateu trs
vezes no pequeno porto e respirou profundamente.
     O par de olhos apareceram outra vez e, antes que pudesse falar
alguma coisa, Carlos apressou-se em dizer:
     -- Sou Carlos, amigo de Nick! Tenho que falar com ele. 
importante -- ele tentou pensar depressa em algo mais convincente. --
Eu j trabalhei aqui. Acho que voc  novato e com certeza no me
conhece. Eu entendo que voc est cumprindo ordens de Nick... eu
tambm j fiz isso -- sua cabea estava um turbilho e dolorida e no
estava pronta para pensar agora. Resolveu ser mais direto. Olhou para


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seu palet Boss cinza, que agora parecia mais um marrom e sentiu o
odor forte da transpirao.
     Voltou-se para os nervosos olhos azuis que ainda se mostravam na
escotilha e fitou-os com uma expresso diferente da que apresentara
minutos atrs, uma expresso que mostrava sua impacincia e fria.
     -- Olhe aqui, seu idiota de olhos azuis, veja o meu palet! Estou
com essa droga de palet  mais ou menos doze horas! Estou cansado,
ferido, suei da cabea aos ps e agora estou fedendo... -- Carlos notou
que os olhos continuavam inexpressivos. -- Abra logo a droga desse
porto!! -- Bradou.
     Alan olhou assustado para os lados, receando que o descontrole de
Carlos chamasse a ateno de terceiros ou at mesmo da polcia, mas
felizmente constatou que as pessoas que andavam pela rua no deram
crdito para seu histerismo.
     O par de olhos recolheram-se outra vez sem dizer uma palavra.
Carlos praguejou e socou o porto de chapas de ferro. Virou-se para
Alan.
     -- Droga! -- passou a mo pelo cabelo desordenado. -- Quer saber?
Voc est sendo um maldito p frio!  isso o que voc est sendo desde
que se meteu na minha vida! -- disse, apontando o dedo indicador para
o rosto de Alan. Este, no fez qualquer movimento ou ao menos mostrou
algum resqucio de indignao.
     De repente, pde-se ouvir um estalo por detrs de Carlos, que se
virou rapidamente, seguido pelos olhos de Alan. O porto comeou a ser
aberto, at que escancarado, por fim. Uma figura humana apareceu
saindo das sombras do recinto e Carlos reconheceu-o imediatamente.
Nick parecia estar com a cara mais enrugada -- o que no era novidade,
pois aparentava que, a cada ms, uma ruga teimava em se apoderar de
uma parte do rosto dele. Nick sempre usava rabo-de-cavalo e agora se
podia ver que no perdera o costume, assim como no perdera o fascnio
pelos ornamentos banhados a ouro pendurados no pescoo e presos ao
pulso.
     Foi Nick quem falou primeiro.
     -- Ei, Carlos,  voc mesmo! Cara, quando o Drio falou que voc
estava aqui fora, pensei que era brincadeira, mas a pensei: "Mas Drio
no conhece o Carlos", ento...
     -- At que enfim aquele miservel se mexeu.
     Nick sorriu. Caminhou at Carlos e apertou-lhe a mo.
     -- , vejo que voc conheceu Drio intimamente. Mas, cara, h
quanto tempo, hein? Dois anos?


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     -- Isso mesmo -- sorriu Carlos, desengonado.
     Alan adiantou-se e esticou a mo.
     -- Oi, meu nome  Alan. Alan Xavier.
     O brao de Nick no se moveu, muito menos sua mo levitou 
frente para um cumprimento. Apenas seus olhos cumprimentaram-no,
mas no com expresso de cordialidade e, sim de indagao.
     -- Quem  esse?
     Carlos levou os olhos para Alan e depois para Nick novamente.
     -- Este... este ... Alan Xavier -- notou no olhar de Nick as
palavras: Este  Alan Xavier? Nunca ouvi falar! Ento tentou clarear a
situao: -- Ele  meu pastor. -- deu de ombros e ergueu o sobrolho,
num movimento cmico. Caminhou para dentro do pequeno prdio
encardido, puxando Alan atrs de si. Passou por Nick e deu-lhe um
pequeno tapa no ombro, deixando-o com a conhecida pulga atrs da
orelha.

                               &&&

     Tudo estava diferente da ltima vez em que estivera ali h dois
anos atrs. Carlos girava em seu lugar, contemplando todos os metros
quadrados do recinto. Havia ali seis carros, e entre eles apenas dois
aparentavam ser do ano. Cinco pessoas, fora Nick, trabalhavam nos
carros. H dois anos atrs, o lugar encontrava-se repleto de carros --
vinte, no mnimo --, e desses, muitas vezes, a metade eram novos em
folha. E ainda, muito diferente de agora, onde apenas seis pessoas
trabalhavam, pelo ao menos houvera o dobro no passado.
     Carlos olhou para as ferramentas e equipamentos; velhos e gastos,
quase todos em ms condies de uso, assim como tambm como toda
estrutura interior do pequeno prdio, outrora em plenas condies.
     Nick prestara ateno a todos os movimentos de Carlos e disse,
acendendo um cigarro:
     -- As coisas no continuaram andando muito bem depois que voc
saiu, meu chapa. Alguns caras de outro desmanche vieram aqui e
quebraram quase tudo. Fiquei no total prejuzo -- tragou uma boa
quantidade de fumaa e expeliu-a em seguida. -- Mas lhe digo uma
coisa: os caras que fizeram isso no podem fazer mais nada contra
ningum, se  que me entende. -- Nick se entusiasmou numa
gargalhada que empestou a oficina num eco assustador.
     Carlos ficou na defensiva. Conhecia Nick muito bem para entender
que ele matara ou mandara matar os homens que lhe deram o prejuzo


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na oficina de desmanche. Nick no era alto nem atltico, mas sua fama
de vingativo e impiedoso o fazia uma ameaa e Carlos conhecera esse
lado de Nick ao longo de sua carreira como ladro de Carros.
     Na oficina de Nick Gradinno existiam regras obrigatrias que
deveriam ser cumpridas ao p da letra pelos funcionrios, que em troca,
recebiam timos salrios para viverem, se divertirem ou fazerem o que
bem entendessem. Um dia, Clio Saral, um dos funcionrios -- ladro
de automveis -- foi desmascarado por Nick. Saral estava trabalhando
tambm para Alozio Moratti -- um concorrente de Nick, e isso era
contra as regras.
     Nunca trabalhe para mi e para outra pessoa ao mesmo tempo. Eu no o
perdoarei se fizer isso, entendeu? Isso  uma das regras bsicas -- alertara
Nick no primeiro dia de Carlos como funcionrio.
     Algumas semanas depois da descoberta, Clio Saral no apareceu
mais na oficina e nunca mais se ouviu falar nele. Este fra apenas um
dos casos com que Carlos convivera durante o perodo em que
trabalhara na oficina.
     -- Estou economizando o mximo para me erguer de novo -- Nick
deu uma nova tragada em seu cigarro. -- Como voc est vendo, no
estamos no auge dos negcios, mas pelo menos estamos em
funcionamento. Voc acredita que estou agora apenas com dois
pescadores?
     Pescadores eram os ladres de Carros que os traziam  oficina, para
o desmanche. Carlos ficou espantado. Em sua poca, sete pescadores
travavam uma batalha acirrada para ver quem roubava mais
automveis. Faziam um jogo onde um carro comum valia um ponto, e
um carro do ano trs pontos. Aquele que acumulasse o maior nmero de
pontos, no final de cada semana, passava o final de semana onde
quisesse por conta dos perdedores. Carlos perdera a conta de quantos
fins de semana passara em grandes e luxuosos hotis  beira mar ou em
cruzeiros particulares em pleno oceano ao lado de...
     -- Mas estou certo de que vou me erguer e voltar a ser o que era
antes -- Nick tirou o cigarro da boca, e com o dedo, fez com que as
cinzas cassem no cho. -- Ei! Diga-me, Carlos, a que devo essa apario
assim... de repente?
     -- Nick, eu...
     As mos de Nick fizeram gestos apressados para que Carlos no
falasse, e ento o interrompeu:




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     -- J sei! Voc que voltar s origens, no ? Filho da me! No
conseguiu ficar longe de toda movimentao, ao e adrenalina que isso
aqui tudo proporciona!
     -- Nick...
     -- Eu sabia! Soube desde que vi voc...
     -- Nick!! -- a voz alterada de Carlos junto com o eco que a oficina
criou, chamou a ateno de todos que nela trabalhavam e fez Nick calar-
se mecanicamente, fitando-o com expresso questionvel. -- No  nada
disso -- suspirou ele. -- No vim aqui pata voltar s origens...
Trabalhar novamente pra voc. Eu... -- Carlos percebeu que o nico
som no recinto era o de sua voz. Olhou para Alan, que permanecia
mudo e inexpressivo, voltou-se para baixo e ento para Nick novamente.
Tentou engolir um n imaginrio na garganta e comeou a levantar o
brao esquerdo, pondo a algema  vista.
     -- Que diabos  isso? -- indagou Nick, deixando o cigarro escapulir
da boca e cair no cho.
     -- Problemas, Nick -- informou Carlos. -- Estou com problemas, e
dos bem grandes.
     -- Estou vendo, cara -- disse o proprietrio da oficina, se
recompondo e tirando um novo cigarro do bolso da jaqueta. -- Isso
esclarece a sua fisionomia, meu chapa. Voc est um caco! -- colocou o
cigarro na boca e acendeu-o com um isqueiro de prata. -- Mas como isso
foi acontecer?
     -- Ah... isso  uma longa estria, mas s para comear, e para voc
ter uma idia do que estou passando, no meio de tudo isso... quero
dizer... no comeo de tudo isso, eu fui presenteado com esta algema que
voc est vendo.
     Nick caminhou com passos lentos at Alan e rodeou-o,
investigando-o com os olhos, da cabea aos ps.
     -- E o que faz algema com um cara como este? -- perguntou,
voltando o olhar para Carlos. -- Assim de vista, ele no parece ter nada
em comum com voc, meu chapa.
     -- E no tem.
     Alan apenas observava-os.
     -- Ento? -- Nick deu de ombros, como que dizendo que no
entendia.
     Todos puderam ouvir outro suspiro sendo expelido por Carlos, que
explicou:




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     -- No  por nada, Nick, mas ser que d para voc tirar essa droga
de algema de mim? -- ele esticou-a para Nick. -- No agento mais ficar
com isso preso ao meu brao.
     -- Claro -- Nick afastou-se at uma escrivaninha e voltou com uma
chave que nenhum dos dois homens algemados tinham visto na vida.
Ele introduziu-a na pequena fechadura da algema que prendia o pulso
de Carlos e, ao girar, a trava se abriu. Em seguida, foi a vez de Alan, e,
em um minuto, os dois estavam livres um do outro. -- Enfim, liberdade!
-- exclamou Nick.
     -- Por enquanto -- corrigiu Carlos, massageando o pulso e atraindo
os olhares de todos que estavam no recinto.
     Alan, por fim, falou:
     -- Do que voc est falando? -- sabia que o que mais irritava Carlos
era sua presena e suas palavras. O que ele dissera, pegou-o de surpresa.
     -- O que  isso, pastor! -- a expresso de Carlos era de
incredulidade. -- No  isso que voc quer? Ficar junto a mim para me
dar sermes, dizer o que devo fazer e como devo fazer...
     Nick interveio:
     -- Ei! Ento voc no estava brincando mesmo quando falou que
ele era seu pastor!
     -- No -- disse Carlos --, ele  mesmo pastor, s que no  meu.
     Nick queria mais esclarecimentos.
     -- Mas...
     -- Nick, por favor, conversaremos depois, t legal? Voc no est
sentindo esse cheiro horrvel? Ele  meu. Estou fedendo! Tudo o que
quero agora  tirar essa maldita roupa, tomar um banho e colocar uma
vestimenta decente -- Carlos aproximou-se de Nick e tocou-lhe o
ombro. -- Por favor. Depois conversamos e te conto tudo o que voc
quiser saber.
     Nick hesitou.
     -- Humm... tudo bem. Pela tua aparncia,  disso que voc est
precisando mesmo -- olhou para um dos funcionrios, um mecnico, e
fez um sinal com a cabea. -- Tico, leva ele ao banheiro. -- Voltou-se
para Carlos. -- No quarto tem uma cmoda, voc pode pegar uma
toalha e roupas limpas. Sirva-se.
     -- Obrigado -- agradeceu Carlos, e ento fitou Alan, observando
seu aspecto. Nada bom, da mesma forma que ele. Sabia que ele no
tentava demostrar -- o que s vezes conseguia -- o quanto sentia o
estresse que toda essa situao impusera-lhe. -- Pastor, depois



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trataremos dos assuntos pendentes, quero dizer, o que voc no
entendeu. Voc pode tomar seu banho depois que eu terminar.
     Alan apenas meneou a cabea.
     Carlos girou sobre os calcanhares, ficou de frente para Tico e,
seguiu-o em seguida, deixando Alan  merc do olhar especulativo de
Nick.

                                &&&

     O templo da Primeira Igreja Crist de Melmar encontrava-se agora
vazia, diferente de uma hora atrs, onde houvera uma reunio de
obreiros por volta das 10h e 30mim que no contara com a presena do
pastor Nilton Cross -- que se ausentara pelo motivo de ter que fazer
uma visita urgente a uma irm necessitada, segundo sua esposa Tatiane.
-- A reunio decorrera de forma ideal, mesmo sem Nilton para dar suas
opinies e conceitos, abrindo novas questes para serem discutidas por
todos. Os bancos foram quase todos tomados por diconos, presbteros,
auxiliares, missionrios e pastores de diversas regies da cidade, que
louvaram ao Senhor e expuseram questes para aumentar a demanda de
obreiros dispostos a pregar a palavra de Deus e melhorar a forma de
alcanar almas para o Reino.
     E o que antes estivera repleto de pessoas, agora estava despovoado.
     Tatiane Cross rompeu pela porta do templo vazio, ao lado da
tribuna, passou pelo plpito e dirigiu-se ao escritrio de Nilton. No se
demorando no interior do cubculo, saiu dele com cinco folhas de papel
sulfite numa mo e uma caneta na outra, passando novamente pelo
plpito e saindo por onde tinha entrado.
     O corredor que levava para o Centro de Auxlio da Primeira Igreja
Crist de Melmar era bem comprido, pois ao longo de sua extenso
podia-se encontrar oito salas compondo a secretaria, tesouraria e classes
da escola dominical. Tatiane atravessou todo o corredor observando que
em suas paredes amarelas existiam algumas manchas em contraste com
a cor original.
     Ao chegar no fim do mais parecia um imenso tnel, Tatiane pisou
nas pedras de concreto do Jardim Cana -- uma grande rea de
recreao para as pessoas ajudadas pelo Centro de Auxlio da igreja. Um
lugar em meio ao verde das plantas e ao cinza das estruturas de concreto
que ornamentavam o ambiente. Na opinio da Sra. Cross e dos demais
membros da congregao, aquele havia sido o melhor trabalho de
arquitetura, jardinagem e decorao que fizera junto com a equipe da


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igreja. Desenhara todas as estruturas dispersos pelo jardim: bancos,
chafariz, piso, pequenas esculturas de animais terrestres e pssaros e
ainda uma miniatura do templo. Estudara e escolhera minuciosamente
todas as plantas, rosas e flores que agora enfeitavam e alegravam o
jardim e as pessoas que nele passavam um pouco do seu tempo.
     Bete estava sentada num banco de concreto, de banho tomado, com
roupas limpas, pernas cruzadas e olhos fechados, numa concentrao
notvel. A aproximao de Tatiane a fez voltar  realidade.
     -- Oh... j voltou!
     -- Retornei rpido, por que estou ansiosa para v-la entrar em ao
-- disse a Sra. Cross, entregando as folhas de papel e a caneta nas mos
de Bete. -- No  todo dia que aparece uma poetiza por aqui.
     Um sorriso surgiu de ambas.
     -- H muito tempo que no escrevo meus poemas, e prometi a mim
mesma que... -- Bete hesitou em pronunciar as palavras seguintes, mas
no se conteve. -- Que, se encontrasse algum que me ajudasse, me
acolhesse, j que minha famlia no liga para mim, eu iria escrever um
poema para ele. Um poema especial.
     -- Humm... Entendo. Voc quer mais alguma coisa? Um caderno
para apoiar as folhas...
     -- No, obrigada -- Bete agradeceu com um sorriso singelo --, sou
acostumada a escrever sem apoio algum, no se preocupe.
     -- Bem, como voc quiser...
     Tatiane Cross foi interrompida pela campainha da entrada lateral
que dava acesso ao Jardim Cana. Ela gesticulou para a velha poetiza
com a mo um sinal para que esperasse um pouco, pois logo voltaria.
Caminhou at ficar diante de um pequeno porto de ferro fundido
pintado de verde.
     Fizeram soar a campainha novamente.
     -- J estou aqui! -- anunciou a Sra. Cross, destravando a fechadura.
     Ao abrir o porto com um rudo familiar de ferro enferrujado,
Tatiane pde ver o rosto mais que arredondado de Nilton, com seu
bigode tpico.
     -- Oi, querido! -- Tatiane presenteou o marido com um sorriso.
     -- Trouxe uma visita -- Nilton adiantou-se e quem apareceu em
seguida foi Melina Xavier, com a aparncia visivelmente abalada pela
apreenso.
     -- Melina, que surpresa boa! Vejo que teremos mais um prato na
mesa.



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                                            Transformao - Naasom A. Sousa



     -- Oh, no! No irei me demorar. Apenas acompanhei o pastor
para... -- Melina hesitou. -- ver Bete.
     Tatiane levantou o sobrolho, voltando o olhar para seu esposo e
concluindo que a Sra. Xavier j tomara conhecimento da nova hspede.
     -- Bete? -- desvencilhou-se de seu rpido transe. -- Sim, ela est
sentada bem ali. Descobri uma coisa muito boa sobre ela:  uma poetiza.
Est escrevendo um poema neste momento, e adivinhem para quem?
     Melina arriscou:
     -- Alan?
     -- Exatamente. Ela sente-se muito grata por t-la mandado para c
-- Tatiane pde ver o brilho nos olhos da jovem esposa orgulhosa.
     -- Vamos, leve-nos a ela -- pediu Nilton.
     Melina e o pastor foram guiados por Tatiane pelo vasto jardim,
passando por duas dzias de pessoas carentes acolhidas pelo programa
de auxlio -- pessoas perdidas, esquecidas, viciadas, abandonadas,
desabrigadas -- at chegarem  Bete, sentada da mesma forma de
minutos atrs e fitando entusiasticamente uma folha de papel cheia de
palavras quase ilegveis.
     -- Bete? -- chamou o pastor Cross. -- Quero que voc conhea uma
pessoa.
     A velha senhora atentou para as trs figuras  sua frente e observou
Tatiane adiantando-se com outra bonita mulher.
     -- Esta  a esposa de Alan Xavier, Melina -- a Sra. Cross voltou-se
para a Sra. Xavier. -- Melina, esta  Bete, a poetiza.
     Bete sorriu, meneando a cabea com cabelos grisalhos.
     -- Ela fala isso s porque disse que escrevi alguns poemas quando
mais jovem.
     -- O que  isso, Sra. Bete...
     Melina foi interrompida.
     -- Chame-me de Bete, filha. Apenas Bete. Estou entre amigos agora,
no estou?
     -- Pode ter certeza que est... Bete.
     Outro sorriso acompanhado com simptico abano de cabea.
     --  muito bom saber disso, Melina -- a velha abandonada baixou o
olhar para o papel em sua mo e levantou-o em seguida para a jovem
senhora, estendendo a folha de sulfite para que pegasse.
     -- Para mim?
     --  para seu marido. Quero que lhe entregue assim que o vir. Isso 
muito importante para mim.



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     Como aquela simptica senhora sentia-se feliz de estar segura
agora, pensava Melina. Como se sentia grata a Alan por mand-la para o
Centro de Auxlio da igreja, tirando-a das ruas e dando-lhe um abrigo
com conforto decente. Isso era to notvel que quando o nome de Alan
era pronunciado, os olhos da velha poetiza brilhavam. Melina sentiu-se
feliz naquele momento. O amor cristo que Alan levava consigo era algo
to maravilhoso que tal sentimento tinha que ser compartilhado com
pessoas carentes.
     Ainda olhando para Bete, Melina declarou com um sorriso que
iluminou todo o lugar:
     -- Tenho uma idia melhor, Bete. Por que voc no guarda este
poema e entrega pessoalmente para Alan quando ele voltar? Sim,
porque... -- uma sbita lembrana tocou o ntimo de Melina, deixando-
a sem palavras e pensativa. -- creio que ele ficar muito contente com
isso. -- Ela foi arrebatada para o que havia ouvido de Alan antes de
partir:
     ... Ele no me revelou se eu voltaria... ou no.
     Deus! No! Gritou ela dentro de si.

                                &&&

     O movimento era constante na oficina de Nick Gradinno. Alan
observava tudo, enquanto, sentado numa cadeira num canto isolado,
esperava o retorno de Carlos.
     Os funcionrios de Nick no falavam muito. Tratavam de fazer sua
obrigaes o quanto antes. Talvez, quanto mais trabalhavam, mais
dinheiro ganhavam, pensou Alan. Mas em compensao, o silncio era
uma coisa que no existia ali. O funileiro batia com o martelo, reparando
alguns amassados, deixando as chapas como novas; o soldador fazia seu
instrumento de trabalho zunir e cuspir fascas ao toc-lo nas peas de
automveis; o lixador fazia sua mquina deslizar ruidosamente pelos
esqueletos dos carros; enquanto o pintor deixava a pistola fungar, ao
expelir uma tinta de cada vez; e o organizador exercia sua funo
deixando peas prontas para alguma suposta reposio, sempre
gritando de um lado para o outro, perguntando e respondendo coisas.
Os tmpanos de Alam j comeavam a latejar por no estarem
acostumados com tamanho barulho.
     Atentou para Nick, ao telefone, falando alto para que a pessoa do
outro lado da linha pudesse entender alguma coisa. Diferente do
interlocutor, o dono da oficina parecia no se incomodar com o


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                                           Transformao - Naasom A. Sousa



aglomerado de altos sons que pareciam aumentar de intensidade a cada
minuto. Alan olhou para o teto do recinto e notou que era revestido com
um material idntico ao usado em estdios fonogrficos, assim como
tambm nas paredes. Concluiu que tudo aquilo era para que o som no
escapasse do lugar e pudesse ser ouvido l fora. Observou ainda a
iluminao feita por luminrias fluorescentes, presas ao teto que
ajudavam no trabalho, dando a iluminao adequada para a formao
de todo o quebra-cabea que era aquela oficina.
     Nick colocou o fone no gancho, encerrando a conversa e dirigiu-se
at Alan.
     -- Esses caras so uns afeminados! Dizem: "O barulho t muito
grande! Fala mais alto! Repita de novo, por favor, no ouvi direito"!
Parece que nunca fizeram negcio com um desmanche!
     Alan no entendeu muito do que Nick tinha dito, mas pelo pouco
que pde distinguir, e pelo seu estado alterado, achou melhor no pedir
que repetisse.

                               &&&

    No demorou muito para que Carlos voltasse  oficina, de banho
tomado e vestido com roupas limpas. Alan ausentou-se em seguida,
deixando os dois a ss.
    Tirando o excesso de gua do cabelo, Carlos disse:
    -- Tem algum lugar onde possamos ter um pouco de privacidade,
Nick? O que tenho para contar tem que ser em particular.

                               &&&

      Um quarto muito mal decorado. Era o que se podia dizer sobre o
dormitrio de Nick. O que h dois anos era um luxo, agora era quase
lixo.
      Paredes com reboco caindo, fraca iluminao, um frigobar
enferrujado, uma escrivaninha sem muitos atrativos, muitos papis
espalhados pelo cho e uma cama que gemeu quando seu dono sentou-
se sobre ela.
      -- Vejo que esse caras fizeram uma arruaa e tanto por aqui --
comentou Carlos.
      -- , fizeram mesmo -- murmurou Nick.
      Carlos suspirou e foi direto ao assunto:



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     -- O buraco em que estou metido  muito grande e feio. E no
momento me encontro  beira do pnico, lutando para manter-me em
p.
     -- Do que voc t falando, meu irmo? Como assim  beira do
pnico? Voc nunca chegou a esse ponto! Em que diabos voc t metido?
     Carlos sentou-se ao lado de Nick, fazendo a cama gemer
novamente.
     -- Nunca lhe falei nada sobre isso nas vezes em que te liguei, Nick.
Ao sair daqui, entrei para uma quadrilha, que voc j deve ter ouvido
falar: A Quadrilha Vip.
     Nick levantou-se com um pulo.
     -- Putz grila, cara! A Quadrilha Vip?!
     Com um meneio de cabea, Carlos confirmou.
     -- Pensei que fosse a melhor coisa a fazer. Uma grande organizao;
uma posio firmada nela; um timo dinheiro; enfim, tudo o que eu
precisava para garantir meu futuro.
     -- Mas ningum tem futuro algum fazendo parte de uma
organizao como essa, cara, a qualquer momento  neguinho te
passando a perna, te colocando pra baixo, e isso  s o comeo.
     -- Eu estava cego, Nick! -- replicou Carlos. -- Cego por poder,
status!
     Tudo o que Nick pde fazer foi passar as mos pelo rosto. Carlos
continuou em plena murmurao:
     -- Estava disposto a dar tudo de mim para a organizao... Eu-eu
entrei em contato com um cara chamado Lucas Givaldi, que me foi
apontado por Clber, voc o conhece. Lucas  o subchefe de toda a
quadrilha e tem bastante poder l dentro. Foi me encontrando com ele
que me tornei membro da organizao.
     Passando os dedos pela corrente de ouro presa ao pescoo, Nick
pensou em voz alta:
     -- Lucas Givaldi... acho que j ouvi esse nome em algum lugar.
     -- Ele era bem conhecido antes de entrar para a quadrilha. Roubava
grandes bancos e joalharias. Alguns noticirios filmaram ele roubando
um banco, e foi desde ento que ele passou a fazer parte da organizao.
Agora  como um fantasma. S sai s ruas para acertar e fazer negcios,
depois volta a se exilar. Num desterro luxuoso,  claro.
     -- Ento  ele que t te trazendo problemas?
     --  mais do que isso -- a voz de Carlos parecia fraca. -- Estou
sendo caado e acuado.



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     -- Por esse cara? -- espantou-se Nick. -- Voc nunca teve medo
de...
     Carlos jogou as mos para o alto, interrompendo Nick.
     -- No  s por ele!  por todos! Todo mundo deve estar atrs de
mim neste momento. Lucas junto com toda a quadrilha, a polcia, os
jornais, os caadores de recompensa, os habitantes da cidade inteira,
todos!
     Nick estava atnito.
     -- Como isso aconteceu, cara? No acredito que uma nica pessoa
esteja movendo esta maldita cidade!
     Carlos sorriu ironicamente e depois comprimiu os olhos como se
estivesse sentindo uma dor ntima.
     -- Assim que entrei, comecei a fazer algumas transaes para a
quadrilha. Fazia mandados, acertava com fornecedores e compradores,
ou seja, tudo o que me pediam eu fazia de timo agrado, pois estava
com muita vontade de chamar a ateno dos grandes, principalmente...
a do Vip, que alis, nunca tinha visto o seu rosto, assim como a maioria
dos que trabalham para ele.
     Antes que Nick disparasse em outra pergunta, Carlos continuou:
     -- Mas ento, depois de um tempo de trabalho rduo, foi que
descobri, ouvindo uma conversa, por acaso, que eu iria ser o novo pato.
     -- Pato? -- Nick no fazia a menor idia do que aquilo significava.
     -- Pato -- confirmou Carlos, relembrando memrias indesejveis.
-- Um ser insignificante. Pessoas com sonhos ambiciosos, assim como
eu. A quadrilha alimenta os sonhos dos patos e fazem de conta que tudo
est indo muito bem. Como Vip falara para mim, eles acolhem,
alimentam, do do bom e do melhor, e mais tarde consumam um plano
que  projetado desde a entrada do pato na quadrilha: o pato  mandado
para fazer uma grande transao com um contato -- sempre num
negcio de grandes propores --, ento, depois que a troca  feita,
metade da quadrilha aparece e extermina a todos que esto fazendo
parte da transao, o pato est includo nessa. Da pegam a mercadoria e
o dinheiro e desaparecem da mesma forma que chegam.
     "Quando a polcia encontra os corpos, todos os indcios so
apontados para um tiroteio entre quadrilhas rivais onde nenhum deles
tiveram a sorte de sair com vida. E assim, a quadrilha vai aumentando
seu capital 'sem se sujar'."
     -- Caramba! -- assombrado, Nick caminhou at o frigobar e tirou
uma garrafa de whisky de dentro dele, tomando um gole, ento. -- E
como voc se saiu dessa, meu chapa?


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     -- Como eu disse, descobri a tempo, e antes que eu virasse pato
assado, bolei um meio de me safar. Coloquei uma escuta no telefone
usado por Vip num certo dia em que ningum estava por perto e ento
gravei uma conversa do poderoso chefo. Consegui uma coisa muito
quente, meu caro. Depois que estava com uma cpia da tal fita nas mos,
fui at Lucas pedir minha demisso, mesmo sabendo que quem entra na
organizao no pode mais sair. E como esperava, ele no aceitou.
     -- Ento voc mostrou a fita -- disse o outro.
     -- Exatamente.
     -- Mas o que existia na fita?
     -- O segredo mais bem guardado de Melmar -- Carlos levou a mo
ao bolso da cala e puxou a k-7 -- E ela est bem aqui. -- entregou-a ao
amigo.
     Nick deu mais um beijo na boca da garrafa de Whisky, deixou que
uma poro do lquido escorregasse por sua garganta e, em silncio,
fitou o objeto.
     -- Ento, depois que voc mostrou a fita, ele cedeu?
     Carlos balanou a cabea de um lado para o outro.
     -- Pior que no -- murmurou.
     -- Como no? Agora era a garganta dele era que estava presa 
corda!
     Carlos levantou-se e fazendo gestos desesperados, disse:
     -- Quando mostrei a minha arma, ele mostrou a dele: uma simples
correntinha banhada a ouro com um anel de noivado presa a ela.
     Como um raio, Nick aproximou-se de Carlos e segurou na gola de
sua camisa. Puxou-o ainda mais para perto de si.
     -- Cara, no me diga que... -- Nick no ousou continuar. Carlos
pde apenas confirmar com a cabea.
     A falta de palavras tomou conta dos dois homens em meio a olhares
fulminantes detonados por ambos. Nick largou a camisa de Carlos, que
enfim falou:
     -- Foi a que se deu o comeo do meu pior pesadelo. Eles pegaram a
fita e me obrigaram a fazer parte de um outro plano, simplesmente
diablico e muito mais ousado: encenar uma transao para acabar com
dois policiais que h muito tempo desbancavam os negcios deles. O
plano deu mais-do-que-certo, eles os mataram, conseguiram o que
queriam. E agora, adivinhe em quem colocaram a culpa?
     Nick j sabia a resposta.
     -- Que droga, cara! Voc t perdido!
     Carlos deu um sorriso amarelo.


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     -- Nem tanto. Recuperei a fita, como voc pode ver, e... ganhei um
pastor.
     -- Que negcio  esse de pastor, Carlos?
     -- Lucas me mandou matar um policial e ele apareceu do nada,
dizendo para eu no fazer o que estavam me mandando. Foi a que pulei
em cima de Lucas e retirei a fita que estava dentro do terno dele, sem
que ele percebesse. Depois que me imobilizaram, pegaram esse pastor e
levaram-no para lhe darem um fim. Eu ouvi tiros. Tito e Bino nunca
iriam deixar que ele ficasse vivo. Por isso no haveria nenhuma
possibilidade de...
     As palavras de Carlos estavam seguindo um rumo em que s eram
claras para si mesmo. Nick percebeu isso e o fez cessar:
     -- Espere, espere! Voc no t mais falando coisa com coisa, meu
irmo! No estou entendendo mais nada. Daqui a pouco vou estar
voando!
     -- Certo... S para esclarecer, eu capotei de tanta pancada, e
quando acordei, ele, o pastor, estava ajoelhado ao meu lado... e vivo!
Ento a polcia chegou e prendeu ns dois, algemados um ao outro. E
estamos juntos at agora.
     O relatrio de Carlos se estendeu por minutos. Foi contado o
episdio do carro-patrulha, com os policiais corruptos, e tudo o que
acontecera: a batida no poste, a fuga. O vagueio pela mata e a invaso da
propriedade de Edson e Julia. O primeiro telefonema para Vip, o
cinzeiro voando e a espingarda cuspindo fogo e quebrando o pra-brisa.
     Para Nick, aquilo estava parecendo mais uma aventura excitante, e
sentiu uma pequena inveja de Carlos, pois queria ter sido ele a passar
por aquela "expedio ao perigo". Ele gargalhou quando Carlos contou
sobre as formigas que quase o fizeram gritar, enquanto um tira varria a
escurido com o facho da lanterna prximo a ele, mas ficou srio quando
lembrou de uma reportagem que havia sido exibida no canal sete, no
primeiro noticirio do dia.
     Carlos estava mencionando a noite passada, quando ficaram num
beco cheio de lixo. Nick interveio:
     -- Carlos, saiu uma reportagem sobre vocs hoje de manh na
televiso. No tinha a menor idia de quem se tratava na ocasio, mas
agora tudo faz sentido. Cara, voc est numa enrascada. Descreveram as
suas caractersticas e pediram para quem vir vocs dois em algum lugar,
ligar para a polcia.
     -- Agora voc entende o sentido da palavra todos?
     Nick assentiu com a cabea.


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     -- E agora, o que voc t planejando? O que voc via fazer?
     -- J fiz -- Carlos tomou a garrafa de whisky da mo de Nick e
levou o recipiente  boca. -- Antes de vir para c, telefonei para Vip e
marquei um encontro. Propus uma troca. A fita por Nicole. Disse a ele
ainda que estou disposto a esquecer tudo o que aconteceu depois que
entrei para a quadrilha e desaparecer de sua vida para sempre se fizer
tudo de acordo.
      -- Mas se isso acontecer, voc vai continuar sendo caado pela
polcia!
     -- O que importa, Nick? O importante  que ela esteja bem, salva e
do meu lado.
     Um semblante de dvida sobreveio sobre Nick.
     -- Ao lado do cara mais procurado da cidade? Ser?
     Duas batidas na porta chamaram a ateno dos dois homens dentro
do pequeno quarto interrompendo a conversa. Nick dirigiu-se a porta e
abriu-a. Alan estava plantado l.
     -- Desculpe-me... -- disse Alan. --  que o pessoal l da oficina
disse que vocs estavam aqui, e...
     Carlos percebeu o acanhamento do homem e resolveu ajud-lo.
Deveria estar curioso para sabem o que estavam conversando, pensou.
     -- Entre, pastor -- convidou, atraindo o olhar de Nick.
     -- Oh... no, obrigado -- Carlos no esperava essa resposta, muito
menos Nick. Alan concluiu: -- S vim aqui perguntar se no haveria...
um outro lugar... reservado... com a mesma privacidade deste aqui
para... eu poder orar?
     -- Orar? -- Nick empertigou-se. -- voc t pensando que isso aqui
 o que? Uma igreja por acaso?
     -- Desculpe-me, eu no queria...
     -- Nick -- interveio Carlos --, a sala das peas ainda existe?
     -- Existe, mas eu no quero...
     -- Voc poderia deix-lo ficar um pouco l? Ainda tenho algumas
coisas para lhe dizer a respeito do que estvamos falando e quero que
isso fique s entre eu e voc.
     Nick passou os dedos pela correntinha de ouro novamente e
observou Carlos fazer um sinal com a cabea como se dissesse: Faa isso.
     -- T legal -- o proprietrio da oficina caminhou  escrivaninha,
pegou uma chave na primeira gaveta e jogou-a para Alan. -- A primeira
porta do mesmo corredor em que voc andou para chegar ao banheiro.




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     -- Obrigado -- com um sorriso, Alan virou-se e foi embora,
deixando para Carlos a misso de enfrentar o olhar gelado de Nick, que
apontou para onde o servo de Deus estava segundos antes.
     -- Esse cara  mesmo pastor, ? Vou logo dizendo que no gosto
desse tipo de gente.
     Carlos levantou a mo direita, solenemente.
     -- Eu tambm no -- apontou para a porta. -- Feche.
     Nick antendeu e fez a cama emitir o som de sempre quando voltou
a sentar sobre ela.
     -- Sabe, de alguma forma eu no confio nele -- disse Carlos com
relao a Alan. -- Tem vezes que me parece to convincente que fico a
ponto de acreditar que ele seja crente mesmo. Mas meu instinto diz para
acautelar-me e at mesmo o denuncia a mim.
     A concentrao de Nick sobre as palavras do amigo encrencado
parecia intensa e alerta a qualquer sinal de perigo  vida que pudesse
detectar. Carlos continuava:
     -- Esse cara diz coisas que sinto, que quero, como se me conhecesse
h muito tempo. Ele... ele diz que veio em nome de Deus, o meu grande
amigo. Imagine s isso! -- sorriu com uma expresso completamente
contraditria. -- Mas sabe o que eu acho? Acho que ele est nessa para
me ferrar, para acabar comigo. Acho que est a mando de Vip.
     -- Por que acha isso? Achou algo suspeito nele ou algo parecido
que o denunciou?
     -- Porque veja bem: ele sabia o meu nome sem nem mesmo me
apresentar! Quando ele apareceu l, no meio da transao, eu nunca o
tinha visto antes mais gordo em minha vida, e ele sabia o meu nome!
     Carlos sentiu que poderia falar sobre o que sentia a respeito daquele
homem e as dvidas que se acumulavam ao redor dos termos verdade e
mentira por longas e infindveis horas. Mas o tempo no lhe permitia
isso. Estava comeando a sentir dor de cabea.
     Nick declarou sombriamente:
     --  uma situao difcil. Ele pode ser mesmo um desses crentes
malucos, j que eles tm essa mania de falar que Deus nos ama,  nosso
amigo, nosso guarda... essas coisas. Mas tenho uma dvida: "ser que
algum deles teria realmente coragem para se meter em uma loucura
dessas?" ... sinceramente, acho que no seriam suficientemente
malucos para isso.
     Carlos fez um sinal positivo, mas seu olhar denunciava que no
acreditava muito que Alan pudesse realmente ser uma daquelas pessoas
que punham o amor a um Deus acima de tudo.


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     -- Na situao em que me encontro, no h nenhuma condio de
eu ficar fazendo da minha cabea uma balana, Nick. No posso me
arriscar de maneira alguma. No tenho tempo para ficar querendo saber
se ele est do lado do bem ou do mal, para depois agir. Tenho que me
adiantar sempre.
     -- Estou com voc nessa -- apoiou Nick.
     -- Fico contente em saber disso, cara. Vou precisar de sua ajuda
amanh para garantir que tudo saia da melhor forma possvel... para
mim,  claro.
     Nick levantou-se, dirigindo-se para Carlos e apertou-lhe a mo.
     -- Como eu disse antes, estou com voc. Vamos dar uma lio
neles. Lembra de como ramos antes? Eu no era apenas o seu chefe,
mas tambm seu amigo. No queria que vissem isso porque poderia
"pegar" mal.
     Um sorriso mais tranqilo saiu dos lbios do jovem fugitivo, at que
Nick perguntou:
     -- E quanto ao suposto pastor, o que vamos fazer com ele?
     -- Nada, por enquanto. Ele tambm j est includo nos meus
planos para manh -- Carlos visualizou em sua mente o que haveria de
ocorrer nos primeiros minutos do dia seguinte e acrescentou: -- E
dependendo do que acontecer na Clintel com a Treze, eu saberei o que
fazer com ele. De qualquer forma, o miservel estar em minhas mos.




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                                          Captulo 14



A    solido acompanhada do medo era quase insuportvel. A toda hora,
     minuto, instante, ela temia aquilo que poderia ser o seu fim, e todas
as circunstncias despontavam para isso.
      Ela era uma jovem mulher de vinte e sete anos, cabelos dourados
que simplesmente caam como uma cachoeira de sua cabea, com
expressivos olhos verdes e de corpo esguio. Mas aquele lugar estava
consumindo-a, assim como tambm toda a sua beleza. No era nenhum
calabouo -- cenrio dos filmes de Robin Hood --, muito menos uma
torre enclausurada de um castelo medieval. Era um quarto luxuoso, com
cama confortvel, TV tela grande, um som streo com compact disc,
frigobar, ar condicionado e tudo o que algum poderia querer em seu
prprio quarto. Porm, em suas paredes brancas como neve recm cada,
exibiam bizarros quadros pendurados nelas com formas grotescas e
repugnantes. Uma delas -- a que Nicole mais odiava -- trazia a pintura
de uma cabea recm decapitada, com seus dois olhos arrancados, sendo
devorados por trs ratos leprosos. Era uma prova que tinha que ser
vencida. Ela tentava no olhar para os quadros, pois sentia nsia de
vmito ao deparar-se com aquelas figuras diablicas.
      Ela ainda se lembrava do que lhe dissera o homem que a prendera
ali:
      -- Aproveite bem este recanto, meu bem, porque talvez ser o
ltimo lugar que voc ir ver.


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     Estremecia ao pensar naquelas palavras e na frieza que a voz
daquele homem transmitia. Era como uma faca sendo enfiada na carne
humana. Quase to horrendo quanto os quadros espalhados pelo quarto
-- que para Nicole, no era nenhum recanto e sim um lugar para se criar
malucos, ou um habitat natural de manacos.
     Pelos seus clculos, deveria estar ali por pelo menos quatro dias,
mas pareciam semanas, sem nenhuma companhia, ningum para
compartilhar seus medos e anseios. Tinha apenas a televiso e o som
streo como companheiros, mas quem iria querer assistir ou ouvir
alguma coisa naquele estado de aflio? Tudo o que queria era sair dali e
encontrar Carlos, abra-lo com a segurana de que tudo estaria bem.
Mas, infelizmente, a realidade era de que nada estava bem. Carlos, a
essa altura, estava morto ou simplesmente numa enrascada maior do
que j se encontrava, o que era quase impossvel, assim como tambm
era o fato ela de poder sair dali com vida.
     Ainda se lembrava do que Carlos dissera-lhe a quatro dias atrs:
     -- Desculpe-me, meu amor -- ele estava acompanhado do homem
que a havia prendido naquele quarto horrvel e mais outros trs, que o
ladearam como se fosse uma escolta pessoal. -- Eu-eu apenas queria o
melhor para voc, para mim, para o nosso futuro. Mas descobri que no
era nada disso que esse pessoal queria nos dar. Eles no se importam
com ningum.  por isso que voc est aqui. Querem que eu faa uma
coisa suja para eles e em troca recebo voc de volta. -- Carlos respirara
profundamente. -- S espero que voc me perdoe e me d uma nova
chance. Uma chance para provar que posso te fazer feliz. Eu...
     Nicole vira os olhos de Carlos encherem-se de lgrimas e observara
quando tentara esconder isso dos demais homens. Por fim, disse:
     -- Eu prometo que voltarei para te pegar.
     Ela no sorrira naquele momento. Foi o dia em que descobrira que
Carlos era um criminoso.
     Subitamente, o homem que a prendera ali, caminhara at ela e
arrancara sua gargantilha, junto com o anel de noivado que Carlos
havia-lhe dado no dia de seu aniversrio. Nicole entendera ento que,
aquelas jias seriam um lembrete para seu noivo de que a mulher de sua
vida, a qual amava, estava nas mos de seus inimigos.
     Quando todos se retiraram do quarto, s sobrara a solido, o medo,
a angstia, o choro desesperado de Nicole. Momentos depois correra 
porta e batera com fora, muitas vezes, a ponto de suas mos ficarem
vermelhas. Abriram a entrada, mas ao invs de lhe deixarem ir, deram-
lhe um soco no meio do rosto que a fizera cair contra o cho


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encarpetado. Ento chorou novamente, assim como em todas as horas
do dia.
     Mas agora Nicole no pranteava mais. Parecia que a fonte de
lgrimas havia secado. A tristeza era profunda, a angstia insuportvel,
o medo avassalador, mas as lgrimas, elas j no existiam mais.
     Estava deitada sobre a cama de madeira de lei -- como fazia na
maior parte do tempo --, de olhos fixos, vidrados no teto branco, numa
hipnose arrebatadora.
     Por que mentiu para mim?
     Por que escondeu isso de mim?
     Por que no abriu o jogo comigo?
     Por que est acontecendo tudo isso?
     Por que tudo s acontece comigo?
     Por que...
     Os por qus eram interminveis e faziam a cabea de Nicole girar.
Amava Carlos. Amou-o desde a primeira vez que o viu numa
lanchonete no centro da cidade, na chamada: "Rua Comestvel". Nicole
estava sentada ao balco e percebera o olhar de Carlos -- sentado em
uma mesa -- sendo desferido contra ela. Nicole sorrira, sendo seguido
por ele em seu gesto. Um minuto depois, Carlos estava sentado ao seu
lado. Passaram a noite conversando sobre tudo e sobre nada, e tudo isso
como j se conhecessem h muito tempo.
     Nicole voltou ao presente com um longo suspiro, desolada. Mas as
palavras de Carlos tomaram-lhe a mente mais uma vez:
     Desculpe-me, meu amor. Eu-eu apenas queria o melhor para voc, para
mim, para o nosso futuro... S espero que voc me perdoe e me d uma nova
chance. Uma chance para provar que posso te fazer feliz. Eu...
     Colocou as mos na cabea e tentou pensar em coisa alguma. Mas
sua prpria conscincia lhe delatava que era um esforo em vo. Ento
ela gritou. Gritou por no saber mais o que fazer... o que pensar...
     Um barulho chamou-lhe a ateno para a porta, que em seguida foi
escancarada. O mesmo homem que a havia prendido ali estava parado 
entrada -- a sua nica sada.
     O homem esboou um sorriso -- indigno de sua pessoa, por ser um
gesto alegre --, caminhou para o centro do quarto, enquanto a porta era
fechada novamente, e fitou-a dos ps  cabea.
     -- Como voc est, meu bem?
     Nicole tentou engolir um n em sua garganta que estava
dificultando sua respirao e o que pde proferir foram duas das



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perguntas que assolaram-na por todas as horas que passara ali at
quele momento:
     -- Quem  voc? Onde est Carlos?
     Sem nada falar, Lucas sentou-se sobre a cama. Nicole estava com os
nervos  flor da pele, e isso a deixou ainda mais nervosa.
     -- Responda, seu filho...
     -- Ei! -- interrompeu ele. -- Voc  muito bonita para falar essas
coisas feias!
     A jovem moa levou as mos  cabea e sentiu vontade de arrancar
todos os fios de cabelo que nela estavam plantados.
     -- Por favor... -- suplicou ela --, diga-me o que quero saber! Estou
 beira da loucura. Este lugar  pior que um hospcio, e... Por favor, me
diga onde ele est!
     Lucas cruzou as pernas. Com ar de gentileza disse:
     -- Para ser franco com voc, no tenho a menor idia de onde
Carlos possa estar agora -- viu no rosto de Nicole a dvida. -- Estou
falando a mais pura verdade. Agora, no me pergunte como ele est,
porque creio que voc no gostar da resposta.
     Isso Nicole j imaginava. Era bvio que Carlos no estava nada
bem, mas queria saber o quanto. Resolveu no perguntar mais nada a
esse respeito.
     -- O que voc quer comigo?
     Lucas riu.
     -- Oh! Eu queria muitas coisas, mas... -- ele olhou-a de cima a
baixo -- eu sou do tipo que no ultrapassa o sinal, entende? S vim aqui
lhe informar que isso no vai durar por muito tempo. Logo voc ir sair
daqui.
     -- Que garantia voc me d?
     -- Minha palavra no basta?
     -- E desde quando palavra de criminosos como voc tem garantia?
     -- A de Carlos no tinha?
     Nicole silenciou. Ele a tinha pegado.
     -- Foi muito injusto da parte dele, na minha opinio, ter escondido
que era um infrator da lei de voc, sua noiva-- continuou Lucas. -- Me
diga, voc nunca desconfiou de nada?
     Nenhuma palavra saiu da boca de Nicole. Mas a verdade era que
no, ela nunca desconfiara de coisa alguma que ligasse Carlos ao crime.
Ele jamais lhe dera motivos para que desconfiasse. Talvez, pensou ela,
porque Carlos, de jeito algum, agira ou falara como uma pessoa que
fosse envolvida com o trfico por saber que ela nunca teria continuado


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com o namoro se lhe dissesse algo, muito menos com o noivado. Nicole
abominava qualquer tipo de falsidade e desonestidade e Carlos sabia
disso melhor do que ningum.
     -- Sei que ele fez o que fez para me proteger -- disse ento.
     -- Acho que o mais correto seria dizer que ele queria proteger a si
mesmo. Tinha certeza que, se voc soubesse, deixaria-o no ato. Eu,
pessoalmente, no me reocuparia muito com isso. Se voc realmente
gostasse de mim, se fosse o caso, teria que me querer do jeito que sou.
     -- Tudo tem um limite, e a est o meu. Eu no seria capaz de
transp-lo, mesmo pelo amor.
     -- Amor? -- Lucas pareceu admirado. -- Voc realmente o ama?
     Os lbios de Nicole tornaram a se fechar por um instante.
     -- Amar... depois disso no sei mais se o amo -- ela o fitou nos
olhos. -- Nem sei por que estou falando isso para voc, j que creio que
no se importa.
     Lucas levantou-se e caminhou ao frigobar no canto do quarto, tirou
de dentro uma lata cerveja e abriu-a.
     -- Me importar? No, na verdade no me importo, mas me
interesso em certos assuntos, principalmente os amorosos, e... Sabe o
que eu acho? Acho que Carlos ama voc, de verdade. Se no fosse assim,
ele no se preocuparia em esconder o que  de voc.
     -- O que voc ? Conselheiro matrimonial?
     Lucas levou a lata com o contedo dourado  boca e aproximou-se
de Nicole.
     -- Voc quer saber quem realmente eu sou? -- com um movimento
rpido, a mo livre do traficante voou de um lado e voltou chocando-se
com o rosto alvo da jovem refm, jogando-a no cho com o impacto do
tapa e fazendo a rea golpeada imediatamente ficar avermelhada. -- Sou
o homem mau. Algum com quem no se brinca. Seu noivinho fez isso
comigo e vai se arrepender. Alis, ele j se arrependeu, tenho certeza.
     Com as mos no rosto machucado, Nicole sentiu a face inchar.
     -- Por que vocs fazem isso? Como conseguem viver assim? --
perguntou, esperando outra investida.
     Lucas no se moveu, mas liberou uma sinistra gargalhada.
     -- Viver assim como? Sendo algum poderoso, com status? Algum
temido e respeitado? Estou certo de que todos no mundo daria tudo
para viver do jeito que vivo.
     -- Voc est errado -- murmurou Nicole.
     -- Errado? Veja o seu Carlos, por exemplo! Ele no pensou duas
vezes quando essa oportunidade bateu  sua porta. Veio correndo.


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Idiota. Queria se dar bem, porm, embarcou no navio errado, o azarento.
Mas at que... -- outro gole. -- At que ultimamente ele anda com sorte.
     Nicole notou que, ao final, Lucas no estava mais falando
diretamente com ela, mas consigo prprio. Pensando em voz alta, seria a
palavra certa. Agora, sem perceber, o traficante estava com a total
ateno de sua refm.
     -- O filho da me est vivo, e isso j pode ser considerado a maior
sorte do mundo.
     Nicole no se conteve ao saber disso.
     -- Vivo! Carlos est vivo! Oh, meu Deus!
     O transe de Lucas foi quebrado. Ele fitou a mulher  sua frente, o
sangue subindo-lhe  cabea.
     -- , ele esta vivo, mas no por muito tempo. Eu garanto.
     O traficante tirou do bolso a correntinha com o anel de noivado
pendurado nela, levantou-a rente aos olhos e ficou a observar seu brilho
diante da noiva que, agora, parecia no se importar com suas jias nas
mos de outra pessoa. De alguma forma estava se sentindo bem depois
de quatro dias de terror. A notcia de que Carlos estava vivo lhe tinha
feito isso. Pensara que tinha sido mentira quando Lucas havia dito que
no sabia onde Carlos se encontrava. Neste momento, sabia que ele
poderia estar em qualquer lugar l fora, a salvo. Isso era o que bastava.
De repente ela tambm se deu conta de uma coisa: ela ainda o amava.
Talvez mais, agora. Um leve sorriso despontou em seus lbios. At que
Lucas Givaldi repetiu:
     -- No viver por muito tempo. Eu garanto. Sim, garanto isso.




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                                         Captulo 15



T  odo o imprio do CANAL SETE  REDE DE TELECOMUNICAES,
   encontrava-se dentro do edifcio imponente da principal avenida da
cidade, a avenida Perfeio, que, como o prprio nome dizia, era
perfeita. Com quatro vias paralelas e infra-estrutura bem projetada, o
movimento de automveis e pedestres na avenida era grande e
constante, e por esses motivos ali se situava as maiores empresas, firmas
de advocacia e setores administrativos de Melmar.
     Axel desceu com seu carro-patrulha  garagem subterrnea do
edifcio do Canal Sete e estacionou em uma das vagas para os visitantes.
Pegou, em seguida, o elevador que o levou ao sexto andar, onde se
estabelecia a redao.
     As portas de ao do elevador se abriram no andar correspondente, e
o que Axel pde observar foi uma sala repleta de escrivaninhas fartas de
materiais: computadores, telefones, faxes, canetas, fitas de vdeos,
algumas cmeras e papis diversificados. Havia ainda dezenas de
monitores embutidos nas paredes, sintonizados em vrios canais --
inclusive internacionais -- sendo transmitidos em vrios idiomas. Os
telefones no paravam de tocar; as notcias e informaes no paravam
de chegar. Vinham de vrias partes da cidade ao mesmo tempo, assim
como ao mesmo tempo muitas pessoas falavam de uma s vez. Axel
percebeu, sobre uma pequena mesa de carvalho, diversos jornais dos
EUA e de toda a Europa, empilhados ordenadamente, que, de vez


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enquanto, eram consultados por algum. Uma mesa em destaque
chamou a ateno do policial. Ela encontrava-se sob a mira de uma
cmera de vdeo. Ento reconheceu: era onde uma bonita jornalista,
Catarina Collinter, transmitia -- sempre em flashes ao vivo -- as ltimas
notcias quentes do mundo.
     Uma mo foi erguida em meio ao trnsito humano da redao. Axel
observou atentamente de quem se tratava. Era Caroline, sentada a uma
das escrivaninhas ao fundo da sala. O policial dirigiu-se por entre o
tumulto de funcionrios que trabalhavam na redao, esquivando-se
aqui e ali para no esbarrar em mesas ou pessoas, at que chegou onde a
reprter estava. Uma outra mulher acompanhava-a.
     -- E ento, tudo bem? -- perguntou Axel. Um cumprimento nada
formal diante dos acontecimentos, pensou.
     -- Tudo bem -- respondeu Caroline, oferecendo uma cadeira 
escrivaninha ao agente policial. -- Esta  Helena Corel, a reprter de
quem lhe falei. Ela esteve na casa invadida pelos dois suspeitos.
     Helena Corel estendeu a mo e Axel tomou-a num aperto,
reparando os traos fsicos da mulher. De sua mesma cor, de olhos
castanhos e corpo bem definido. Uma bela mulher, pensou ele.
     -- Axel Brendel -- apresentou-se.
     -- Carol j me falou sobre voc.  um prazer conhec-lo.
     -- Igualmente.
     Caroline interrompeu com uma batida leve na mesa e um sorriso
torto.
     -- Bem, chega de formalidades e vamos ao que interessa. Helena,
repita o que voc estava me contando antes para que Axel possa ouvir.
Sei que com o faro fino que ele tem, poder descobrir algo mais e dar
uma incrementada superior a essa matria, que alis, est tima. Eu j
dei uma olhada, espero que no se importe.
     -- O que  isso, Carol? -- a expresso de Helena era de ofendida. --
No tenho porqu me importar. Alm do mais, tudo isso diz respeito a
voc tambm.
     Caroline suspirou:
     -- Obrigada.
     -- Bem, ento o que aconteceu realmente na tal casa? -- indagou
Axel, tentando afastar a nuvem carregada de tenso e constrangimento
para longe.
     Helena Corel ordenou trs folhas  sua frente, e olhando para elas,
comeou o que seria chamado de relatrio:



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     -- Depois que a matria da Carol foi ao ar, o Sr. Edson Kruller nos
telefonou. Disse que a descrio que vocs deram dos dois suspeitos
eram idnticas a dos homens que invadiram sua casa. Pediu para que
uma equipe de reportagem lhe visitasse, pois ficara muito comovido
com o apelo feito por Silvio hoje de manh.
     -- O filho da me sabe mesmo como fazer o povo se sentir
responsvel pelo que acontece de ruim na cidade -- comentou Caroline.
     --  por isso que ele ganha mais do que ns trs juntos --
murmurou Helena.
     Axel protestou em meio ao barulho do recinto:
     -- Qualquer ser vivente que trabalhe, ganha trs vezes mais do que
eu, meninas!
     Os trs riram. Helena continuou:
     -- Quando chegamos  residncia dos Kruller, o Sr. Edson j estava
 nossa espera na varanda de sua casa muito bonita por sinal e bastante
tranqila por encontrar-se distante da cidade.
     Axel puxou um bloco de anotaes e uma caneta esferogrfica do
bolso do seu casaco de couro preto.
     -- Qual  exatamente a localizao da residncia dos Kruller?
     --  leste de Melmar. A rodovia Zero-Meia-Cinco passa bem
prximo a ela. Foi nessa rodovia que encontraram a caminhonete do Sr.
Kruller.
     Caroline permanecia em silncio, enquanto observava o policial
rabiscando rapidamente letras quase incompreensveis em seu
bloquinho. Ele parou e fitou o nada, em seguida, num devaneio,
perguntou:
     -- A rodovia Zero-Meia-Cinco no fica a onze quilmetros da
rodovia Trs?
     -- Mais ou menos isso -- pronunciou-se Caroline e Axel voltou a
rabiscar rapidamente. Ainda indagou:
     -- Falou que os suspeitos invadiram a casa dos Kruller e roubaram
sua caminhonete nesta madrugada?
     -- Foi isso mesmo o que aconteceu, segundo o Sr. Kruller.
     -- Conte-me como foi.
     Helena Corel consultou seus papis novamente.
     -- O Sr. Edson Kruller disse que foi sua esposa quem ouviu o
barulho que os dois homens estavam fazendo na sala de sua casa e
acordou-o. O Sr. Kruller pegou sua espingarda e dirigiu-se aonde os dois
suspeitos estavam.



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     -- Por que ele acha que eram os suspeitos em sua casa? No
poderiam ser ladres noturnos um pouco parecidos com os suspeitos ou
coisa parecida?
     Helena negou com a cabea.
     -- No. Porque o Sr. Kruller chegou na sala e pegou-os de surpresa.
No estavam furtando coisa alguma e sim, vejam s, dando um
telefonema.
     Axel e Caroline se entreolharam curiosos.
     -- Telefonema? -- indagou o policial. Helena confirmou.
     -- Estranho. Por que algum invadiria uma casa no meio da
madrugada apenas para dar um simples telefonema? -- questionou
Caroline.
     Algum deu um berro do outro lado da redao, chamando a
ateno dos trs, principalmente a de Axel, que falou em seguida:
     -- Analisando os fatos, no acho que este tenha sido um simples
telefonema, mas sim "o telefonema".
     -- Como assim? Do que voc est falando? -- indagou Helena
Corel.
     -- Se esses caras forem realmente os dois suspeitos, esse telefonema
certamente estar relacionado ao caso, e poder responder muitas de
nossas perguntas.
     -- Que droga! Se pelo menos tivssemos alguma certeza para
entrarmos em ao... -- lamentou a reprter de ctis clara.
     -- No ser preciso termos certeza para fazermos alguma coisa --
disse Axel. -- Tenho um amigo na MELMARTEL. Pedirei para que
verifique todos os nmeros que foram discados do telefone da casa dos
Kruller hoje, assim poderemos saber os destinos dessas ligaes, ou
melhor ainda, da nossa ligao.
     -- Que coisa fantstica! -- exclamou Helena.
     -- Faro fino -- elogiou Caroline.
     Axel sorriu enrubescido.
     -- O que mais o Sr. Kruller lhe contou? -- perguntou.
     -- Bem... disse que imobilizou os dois homens, pondo-os em sua
mira, mas numa frao de segundos, enquanto olhou para sua esposa, o
Sr. Kruller foi acertado por um deles e assim no pde impedir que os
suspeitos roubassem sua caminhonete e fugissem. Contou que ainda
atirou contra eles j dentro de seu veculo, mas no chegou a atingir
nenhum dos dois, apenas sua prpria caminhonete, que foi encontrada
sem combustvel por dois policiais que se encaminhavam  casa dos
Kruller atendendo ao seu chamado. O veculo estava a um quilmetro e


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meio do limite da cidade  leste e os invasores ou suspeitos, como queira
cham-los, j tinham evaporado.
     Axel escreveu mais coisas em seu bloco de anotaes, ento
concluiu:
     -- Isso quer dizer que eles voltaram para Melmar e j esto em
algum lugar por a.
     Caroline levou as mos  cabea.
     -- Que coisa! Enquanto Pablo est morto, os seus assassinos esto
na cidade, talvez andando por a como se nada tivesse acontecido! Eu
no acredito nisso!
     Helena Corel e Axel, quase que simultaneamente colocaram as
mos sobre o ombro da amiga num gesto de solidariedade.
     -- Mais uma vez digo, sinto muito, Carol -- manifestou-se Helena.
-- Mas temos que ser forte neste momento para sermos capazes de
raciocinar melhor para agir melhor.
     Caroline meneou a cabea, como se dissesse: est bem.
     O agente olhou para seu bloco de anotaes e sua mente ocupou-se
subitamente com afirmaes e questes indefinidas sobre aquele caso. A
questo de a rodovia Zero-Meia-Cinco estar  onze quilmetros da
rodovia Trs, reforava ainda mais a possibilidade de que os dois
homens invasores da residncia dos Kruller eram, irrefutavelmente, os
fugitivos suspeitos de assassinar Caio. Mas tinha o fato de eles terem
voltado para Melmar. Por qu? Perguntou-se. Deveriam saber que logo, toda
fora policial estaria ao encalo deles. Por que arriscar, ento? Qual o motivo
real para retornarem  cidade? Proteo? Prestao de contas? Aquilo fazia
Axel refletir e notar que todo aquele quebra-cabeas ligava-se a Oliver e
Selton. Por que lev-los pela rodovia Trs ao invs de ir direto para a
central? Selton no poderia mais responder quela pergunta. Restava,
ento, Oliver, que estava tambm em algum lugar l fora. Teria que
imprens-lo contra a parede. No seria fcil, mas era assim que teria que
ser feito. Devia isso a Pablo e ao caso. A pergunta estava entalada na
garganta de Axel e aquilo o incomodava, e muito. Por isso, teria que
coloc-la para fora o mais rpido possvel. Ento, teria que procurar o
policial Oliver com a mesma urgncia.
     Caroline estava falando:
     -- No gostaria de ver a fita da reportagem de Helena com o Sr.
Kruller? Pode existir algo que possa nos ajudar ainda mais, e...
     Axel interrompeu-a.
     -- Acho que isso basta por enquanto -- opinou. -- Vamos agir por
etapas. Isso j  um grande comeo e  por aqui que vamos iniciar a


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temporada de caa  Quadrilha Vip -- com um sorriso, levantou-se,
colocou o seu bloco de anotaes e a caneta de volta no bolso do casaco.
     -- J est indo? -- lamentou Helena Corel.
     -- Infelizmente sim. Irei comear com o telefone dos Kruller. Vou
visitar meu amigo e ver o que posso encontrar de importante.
     -- Ento, posso te acompanhar at a garagem? -- disse Caroline. --
Vou ao NR visitar... -- ela se deu conta do que iria falar, ento
emendou: -- visitar um colega que est internado l, e... vou fazer os
ltimos acertos para o enterro de Pablo. -- baixou a cabea e suspirou
amargamente.
     Prontamente, Axel respondeu:
     -- Claro, vamos.
     -- Sobre o colega hospitalizado... -- disse Helena -- eu o conheo?
     -- Oh... no! Voc no o conhece, no!
     Percebendo a encrenca que Caroline quase se enfiou e seu
nervosismo por causa da mentira, Axel pegou na mo da reprter e
puxou-se levemente.
     -- Vamos ento? -- disse, consultando o relgio em seu pulso. --
Meu dia est repleto de compromissos, e... no posso perder um minuto
sequer.
     Caroline sorriu desconsertada para Axel, pegou sua bolsa e acenou
para Helena Corel.
     -- At mais, Helena -- despediu-se.
     Os dois mergulharam outra vez no mar de funcionrios que
tentavam adejar para l e para c -- recolhendo materiais de
reportagens, atendendo e enviando telefonemas, mandando mensagens
via fax e demais meios de comunicao, e produzindo as informaes do
dia --, at que chegaram ao corredor, entraram no elevador e sumiram
da vista de Helena Corel.

                               &&&

     O cheiro de graxa e ferrugem impregnava toda a sala de peas.
Haviam peas automotivas por todos os lados, mas muito bem
organizadas -- dentro de caixas de madeira, empilhadas em inmeras
estantes espalhadas por todo o quarto. Um motor inteiro repousava
inerte sobre uma velha mesa de metal perto da porta. Encontrava-se sujo
de leo e graxa e aparentava estar em perfeitas condies de uso. Uma
lmpada pendurada no teto concedia a luminosidade necessria para o



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reconhecimento de toda rea a sua volta e fazer a identificao de onde
se encontrava.
     Sentado no cho ao lado de uma pilha de canos de escapamentos,
era exatamente onde se encontrava. Alan estava exausto e agora que
tomava conscincia disso. Tudo que ocorrera na madrugada fra
excessivamente perigoso, na verdade mortal. Sentia-se grato ao Senhor
pelo livramento e pela proteo infalvel que lhe dera at ali. Alan
pensou na orao que fizera a uma hora antes: pelos louvores,
agradecimentos e peties emocionados e sinceros, onde a maioria delas
eram relacionados a Melina e seus filhos.
     Ps-se a pensar em sua famlia; o comeo de tudo.

                               &&&

     Foi a primeira vez na vida que entrou em uma igreja evanglica. Na
poca, tinha apenas vinte e trs anos. A famlia Salazar o havia
convidado.
     Ah! A famlia Salazar... pensou emocionado, como poderia existir
pessoas com o corao to ligado a Deus no mundo como eles? Que Deus os
abenoe.
     Tudo foi to novo para ele quanto difcil. Parecia que todos ali
sabiam quem era ele; o que fizera. Isso o assustava de forma
avassaladora, tanto que o ar parecia no chegar at seus pulmes.
Tentou ento no encarar as pessoas por quem teria que passar at
chegar ao banco onde os Salazar haveriam de sentar. Ancelmo Salazar o
guiava pelo brao. Sempre sorridente, cumprimentava as pessoas j
acomodadas nos firmes bancos de madeira-de-lei espalhados em fileiras
pelo salo. Com certo nervosismo, Alan reservava-se a olhar para o
cho.
     Pareceu ter passado uma eternidade at chegarem  terceira fileira
de bancos do templo onde a Sra. Salazar, Augusto, o filho do casal e
Leandra, a caula de apenas oito anos, estavam sentados. Leandra se
abraava fortemente  me ao olhar nos olhos de Alan, que, por sua vez,
no tinha coragem de fit-la fixamente. Zilma Salazar dizia  filha
assustada:
     -- No fique com medo, minha querida. Jesus est aqui.
     Todavia, aquelas palavras maravilhosas pareciam no fazerem o
efeito desejado, pois a pequenina Leandra apertava ainda mais a me,
sentindo a presena de Alan, sentado no mesmo banco onde estava. O



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Sr. Salazar no se abalava com a reao de repulsa da filha. Com certeza,
o Senhor j o adiantava o que aconteceria naquela noite.
      O culto comeou. Houveram louvores, testemunhos, oraes,
algumas palavras de entusiasmo dos fiis. No final, a mensagem foi
pregada fluentemente pelo pastor da igreja. Por fim, o apelo foi feito.
Alan, no suportando mais a chama que ardia em seu peito, correu ao
encontro do pastor e disse querer aceitar a Jesus como seu salvador e
deixar toda a sua vida de promiscuidades para trs.
      O pastor orou por Alan e por algumas outras pessoas que tambm
tomaram a deciso de seguir a Cristo. Ao termino da orao, Alan foi
surpreendido por Leandra que correu at ele e o abraou. No
acreditando no que acontecia ele chorou, mas seu choro no era de
tristeza. A alegria se multiplicou quando a pequena menina disse entre
lgrimas:
      -- Eu no tenho mais medo de voc, porque voc aceitou a Jesus e
Ele te transformou.
      Aquela foi uma transformao que Alan jamais esqueceu e jamais
esquecer.
      Os braos pequeninos de Leandra ainda estavam ao redor de Alan
quando os demais membros da famlia de aproximaram e o abraaram
com o mesmo entusiasmo e emoo. O sorriso nos lbios do novo
homem no se fechava e isso era-lhe algo que no conseguiria explicar.
Quando enfim Ancelmo afrouxou o abrao e o largou,
surpreendentemente uma jovem de rosto fino, olhos penetrantes e
cabelos lisos e castanhos se aproximou, pegou-lhe pela mo e de igual
modo envolveu-o num abrao apertado.
      -- A paz do Senhor -- disse ela em tom suave. -- Que Jesus o
abenoe e te faa um pescador de almas.
      As lgrimas correram novamente dos olhos de Alan e aquelas
palavras ficaram gravadas no seu corao. Ao chegar em seu quarto, ao
dormir, constatou que a imagem da jovem da mesma forma ficou
marcada dentro de seu peito.
      Alguns meses de visveis mudanas se passaram e Alan enfim foi
batizado; primeiro nas guas, depois no Esprito Santo. O seu ministrio
como pregador crescia a cada dia, desde ento, assim como tambm o
seu amor pela jovem. Ele bem j sabia o seu nome e a conhecia das vezes
que ia  igreja. Melina Drios era a jovem por quem seu corao batia
mais forte.




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     Trs meses mais se passaram, quando finalmente ele buscou
coragem e se declarou para Melina. No mesmo instante obteve uma
resposta positiva:
     -- Desde quando voc aceitou a Jesus naquela noite, meus olhos s
enxergaram os seus... Certamente o Senhor tem algo para nossas vidas.
     Alan sorriu de contentamento e tornou-se srio antes de declarar:
     -- Mas... tenho uma coisa para lhe revelar. E... depois do que
ouvir, a sim, quero saber se aceita assumir um compromisso comigo.
     Melina escutou com espantosa tranqilidade tudo o que o outro
relatou. Quando ele terminou, ela anuiu, persistentemente:
     -- Agora tenho mais certeza ainda que Deus tem um plano para
ns, pois me tem confiado uma misso especial: cuidar de voc e... dos
nossos futuros filhos.
     Emocionado, Alan chorou novamente e abraou-a como da
primeira vez.
     Casaram-se um ano depois e foram morar numa casa que o pai de
Melina havia lhes dado de presente de casamento.
     Jaime veio um ano e meio aps o matrimnio e foi recebido com
festa pela famlia, assim como foi tambm motivo de alegria plena o
nascimento de Jair, que coincidiu com a promoo de Alan a dicono da
igreja. Por fim, nasceu Jssica, forte e linda como a me.
     Alan se lembrou do primeiro choro de cada um deles ao nascer.
Fra os sons mais maravilhosos que ouvira at ento. Quase no
conseguira controlar suas emoes diante dos "berrinhos" de seus filhos.
Jaime chorara um choro contido, abafado, como que apenas apara
anunciar: Estou aqui, tudo bem. Jair no chorara ao sair para a vida, mas o
mdico o fez manifestar sua indignao de sair do tero quentinho de
sua me com uma palmadinha em suas pequeninas ndegas rosadas.
Jssica fra a compensao. Chorara tanto que Alan ficara com medo de
que ela pudesse estar sentindo algo. Alguma dor excessiva, talvez. Mas
no era nada de mais, apenas um mimo que at hoje manifestava.
     Famlia maravilhosa...

                                 &&&

     Os pensamentos de Alan Xavier voltaram ao presente,  sala de
peas do desmanche de Nick Gradinno. Respirou fundo e fechou os
olhos. Queria estar junto de Melina e das crianas, no conchego
inigualvel da famlia.



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     Ajoelhou-se novamente. Tinha uma misso a realizar e teria que ser
forte e confiante acima de tudo. Tornou dizer a si mesmo que sua famlia
estava em timas mos: nas mos do Rei dos reis; Senhor dos senhores.
Julgou que estaria da mesma forma  medida que a sua confiana,
disponibilidade e principalmente a sua aliana com Deus continuasse
arraigada, inabalvel.
     Orou para se preservar assim.
     Estava certo de que um risco maior aproximava-se, implacvel.




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                                          Captulo 16



A   Companhia Telefnica de Melmar (MELMARTEL), ficava na rua
    Sheldon Cordeiro,  doze quarteires do edifcio do Canal Sete. Era
formada por dois pequenos prdios de dois andares, expostos ao tempo
e que pareciam negligenciados. Trs hastes suspendidas na frente do
estabelecimento exibiam trs bandeiras -- a do pas, a do estado e a da
companhia, respectivamente --, que esvoaavam ao vento da tarde fria.
     Axel se sentia um tanto deprimido por Caroline. Deixara-a na
garagem com olhos tristes e inexpressivos. Sabia que no parava de
pensar em Pablo e isso a deixava cada vez mais para baixo. Sentiu
vontade de dizer-lhe alguma coisa reconfortante, mas o tempo lhe era
importante e curto, ento achara melhor resolver o caso sobre o
telefonema na casa dos Kruller.
     Ele entrou pelas portas de vidro e caminhou at uma jovem atraente
de uniforme cor-de-vinho, que se sentava por detrs de uma mesa.
       -- Por favor, eu queria falar com Alberto Linhares. Ele trabalha na
sala de pesquisa.
     A jovem sorriu, polidamente.
     -- Senhor... -- ela olhou o nome de Axel em seu casaco. -- Brendel,
pode subir por ali -- disse, apontando para uma escadaria atrs de Axel
--, e ento entrar na terceira porta  esquerda. H uma placa indicando.
     -- Obrigado -- agradeceu Axel, distanciando-se.



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     Dirigiu-se  escadaria e subiu apressadamente de dois em dois
degraus. Ao chegar ao ltimo degrau, no perdeu tempo a olhar a
pequena placa acima de sua cabea indicando as respectivas salas
espalhadas pelo corredor, encaminhou-se diretamente para a terceira
porta  esquerda.
     Bateu na porta antes de entrar.
     Havia vrias fileiras de escrivaninhas uma ao lado da outra --
separadas apenas por compensados brancos com bordas pretas -- com
um computador sobre cada uma e diversos fichrios e blocos de
anotaes amarelos. Mais de uma dzia de funcionrios sentavam-se a
elas, trabalhando freneticamente para mostrar servio e receber alguma
gratificao por isso.
     Axel passou por algumas fileiras e nem mesmo era notado pelos
concentrados funcionrios, martelando os dedos nas teclas de seus
computadores. Ele avistou Alberto Linhares na quarta fila, sentado  sua
mesa com os olhos vidrados na tela do seu hardware.
     -- Como vai, Alberto? -- saldou Axel, por trs de seu amigo
franzino, com culos de aros grossos colado ao rosto, cara sugada e
feio de CDF, que parecia engrenado nas teclas do micro.
     Linhares virou-se com o olhar perplexo.
     -- No acredito! Axel The Kid Brendel, em pessoa? Que surpresa!
     Axel sorriu:
     -- Surpresa por qu? Como dizem, quem  vivo sempre aparece.
     -- Aparece que nada. Voc  uma prova disso! -- desdenhou
Alberto, meneando a cabea. -- Pensei que nunca mais voltaria a te ver.
Primeiro voc salva a minha vida e depois me abandona como se nada
tivesse acontecido.
     O policial foi abraado calorosamente pelo operador de
computador. Axel ainda se lembrava bem da cena do passado em que
Alberto estivera envolvido. Fra mais ou menos h dois anos atrs.

                               &&&

    Axel havia ficado de planto naquela noite, e esfregava os olhos
para que o sono no o arrebatasse. Bruno Gingal -- seu parceiro na
ocasio -- estava ao volante do carro-patrulha, atento, esquadrinhando
toda a rea do permetro por onde passavam. Axel fechou os olhos, a
conscincia ia desvanecendo. Foi quando um corpo, aparentemente
jovem, saiu voando por uma janela  dois quarteires  frente, fazendo o
vidro estilhaar e cair em pequenas partculas junto a ele. O som ecoou


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at a viatura e Axel arregalou os olhos, assustado com o barulho
estridente no mesmo instante em que Bruno acelerou o carro.
     Viram quando dois homens saltaram pela mesma janela, de onde
antes o corpo havia sido atirado, e um deles sacou uma arma. Bruno
Gingal acionou a sirene, que chegou aos ouvidos dos homens, desviando
sua ateno. O homem desarmado tambm tirou um revlver de sua
jaqueta e desferiu um tiro contra a viatura, quebrando o pra-brisa. Axel
olhou para Bruno, certificando-se de que a bala no o tinha atingindo.
Colocou meio corpo para fora pela janela do veculo e atirou contra o
homem com o revolver em punho. O homem caiu no mesmo instante
com uma mancha vermelha no peito.
     O homem que havia sacado a arma primeiro viu-se atordoado.
Atirou contra os policiais, mas as balas nem mesmo acertou o carro. Axel
percebeu que o homem tremia, e concluiu que ele estava sob efeito de
drogas.
     Agora, o fora da lei se viu acuado, ento se abaixou e ergueu-se
novamente, trazendo consigo o jovem que tinha sido jogado pela janela
momentos antes, que ainda se mexia. O homem encostou a arma na
tmpora do seu refm.
     Bruno parou o carro transversalmente e saram por uma nica
porta, ficando por detrs do veculo que serviria como proteo.
     -- Aqui  a polcia! -- gritou Axel. -- Largue a arma e no sair
ferido!
     O homem balanou a cabea, indignado.
     -- Largue a droga da arma voc, se no estouro os miolos dele! 
arrematou o drogado.
     A mo do homem estava trmula e, com toda a tenso, ele seria
capaz de apertar o gatilho inconscientemente.
     Bruno Gingal olhou para o seu parceiro.
     -- Kamikaze.
     Os olhos de Axel encontraram os de Bruno, j sabendo o que a
palavra dita significava.
     -- Tem certeza? -- indagou Axel.
     -- No vejo outra alternativa.
     Axel assentiu com a cabea e os dois policiais comearam a dar a
volta na viatura, cada um por um lado, e seguiram em direo ao
homem armado.
     -- No se aproximem! Eu estou avisando! -- advertiu o trmulo
homem.



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     -- Est tudo bem -- disse Bruno. -- Largue a arma e tudo ficar em
ordem.
     Eles caminharam cautelosamente, esperando qualquer ao, o
inesperado.
     -- Fiquem onde esto! -- berrou o homem. Apontou a arma na
direo de Bruno e puxou o gatilho. Houve um estampido e o policial
caiu para trs, desvanecendo num grito de dor. Axel tentou permanecer
calmo e concentrado no que faria a seguir. Mirou e atirou. A bala passou
 quatro centmetros do pescoo do jovem refm e acertou em cheio a
clavcula do homem armado, que caiu soltando a arma e tambm o
jovem.
     Axel correu at eles e pegou a arma do cho. Voltou-se para o
rapaz, de olho nos corpos inertes dos homens, outrora armados. Fitou o
jovem com vrios ferimentos no rosto.
     -- Ei, pode me ouvir? -- tentou.
     O jovem movimentou os olhos, ainda que por baixo das plpebras
cerradas. Tossiu e, por fim, com a respirao ofegante, balbuciou:
     -- Posso -- tentou dizer mais alguma coisa. Sua voz era um
sussurro. -- No... no quero mais viver assim... Por favor, ajude-me...
No quero morrer, mas... mas no posso mais viver deste jeito.
     Axel tentou um sorriso.
     -- No se preocupe -- disse serenamente --, vou ajud-lo.
     Neste instante, Bruno Gingal chegou por trs de Axel, conferindo
com o dedo o furo no seu uniforme e o projtil da bala fincado no colete
 prova de balas.
     -- Puxa! Voc nem mesmo deu uma olhada em mim, hein? --
reclamou com ar de indignao.
     -- Vi que voc no sangrou, ento conclu que o colete o tinha
salvado. Agora pare de reclamar e chame rpido uma ambulncia e o
auxlio de uma viatura.
     Assim foi feito.
     Dois dias depois, no quarto do hospital, Axel visitava o jovem.
     -- Lembra-se de mim?
     O jovem tremia sentado no leito.
     -- Lembro.
     -- Qual  o seu nome?
     -- Alberto. Alberto Linhares. Quando irei sair daqui? Eu j sinto
que estou melhor.
     -- Calma. Voc j est de alta.



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     Alberto no fez qualquer sinal de alegria ou comemorao, sua
expresso continuou inexpressiva. Disse:
     -- timo, no agento mais este lugar.
     Ele levantou-se da cama de metal, mas Axel segurou-o pelos
ombros e o fez outra vez sentar.
     -- H dois dias atrs, voc me pediu para ajud-lo, lembra-se?
     -- No -- mentiu Alberto, cinicamente --, mas voc pode me
ajudar agora me deixando ir embora. -- levantou-se, mas novamente
Axel o fez sentar. -- O que h com voc? Eu s quero dar o fora daqui!
Isso  contra a lei?
     Axel respirou fundo, fechou os olhos e pediu uma ajuda superior,
silenciosamente.
     -- No, cair fora daqui no  contra a lei -- disse. -- Mas, sair daqui
e entupir-se de drogas . -- Alberto nada falou para se defender. -- Voc
no quer admitir que me pediu ajuda porque quer desesperadamente
meter alguma droga dentro de si. No se lembra que declarou no
querer mais viver do jeito que vive? Pois vou refrescar sua memria.
Conversei com um dos seus "amigos", e ele disse que voc devia
dinheiro para eles. Um dbito das drogas. Eles iriam mat-lo, Alberto.
No eram seus amigos. Voc  apenas mais um drogado que vale menos
do que as drogas que consome. Por isso me pediu para ajud-lo. no
quer mais viver assim. Uma parte de voc quer a droga, mas a sua
conscincia, o seu lado humano e racional grita: No quero mais viver
assim! H dois dias atrs eu disse a voc que o ajudaria, e estou aqui
para isso.
     Axel observou que, ao acabar de falar, Alberto estava aos prantos.
Sua voz era engrolada quando disse:
     -- Ajude-me! Eu no tenho foras! Por favor, ajude-me!
     Axel levou Alberto a uma clnica de tratamento para viciados em
txicos, onde o internou. Ia visit-lo duas vezes por semana, e essa
rotina prolongou-se por um ano e meio, onde pde conhecer Alberto
Linhares a fundo. Soube que seus pais haviam morrido e ento morara
nas ruas at ento. Experimentara as drogas e se viciou.
     Depois que Alberto foi liberado da clnica, totalmente recuperado,
Axel levou-o para a casa de um amigo, que concordou em acolh-lo. O
policial o assegurou que era por um breve perodo.
     Uma semana depois, Axel visitou o ex-drogado e comunicou:
     -- Tenho uma notcia para voc.
     -- Diga logo o que ! -- pediu Alberto, quase uma splica.



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    Axel sorriu. Tambm na clnica, soube da intimidade que Alberto
tinha com computadores, e isso serviu ainda mais em sua ajuda.
    -- Voc est empregado na MELMARTEL. Vai trabalhar nos
computadores da ala de pesquisas.
    E foi assim que Alberto construiu um novo futuro para si.

                               &&&

     -- Mas a que devo esta visita super inesperada, porm desejada? --
a pergunta de Alberto interrompeu as lembranas de Axel.
     -- O que foi que voc disse?
     -- Perguntei a que devo essa bendita visita.
     Axel sorriu, desconcertado.
     -- Desculpe minha distrao, Linhares,  que venho estado muito
ocupado ultimamente, principalmente agora que estou num caso
especial, mas isso  segredo.
     -- Eu sei, no precisa me dizer nada.
     O agente tocou o ombro do jovem rapaz.
     -- Estou precisando de uma pequena ajuda sua.  por isso que
estou aqui.
     Alberto deu de ombros.
     -- O que voc desejar, meu caro. Se no se lembra, devo a minha
vida a voc.
     Axel meneou a cabea.
     -- Deixe disso, Linhares. Fiz a minha obrigao. Mas vamos parar
com isso, est bem? Desse jeito voc me deixar constrangido.
     -- Est bem -- murmurou Alberto.
     -- Bem, quero que voc verifique no computador os nmeros
discados por um certo telefone. Pode fazer isso?
     -- Claro que sim. Sei que  contra a lei, mas...  a lei que est
pedindo, no ? -- Axel no se pronunciou. Alberto levantou o
sobrolho, estalou os dedos e levou-os ao teclado. -- qual o nome do
proprietrio?
     -- Edson Kruller. Quero apenas os telefonemas dados hoje.
     -- Kruller, Edson -- repetiu Alberto, martelando as teclas, fazendo
aparecer instantaneamente as letras no monitor. Alguns segundos
depois, apareceu a palavra: "Aguarde..." Os dois esperaram, e ento
surgiu o nmero do telefone de Edson Kruller, o endereo da residncia,
a data da compra da linha, da instalao e a observao de uma conta do
ms atrasada. Alberto apertou mais algumas teclas e o programa pediu


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que aguardasse mais um instante. -- Isso tem alguma coisa a ver com o
seu caso?
     Axel hesitou.
     -- Humm... mais ou menos.
     A tela do monitor mudou e Alberto observou outro relatrio.
     -- Muito bem -- Linhares passou o dedo pela tela, esquadrinhando
todas as letras e nmeros, absorvendo as informaes. Axel pde
observar que havia horrios a um canto da tela e alguns nmeros ao
lado. Ele arriscou:
     -- Pode verificar para mim o telefonema dado mais ou menos das
trs s quatro horas de hoje?  exatamente este que estou procurando.
     Alberto Linhares regulou seus culos no rosto e averiguou o
relatrio do computador. Voltou-se para o policial com ar ctico.
     -- Voc tem certeza que esse  o horrio certo?
     -- Tenho. A fonte que me informou isso  da maior confiana --
confirmou Axel. -- Por qu?
     Linhares apontou para o monitor ao declarar:
     -- Porque, segundo o computador, no foi dado nenhum
telefonema nesse horrio. Houve um telefonema sim. O primeiro dado
hoje foi exatamente s quatro horas e quinze minutos.
     Axel encontrou-se concentrado.
     -- Pode verificar o nmero?
     -- Claro -- alguns dgitos rpidos. -- 2581-1410. Mas este no ...
     --  sim -- interrompeu Axel com o olhar distante --,  o telefone
da central. Foi o horrio em que o casal chamou a polcia.
     Neste momento, um vulto apareceu atrs de Alberto e Axel. Era um
homem robusto, de feio gentil e olhos salientes.
     -- J estou indo, Linhares -- informou ele.
     Alberto voltou-se para ele, olhando para o relgio de pulso.
     -- Humm... , j est na hora -- olhou para Axel. -- Mas acho que
ficarei mais um pouco com o Sr. policial aqui, Hector. O compromisso
vai ter que ser adiado. Sinto muito.
     Hector fez uma expresso de desapontamento.
     -- Est tudo bem, eu torno a marcar com elas um outro dia.
     -- Faa isso e eu irei da prxima vez. Agora no d.  importante
para eu ajudar este homem aqui. -- disse Alberto, apontando para Axel.
     -- Tudo bem, cara. Ento, at mais -- Hector afastou-se, deixando-
os novamente a ss.
     Os dois homens voltaram-se outra vez para o computador.
     -- Quem  ele?


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     -- Hector Ges. Ele trabalha ali -- Alberto mostrou a segunda
escrivaninha depois da que estava, na mesma fila. -- Somos amigos. Ele
marcou com duas moas um encontro para hoje. Mas no me importo de
perder essa e ajudar voc no que precisar.
     Axel abaixou a cabea, sem palavras.
     -- Ei, amigo! Desse jeito, quem ir fiar constrangido serei eu.
     O agente sorriu e fitou Alberto.
     -- Tudo bem. Valeu.
     Alberto Linhares apontou para o monitor e indagou:
     -- Mas voltando para c... O que voc acha que aconteceu aqui?
     Axel deu de ombros, meneando a cabea.
     -- No sei... Acho que alguma coisa no est certa aqui. No h
possibilidade de o computador est errado ou simplesmente ocultando
alguma informao?
     -- Como?
     Axel tentou ser mais Claro:
     -- Quero dizer... No pode existir outro meio para verificar esse
horrio? Tem que estar em algum lugar!
     Alberto balanou a cabea negativamente.
     -- Lamento, mas para chegar a essa informao este  o nico
caminho. Se no est aqui, no est em nenhum outro lugar.
     Axel ps a mo no queixo, fitando a brilhante tela como se
perguntasse: Aonde foi parar esse telefonema que estou procurando, Hein, Sr.
computador? Concentrou-se, procurando uma fresta para que pudesse
meter a mo e apalpar algo de concreto. Fechou os olhos por um
momento, e ento a fresta se abriu.
     -- H alguma possibilidade de algum ter alterado essa
informao?
     Alberto no pensou muito para responder:
     -- Um hacker talvez poderia fazer isso, mas provavelmente o
detectaramos, no sobrando muito tempo para que ele remexesse nos
arquivos.
     -- E algum daqui? Poderia algum que trabalha na MELMARTEL
fazer com que essa informao fosse deturpada?
     -- Algum daqui? -- a voz de Alberto estava impregnada de
espanto. -- No, no acho que algum daqui faria algo assim.
     Axel suspirou, desiludido.
     -- Certo. Ento, acho que isso  tudo.
     -- Se precisar de mais alguma coisa, pode vir aqui que estarei 
disposio.


                                    203
                                            Transformao - Naasom A. Sousa



     -- Obrigado, Linhares. Eu entro em contato com voc caso precise
de algo mais.
     Axel se ergueu sorrindo e apertou a mo de Alberto, que disse:
     -- V se no desaparece outra vez.
     -- Pode deixar -- disse o agente policial, caminhando para o
elevador.

                               &&&

     Como podia trabalhar para algum que nem mesmo conhecia?
Perguntava-se Hector Ges. Se descobrissem o que vinha fazendo, sua
vida estaria acabada! Seria literalmente expulso do seu emprego e
certamente preso. Ele tentou afastar esses pensamentos pessimistas. O
dinheiro era bom o bastante para que viesse a fazer o que fazia. Fra um
trabalho fcil que se podia dizer que era a sua rea. Bastou apenas
receber o telefonema do contato dizendo o que tinha que ser feito. Edson
Kruller. Nunca tinha ouvido falar. As instrues eram para que apagasse
um telefonema. O possvel horrio foi-lhe dado, assim como o nmero
que fra discado. Era tudo o que precisava saber. Foi um trabalho fcil.
     Encontrava-se agora num telefone pblico, distante da companhia
telefnica.
     -- Quem est falando? -- inquiriu a voz do outro lado da linha.
     -- Hector Ges. Quero falar com Lucas.
     Ges conscientizou-se, enquanto a pessoa do outro lado da linha
deixou o telefone para chamar seu subchefe, que tudo o que sabia sobre
o homem para quem trabalhava era que ele era algum poderoso que
sabia gratificar muito bem aqueles que colaboravam, mas tambm sabia
lhe dar, mais do que ningum, com aqueles que no cooperassem e que
falassem demais. Hector Ges sabia muito bem o que significava a
palavra "lhe dar" para no querer experimentar isso na prtica.
     Lembrava-se que Lucas o procurara lguns meses atrs, atravs de
um telefonema.

                               &&&

    -- Hector Ges?
    -- Sim, quem fala?
    -- Meu nome no importa no momento, Sr. Ges. O que importa 
que tenho para voc a oportunidade de sua vida.
    Isso soara como msica aos ouvidos de Hector, mas ele hesitara.


                                  204
                                             Transformao - Naasom A. Sousa



     -- Do que voc est falando?
     -- Me encontre no restaurante Quaid, esta noite -- dissera Lucas,
que desligara em seguida.
     Ges ficara olhando para o fone mudo em sua mo, especulando se
aquilo teria sido um trote. Uma pequena parte da conversa martelava
em sua mente: Tenho para voc a oportunidade da sua vida. Ges
sorrira, ctico, e conclura que certamente se tratara de um trote. Quem
se importaria em dar uma oportunidade de uma vida a ele? Afundou
numa poltrona na sala e fechou os olhos. Abriu-os no instante seguinte
com o pensamento: Mas... e se no for um trote?
     Hector Ges sempre fra o queridinho da famlia e no se
orgulhava nem um pouco disto. Seus pais eram pobres, assim como seus
avs e bisavs tinham sido. Ges odiava-os por isso. Seu pai no tinha
uma mnima ambio na vida e o mesmo acontecia com sua me e seus
dois irmos mais velhos. Todos moravam sobre o mesmo teto -- uma
casinha simples -- e todos com empregos miserveis com salrios
miserveis e acomodavam-se com isso. Ele concluiu que definitivamente
no fazia parte do mundo dos Ges. Arranjara o emprego na companhia
telefnica de Melmar e mudara-se para um pequeno apartamento no
subrbio da cidade. Construiria o seu prprio mundo longe daqueles
que se denominavam sua famlia, um mundo onde no haveria lugar
para acomodaes, onde a ambio seria o trampolim para a glria.
Ges iria esperar e, na primeira oportunidade, aliceraria seus planos
para a construo do seu imprio.
     Naquele momento a oportunidade estava  sua frente, na forma de
um telefone.
     Ges erguera-se da poltrona e encaminhara-se para o seu quarto.
Meia hora depois, estava a caminho do restaurante Quaid.
     Trajara uma camisa de seda marrom e uma cala de linho preta,
com sapatos de camura calando os ps. Se quem iria encontr-lo fosse
a pessoa a empurrar-lhe para a vida to desejada, teria que se apresentar
de maneira polida, com traos marcantes, pensara ele.
     Ao adentrar as portas de vidro automticas, Hector Ges fra logo
abordado por um homem de terno escuro e gravata borboleta, que
sorrira e informara:
     -- Esto esperando-o, Sr. Ges. Siga-me, por favor.
     A tpica decorao do Quaid no chamara nenhum pouco a ateno
de Ges. Sua mente estava impregnada de pensamentos tensos. Como
poderia, um homem que nunca tinha visto antes, saber o seu nome? Seguira o



                                   205
                                           Transformao - Naasom A. Sousa



homem de terno, que o levara a uma mesa reservada no canto do
recinto, um tanto escuro na opinio de Ges.
     Havia trs homens  mesa. Um deles indicara-lhe uma estofada
poltrona.
     -- Sente-se, Sr. Ges. Estvamos  sua espera.
     Ges reconhecera a voz de imediato: a mesma que ouvira ao
telefone. Forara um sorriso e sentara-se.
     -- Meu nome  Lucas, Sr. Ges, e irei direto ao assunto -- ele
apontara para os dois homens ao seu lado. -- Estes so meus amigos,
que juntos comigo esto interessados em seus servios.
     -- Meus servios? -- a voz de Hector era de incredulidade.
     Lucas meneara afirmativamente a cabea.
     -- Sabemos que voc trabalha na ala de pesquisas da MELMARTEL,
que lida com os computadores da companhia, e  exatamente desses
servios que necessitamos. Garanto que voc ser muito bem gratificado
por todo o trabalho que fizer a nosso favor. Foi isso o que denominei
pelo telefone como a oportunidade da sua vida, pois no encontrar
outra proposta to pomposa a esse nvel, contando que o que voc far
ser coisa simples levando em conta a sua experincia.
     Ges hesitara:
     -- Mas para quem exatamente irei estar trabalhando? Quero dizer...
no conheo vocs... eu...
     -- Somos parte de uma organizao secreta, Sr. Ges. Por enquanto
 tudo o que o senhor deve saber.
     -- E... se eu recusar?
     Lucas sorrira:
     -- Sr. Ges... desculpe-me, mas acho que no seria to estpido a
esse ponto. Como j disse, para o senhor ser um trabalho muito fcil.
     Ges no soubera, mas a equipe de Lucas havia levantado sua ficha
completa, desde sua infncia at aquele momento. Conheciam sua vida
como se fosse um simples quadro exposto numa sala, por onde todos
passavam, mas no davam a mnima para ele, pois j tinham todos os
traos de sua pintura decorados na mente. Estavam cientes de sua
insatisfatria vida e sua expectativa de uma guinada ou impulso para
uma outra, ao seu ver, absolutamente cabvel.
     Sentira-se tentado a perguntar por que o tinham escolhido em meio
a todos os funcionrios da ala, mas permanecera em silncio. Receara
que aqueles homens poderiam no gostar de muitas perguntas, e pior,
que acabassem desistindo de querer os seus prstimos. Fizera uma



                                  206
                                           Transformao - Naasom A. Sousa



expresso de quem estava lutando intimamente para tomar posio no
assunto, quando a deciso j estava tomada. Finalmente ele dissera:
     -- Tudo bem. O que exatamente os senhores querem que eu faa?
     Com um sorriso no rosto, Lucas levantara uma taa com
champanhe e entregara a Ges. Erguera uma taa prpria, junto com os
demais homens  mesa.
     -- Por enquanto, Sr. Ges, s queremos realizar um brinde a esta
aliana e ao seu futuro.
     Sim, ao meu futuro, repetira Hector Ges, silenciosamente em
pensamento.

                               &&&

    A voz voltou  linha:
    -- Lucas falando. O que deseja, Ges?
    Hector respirou fundo e ento declarou:
    -- Fiz o que voc mandou. Tudo ocorreu bem.
    -- Apagou tudo?
    Que droga! J no falei que fiz o trabalho?!
    -- Sim.
    -- timo. Isso ajudar na sua gratificao.
    Ges sentiu uma pontada de satisfao, ento se lembrou de mais
um detalhe:
    -- Lucas, um policial apareceu na ala de pesquisas a pouco e, pelo
que pude perceber, ele estava  procura do seu telefone.
    -- E o que aconteceu?
    -- Nada. Eu j tinha apagado o telefonema.
    -- E voc sabe qual  o nome do tal policial?
    -- Humm... Brendel. Axel Brendel.
    Houve um instante de silncio na linha.
    -- Muito bem -- disse ento Lucas --, fez um bom trabalho.
Continue assim e qualquer nova informao entre em contato comigo
novamente.
    A linha ficou muda e mais uma vez Ges ficou olhando para o fone.
    S quero ver agora quanto vai ser o tamanho da minha gratificao,
miservel, murmurou por fim.




                                 207
                                            Transformao - Naasom A. Sousa




                                         Captulo 17



E   stava sentada numa poltrona desconfortvel, com os olhos fixos num
    canto do quarto e a mente a vagar.
     A respirao de Caroline era difcil. Fitava Pablo deitado sobre o
leito do hospital sem dar qualquer sinal de vida, a no ser pelas batidas
do seu corao marcadas pelo monitor cardiolgico. Ficara uma hora de
olhos vidrados, esperando por qualquer variao dos batimentos, mas
isso no acontecera.
     Fechou e suspirou profundamente. Levantou-se e caminhou at o
leito. Ento pde contemplar os traos do rosto do agente inconsciente e
sua expresso inanimada entre a meia luz que o abajur ao lado da cama
produzia.
     Com as mos trmulas, tocou as de Pablo e tambm seus lbios,
como que esperando que viesse a se mexer naquele momento.
     Baixou a cabea como que se entregando  exausto. Fechou os
olhos e comprimiu-os, tentando espantar o sono que h horas tentava
espantar. Foi ento que ouviu um pequeno barulho vindo do corredor l
fora. Para ser mais exato, era barulho de passadas. Algum vinha
adejando pelo corredor vagarosamente. Ou seria cautelosamente?
Caroline ouviu as passadas se aproximarem do quarto, at que cessaram
ao lado da porta do cmodo. Ela abriu rapidamente os olhos e viu uma
sombra pelo vidro da porta. Quase que imediatamente os seus nervos



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entraram em colapso e o suor fluiu de seus poros. A maaneta comeou
a ser girada, e ento a porta foi sendo aberta lentamente.
     Num flashe de luz pensou em Pablo e naqueles que queriam mat-
lo. Talvez, aquele seria o momento ideal para completarem o plano.
     Era o fim, pensou estremecendo.

                               &&&

     O carro patrulha foi estacionado  dois quarteires da linda casa
amarela com jardim florido e grama viosa que se localizava no meio do
quarteiro da rua 12 do conjunto Orqudea.
     Axel parou em frente  porta de mogno da casa, olhou para o seu
relgio de pulso, constatando que eram exatas oito horas. Apertou a
campainha e esperou, at que uma bonita mulher loira, de olhos
castanhos e lbios carnudos abriu a porta, exibindo um largo sorriso.
     -- Estava  sua espera -- disse ela, adiantando-se e abraando-o.
     Ele apertou-a contra o seu corpo e sussurrou:
     -- Posso mesmo acreditar nisso?
     -- Pode apostar que sim.
     E os dois entraram na casa juntos.

                               &&&

      Sandra Evans era uma mulher simplesmente deslumbrante. Bonita
e independente, era uma das mais bem sucedidas advogadas
criminalistas da cidade. Dotada de um corpo bronzeado e muito bem
torneado, construiu sua imagem profissional no s custas de sua beleza,
mas sim de seu esforo e trabalho, que, muitas vezes, tomaram-lhe
penosas noites de sono, muitas delas irrecuperveis.
      O primeiro encontro fra num julgamento, num caso simples de
assassinato. O tribunal encontrava-se cheio, mas no lotado. O acusado
era um homem de pele clara, olhos negros intrigantes, de uma estatura
baixa e corpo forte. Tinha aparncia oriental. A vtima havia sido uma
mulher executiva com quem mantinha h algum tempo um caso. O
motivo do crime: cime.
      No testemunho do ru, fra relatado pelo prprio, que havia
flagrado a vtima aos beijos e abraos com um outro homem. Partira
para tomar satisfaes, mas acabara sendo humilhado pela amante e
pelo homem que a acompanhava. Segundo ele, isso o deixara muito
irritado, mas no ao ponto de fazer com que cometesse assassinato.


                                  209
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     Isso foi sendo desmentido no decorrer do julgamento, e a cartada
final para que isso acontecesse foi dada com o testemunho de um -- na
poca -- policial.
     O tira negro e atltico sentou na cadeira das testemunhas e prestou
juramento com a mo direita sobre a bblia.
     O juiz, um homem de meia idade e de cabelos j um tanto grisalhos,
olhou para Sandra Evans e anunciou:
     -- A testemunha  da acusao.
     A advogada levantou-se e caminhou at ficar bem prximo do
policial. Fitou-o por um momento e pediu:
     -- Diga audivelmente o seu nome completo e qual a sua patente
para que todos possam ouvir, por favor, policial.
     -- Pois no. Meu nome  Axel Brendel e sou um dos oficiais
encarregados de investigaes criminalistas da cidade de Melmar.
     -- Para ser mais claro, o senhor  um detetive, no  mesmo?
     -- Isso. Pode se dizer que sim.
     Sandra Evans meneou a cabea, capitulando e fazendo uma busca
mental em suas anotaes que estavam em cima de sua mesa,  dois
metros de onde estava.
     -- Detetive Brendel -- continuou ela --, reconhece o ru Sr.
Maxuel? -- apontou para o acusado.
     -- Sim, reconheo.
     -- Poderia dizer de onde?
     -- Eu o prendi ms passado sob acusao de assassinato.
     -- Humm-hum -- Sandra aproximou-se dos jurados e olhou para
cada um deles e repetiu: -- Sob acusao de assassinato. -- pausou para
que a frase penetrasse em suas mentes. -- Detetive... o acusado, Sr.
Maxuel, declara-se inocente da acusao. Eu gostaria de saber, e creio
que tambm todos os senhores jurados e os demais que aqui se
encontram, se o senhor concorda com a afirmao do ru.
     O advogado de defesa levantou-se da cadeira num pulo.
     -- Protesto, meritssimo...
     O juiz levantou a mo imediatamente, no deixando que o
advogado continuasse. Focou o rosto de Sandra.
     -- Dra. Evans, reformule a pergunta. Trabalhamos aqui com provas
e no com o que uma testemunha acha ou deixa de achar.
     -- Perdo, meritssimo. -- voltou-se para Axel. -- Detetive Brendel,
o senhor tem provas de que o ru  culpado, refutando sua declarao
de inocncia?
     Axel suspirou:


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                                             Transformao - Naasom A. Sousa



      -- Sim, tenho -- respondeu.
      -- O senhor poderia nos quais provas so essas?
      -- Muito bem. J mencionei que sou detetive, e um profissional
desta natureza busca provas concretas para formar uma acusao
formal, e isso foi feito por minha parte no caso do acusado Sr. Maxuel.
      Sandra concordou com a cabea.
      -- O senhor poderia relatar-nos quais foram os fatos apurados e
provas recolhidas que confirmam a culpa do Sr. Maxuel?
      -- Sim. Humm... -- Axel olhou para o teto do recinto feito de alvas
placas de gesso, buscando a resposta requerida. -- Como o prprio Sr.
Maxuel j disse, a vtima, Sta. Cardoso, era sua amante e, creio que no
levava muito a srio a palavra fidelidade. Ele encontrou-a com outro e
isso o deixou frustrado e deveras irritado. Isso, segundo testemunhas,
isto , pessoas que trabalham em lojas e carrinhos de cachorro-quente
que ficam na praa onde aconteceu a discusso, isso ocorreu s quatro
da tarde. Depois de presenciar a cena nada agradvel, o Sr. Maxuel fra
tomar satisfaes e acabara sendo humilhado. Dirigiu-se ento para a
sua casa e l resolveu que aquilo no deveria acabar daquele jeito. Ele
iria terminar por cima...
      -- Protesto! A testemunha no pode saber o que se passou no
ntimo do meu cliente! No pode descrever seus sentimentos! -- disse o
advogado de defesa em voz alta quando se levantou de sua cadeira num
segundo.
      -- Aceito. Detetive Brendel, o senhor tem a capacidade de ler
mentes? -- indagou o juiz.
      -- No, meritssimo, mas...
      -- Nada de mas, detetive. Aqui no trabalhamos com suposies.
Que isso no se repita. -- o juiz olhou para o escrivo. -- Que as ltimas
palavras da testemunha sejam retiradas dos altos. -- voltou-se para
Sandra e fez sinal para que continuasse.
      -- O que mais foi apurado, detetive?
      Axel inspirou profundamente antes de relatar:
      -- A vtima foi assassinada com cinco golpes de faca. Foi atingida
duas vezes na altura do peito, uma nos olhos, outra no pescoo e outra
na altura das costelas. Tudo isso aconteceu no apartamento da Sta.
Cardoso. Apuramos que o Sr. Maxuel abordou-a quando adentrava em
sua residncia. Segundo testemunhas que residem no mesmo edifcio
que a vtima, antes do crime, foram ouvido vozes alteradas do
apartamento da Sta. Cardoso: as dela e de um homem que parecia muito



                                   211
                                            Transformao - Naasom A. Sousa



descontrolado. Minutos depois, foram ouvido gritos, e ento no foi
ouvido mais nada.
     "O sndico do edifcio foi quem encontrou a Sta. Cardoso morta em
seu apartamento. Mais precisamente em seu quarto, sobre sua prpria
cama.
     "Fomos em busca, ento, dos homens com quem a Sta. Cardoso j
havia se relacionado. Enquanto isso, alguns outros policiais revistavam
todo o edifcio em busca de alguma evidncia que pudesse apontar o
acusado. Encontramos o Sr. Gerson Rezende, aquele com quem a vtima
estava quando foi flagrada pelo Sr. Maxuel, e constatamos que ele se
encontrava numa reunio de negcios no horrio estipulado pela percia
para o horrio do crime. Encaminhamo-nos aos outros suspeitos e todos
tinham libis. Concentramo-nos, ento, no Sr. Maxuel e o interrogamos.
Ele dissera que estava com uma mulher na noite do assassinato. Fomos
em busca da mulher e isso foi confirmado.
     -- Ento quais so os fatos que confirmam a culpa do Sr. Maxuel?
-- quis saber Sandra Evans.
     -- Continuamos concentrados em todos os suspeitos, pois tnhamos
certeza de que o assassino estava relacionado com a Sta. Cardoso de
modo sentimental. At que descobrimos que a mulher com quem o Sr.
Maxuel alegara ter passado a noite tinha ficha na polcia. Tratava-se de
uma prostituta.
     O advogado de defesa ergueu-se.
     -- Protesto! O fato de a mulher ser uma garota de programa no
tem nada...
     -- Isso  parte fundamental do depoimento, meritssimo! --
interrompeu Sandra.
     -- Negado -- declarou o Juiz. -- Continue, detetive Brendel.
     Axel prosseguiu:
     -- Procuramos novamente a mulher, pressionamos e ento ela nos
contou que o acusado pagou-a para que dissesse que havia passado a
noite do crime com ele. Pedimos a priso preventiva do Sr. Maxuel, e foi
ento que encontramos a arma do crime jogada  dois quarteires do
edifcio, num beco repleto de lixo e numa incrvel coincidncia ocorreu:
as digitais do Sr. Maxuel estavam nela.
     Sandra ficou de frente para o jri e perguntou bem devagar, para
que a indagao penetrasse no consciente de cada um dos jurados.
     -- Acha mesmo que isso tenha sido coincidncia, detetive?
     -- Est brincando? Claro que no!



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                                            Transformao - Naasom A. Sousa



    A advogada, com expresso satisfeita ao observar a evidente
condenao no rosto de cada pessoa do jri, disse:
    -- Sem mais perguntas, meritssimo -- dirigiu-se at Axel, e com
voz suave e olhar insinuante, falou: -- Obrigado pelo seu testemunho,
detetive Brendel.
    Em seguida, Axel foi igualmente interrogado pelo advogado de
defesa que tentou reverter a m impresso deixada pelo testemunho,
mas nada adiantou.
    A causa estava ganha.
    O acusado foi sentenciado a cinqenta anos de priso naquele
mesmo dia.

                               &&&

     Ao sair do tribunal, Axel dirigiu-se para sua viatura na garagem do
frum. Inseriu a chave na tranca da porta do veculo, quando uma voz
feminina chamou-o. Virou-se e observou que Sandra Evans caminhava
ao seu encontro.
     -- Pelo que percebi, voc  um timo detetive, Sr. Brendel --
elogiou a advogada.
     -- No fao nada alm do meu trabalho.
     -- No posso me conter. Tenho que admitir que foi o seu
testemunho que condenou Rodrigo Maxuel.
     -- Ele se condenou quando cometeu o crime, Dra. Evans. Eu apenas
ajudei para que o criminoso pudesse pagar pelo seu crime.
     Sandra balanou a cabea num gesto de admirao:
     -- Sandra. Chame-me apenas Sandra -- olhou para o distintivo
brilhante preso ao uniforme azul. -- Irei dar um jantar em minha casa
hoje  noite para comemorar o ganho desta causa. Gostaria que fosse.
     Axel observou no fundo dos olhos castanhos e contemplou o rosto
bronzeado que parecia liso como o de um beb. Tinha que admitir,
aquela mulher era linda. Pensou em Tina e Leonardo. Tinha prometido
chegar cedo em casa para irem juntos a um restaurante. No podia
deix-los esperando.
     -- Tudo bem -- disse. -- Que horas vai ser?

                               &&&




                                  213
                                           Transformao - Naasom A. Sousa



     Fra o primeiro telefonema de uma srie incontvel; a primeira
mentira do gnero. Dissera que havia acontecido um assassinato em
uma boate no subrbio. Teriam que cancelar a ida ao restaurante.
     -- No podem mandar outra pessoa? -- protestara Tina.
     -- Infelizmente no, querida -- respondera Axel, num tom triste.
     O que estou fazendo? Perguntou-se Axel. Estou mentindo para minha
esposa para jantar com pessoas estranhas!
     -- Leonardo ir ficar desapontado -- informou Tina.
     -- Explique a ele por mim, est bem?
     -- Certo.
     -- Assim que eu puder, irei para junto de vocs, querida. At mais
-- disse o policial.
     Final da ligao.

                               &&&

      Axel tomara seu banho noturno na central de polcia e vestira um
uniforme limpo que mantinha em seu armrio. Colocara uma colnia
francesa, passara rapidamente uma escova por seus cabelos crespos.
Resolvera o caso Rodrigo Maxuel como um detetive de competncia e
iria ao jantar como tal.

                               &&&

     Estacionou a viatura em frente  casa de Sandra Evans e notou que
no havia nenhum outro veculo parado o meio fio. Perguntou-se por
qu. Desceu do carro e dirigiu-se  porta da frente da bonita casa
amarela de grama viosa e bem aparada. Apertou a campainha trs
vezes e esperou. Ouvindo o barulho de um carro se aproximando,
calculou que seria algum convidado, mas o automvel passou direto,
rua abaixo.
     Levou o dedo de volta  campainha, porm, antes que pudesse
pression-la, a porta foi aberta lentamente e Axel pde diferir as
silhuetas de Sandra na penumbra da sala.
     -- Que bom que veio -- declarou ela. -- Estava  sua espera.
     Introduziu Axel na sala, que estava iluminada apenas por dois
pequenos abajures.
     -- Onde est todos os convidados? -- indagou o detetive. -- Todos
eles tm o costume de se atrasar?
     Sandra sorriu. Era uma mulher obstinada.


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      -- Que convidados? -- ela franziu a testa, surpresa. -- disse a voc
que daria um jantar para comemorar, e lhe convidei. No lhe falei nada
sobre convidados.
      Axel enrubesceu. Tentou falar algo:
      -- Bem, eu... no sabia. Eu...
      Sandra tornou a sorrir.
      -- No se preocupe -- tranqilizou. -- Eu disse que iria dar um
jantar e um jantar  o que teremos. -- Comeou a sair da sala e entrar em
outro cmodo da casa que parecia ainda mais escuro. Voltou-se para
Axel e chamou-o com o dedo.
      Observando-a, Axel pde notar que usava uma blusa de algodo
sem mangas, que ficava colada no corpo e uma saia escura -- que no
dava para definir a cor por causa da escassez de luz no aposento -- que
descia at os joelhos bem torneados. Pde ver a sombra de Sandra parar
ao lado de uma mesa de jantar com um castial no centro dela que
suportava trs velas acesas. Um banquete o esperava l.
      Dois pratos emborcados, ladeados por talheres reluzentes cor-de-
ouro e taas de cristal ocupavam cantos opostos da mesa coberta por um
pano macio e colorido, e para complementar a decorao, uma garrafa
de vinho branco, que cintilava  luz das velas, ocupava um lugar de
destaque. Havia apenas duas cadeiras  mesa, e no pensamento de Axel,
parecia que elas exibiam seu nome e o de Sandra, j que somente os dois
se encontravam ali.
      O jantar da noite estavam em tigelas de porcelana -- arroz decorado
esplendidamente, salada mista com atum, frango  espanhola com
creme de milho. Tudo aquilo fez Axel salivar.
      Sandra Evans indicou-lhe sua cadeira e Axel caminhou at ela e
sentou-se. Sandra da mesma forma acomodou-se, ficando de frente para
ele, ficando assim, separados apenas pela mesa redonda.
      A advogada pegou o prato de Axel, comeou a pr o arroz num
lado da porcelana, e logo ps a salada, sem dizer uma nica palavra.
      Axel cortou o silncio.
      -- Foi voc quem fez estas delcias? -- perguntou inalando a
fumaa que saa dos alimentos quentes. -- Humm... o cheiro 
maravilhoso.
      Sandra sorriu. Seu sorriso era radiante.
      -- Mame me ensinou o bsico. O resto eu aprendi com esforo,
entre alguns acidentes, quero dizer, algumas panelas queimadas. --
colocou o prato de volta  frente de Axel, e o movimento seguinte foi



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encher a sua prpria porcelana com as delcias espalhadas sobre a mesa.
-- Mas... me diga, detetive: h quanto tempo ocupa o seu ofcio?
      Essa pergunta foi a que deu incio a vrias outras que se seguiram
durante todo o jantar. Sandra era amvel e divertida, sempre sorrindo
entre suas perguntas e as respostas de Axel. Constantemente, enchia a
taa de seu convidado de vinho branco, nunca deixando que ela viesse a
secar. Falou ento sobre o seu trabalho. Os grandes e pequenos casos
que a ajudaram na rdua escalada rumo ao status de uma advogada de
respeito, nunca deixando escapar um ar de quem estava se gabando.
Axel admirou-a.
      Ela ps-se a falar de sua famlia. Disse que era de uma famlia
ecltica. Tinha trs irmos homens (era filha nica). Um era msico
clssico, outro era um corretor de seguros bem sucedido e o mais moo
dos trs era um sargento das foras armadas. Seu pai havia sido
proprietrio de uma loja de antiguidades, mas, com a aposentadoria,
viajou para longe de tudo e de todos, e toda a famlia somente se reunia
no natal na casa dos velhos, mas se comunicavam s vezes por telefone.
      -- Famlia interessante -- comentou Axel, e pde ver aquele sorriso
encantador novamente.
      Houve um outro instante de silncio.
      -- E voc? -- falou ento Sandra.
      -- O qu?
      -- Sua famlia! Como ?
      Agora foi a vez dele rir.
      -- Humm... bem... No vejo meus pais a muito tempo, e meus
irmos nem se fala. Estou mais apegado a meu filho e minha esposa.
      -- Oh! Voc  casado! No havia percebido -- disse com expresso
de surpresa, olhando para o dedo de Axel sem aliana.
      O policial percebeu o olhar da advogada.
      -- No sei onde a deixei. Talvez no armrio, antes de tomar banho
para vir at aqui. Eu tiro toda vez que tomo banho,  uma mania
estranha que tenho.
      Sandra meneou a cabea como se dissesse: Eu entendo.
      -- Como se chamam?
      -- Leonardo e Tina.
      -- Bonitos nomes -- elogiou Sandra, tomando um gole do seu
vinho.
      -- Tambm acho -- Axel acompanhou-a, levando sua taa at a
boca.



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     Com um suspiro, Sandra encheu novamente as taas, ento
declarou em tom triste:
     -- Sorte sua.
     Axel franziu o cenho.
     -- Desculpe-me, no entendi.
     -- Voc tem algum em quem pode confiar; pode conversar e
contar seus problemas; passar o tempo e se divertir. Voc  uma pessoa
de sorte.
     -- No venha me dizer que voc no tem ningum assim.
     -- No tenho -- disse Sandra, baixinho.
     -- Impossvel -- admirou-se Axel. -- Voc  uma mulher linda, de
companhia agradvel, super divertida, independente. Qualquer homem
pagaria para estar ao seu lado!
     Sandra suspirou inibida.
     -- No  bem assim. O meu tempo , bem dizer, todo gasto em meu
trabalho. Quase no resta para me divertir ou conversar com algum.
Quem iria querer se envolver com uma pessoa assim?
     -- Voc est exagerando, Sandra.
     Mas na realidade no, e Axel sabia disso, pois acontecia o mesmo
consigo. O trabalho consumia a maior parte do seu tempo. Quase no
sobrava tempo para a famlia. Agora os sentimentos de compreenso e
pena tomaram conta do policial com relao  Sandra.
     -- Qual foi o caso mais... como posso dizer... marcante? -- indagou
Sandra, tentando mudar de assunto e pegando Axel de surpresa.
     Axel pensou por um momento, at dizer:
     -- Acho que tive vrios casos... vamos dizer, marcantes, mas de
todos eu diria que foi o de um rapaz que dependia de drogas. Seu nome
 Alberto Linhares -- contou toda a histria. Desde o corpo de Linhares
sendo jogado pela janela at seu emprego na companhia telefnica.
Notou os traos de surpresa e fascnio no rosto de Sandra. -- Escolhi
esse caso -- continuou --, porque da surgiu um lao de amizade que
continua at hoje.
     -- Fascinante! -- exclamou com sorriso estonteante nos lbios.
     Axel fitou sua taa de vinho antes de tomar mais um gole.
     -- E voc? Qual o caso que mais lhe marcou?
     Ela balanou a cabea negativamente.
     -- Nenhum?
     -- No em especial.
     -- Acredito! -- desdenhou o policial, ctico.



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      A advogada olhou bem dentro dos seus olhos, como algum
tentando invadir a mente; descobrir seus mais ntimos segredos.
      -- Srio -- afirmou ela, contrita. -- Alis, especial mesmo, est
sendo este momento. Estar com voc  maravilhoso. -- tornou a sorrir.
-- Agora sim, est se formando um momento marcante. E, quando
algum fizer uma pergunta mais ou menos do jeito da que voc fez, j
irei ter uma resposta na ponta da lngua.
      Axel riu.
      -- Voc  uma figura, sabia?
      Sandra estava com uma expresso sria ao dizer:
      -- No. Voc  que . Uma pessoa digna, confivel; para no me
prolongar, em resumo: maravilhosa. -- ergueu-se, postou-se ao lado
Axel e, sem tirar os olhos dos dele, tocou-lhe o rosto com a mo macia e
delicada. Com voz rouca e quase incompreensvel, declarou: -- Tenho
que admitir que ao te ver no banco das testemunhas, no tribunal, algo
me tocou. Voc me chamou a ateno... de alguma forma. Tanto que...
-- olhou para a mesa repleta de pratos e enfeites -- fiz isto... para voc.
      Axel no se mexeu nem piscou sequer.
      -- Bem, eu...
      -- No precisa dizer nada -- disse ela. -- Eu... eu queria... -- No
pde dizer mais nada. Baixou o rosto at encontrar o de Axel e beijou-o.
      Os dois seguiram os seus desejos e se deixaram levar pela emoo.
J estavam ali, entregues, dados um ao outro. Um sentindo o que o outro
queria, este sabendo o que aquele pedia sem que ele pronunciasse
qualquer palavra. Seus segredos j estavam desvendados. O adultrio
havia sido consumado.

                                 &&&

     Agora estavam novamente juntos, deitados sobre a cama. Axel
fitava o teto forrado de madeira envernizada; Sandra se encontrava
adormecida, com a cabea descansando sobre seu peito, subindo e
descendo de acordo com sua respirao. Ele olhou-a e reconstituiu
mentalmente a primeira vez, h seis meses atrs. Ela no mudara nada.
Continuava linda e sedutora.
     Fechou os olhos por um momento e ento tornou a abri-los. Sentia-
se um tanto confuso. Na primeira vez, pensara muito em Tina durante o
jantar e at a declarao de Sandra. Ento, logo em seguida, tudo dera
lugar ao desejo, e foi assim at quele momento.
     At quele momento, repetiu em seu pensamento.


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     Durante seis meses no se importava em trair Tina. Podia dar amor
s duas, pensava. Quando estava ao lado de Tina, no pensava em
Sandra, e quando se encontrava com Sandra, Tina no existia. Amor
duplo! Costumava dizer a si mesmo. Mas agora, deitado ali, estas
palavras no faziam o menor sentido. Por qu? Durante seis meses
inteiros, essa fra sua frase predileta, e agora... nada.
     Passou a mo na testa e percebeu que estava suando. Sandra
mexeu-se subitamente e ele alisou suas costas para acalm-la -- talvez
de algum sonho ruim. Ela tornou ao seu estado imvel; ele a fitar o teto.
Respirou profundamente com um pensamento: Melhor dormir. Amanh
nem irei mais lembrar disso. O sentimento de culpa provavelmente iria
sumir pela manh, pensou.

                                &&&

     Acordou com batidas na porta. Estreitou e esfregou os olhos,
tentando afastar deles o que parecia uma nvoa esbranquiada.
Levantou-se e arriscou se equilibrar antes de dar o primeiro passo at a
porta. Parecia que fra nocauteado. Estava precisando de um sono tanto
assim? Tentou o primeiro passo e, ao firmar o p, concluiu que j estava
bem lcido.
     Alan abriu a porta da sala de peas e Carlos estava atrs dela. Seus
olhos estavam vermelhos e suas roupas no se encontravam
amarrotadas. Alan perguntou-se se ele havia dormido ou passado o
tempo todo conversando com Nick Gradinno. Tempo! Quanto tempo
fazia ali dentro?
     -- Que horas so?
     Carlos no precisou olhar relgio algum para responder:
     -- Onze e meia da noite. Hora de irmos.

                                &&&

     A oficina estava deserta -- a no ser por estarem ali Nick Gradinno,
Carlos e Alan. Todas as atividades estavam suspensas, pelo menos
temporariamente. As mquinas de soldar no soltavam as constantes
fascas e os martelos estavam calados, no desamassando assim, as
carrocerias avariadas. Alan achou estranho tudo aquilo, mas no ligou
muito. No tinha mesmo nenhuma idia de como aquele negcio
funcionava. Talvez estivesse na hora da folga, pensou. Mas ento: Desde
quando o crime entra de folga?


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     Nick acendia um cigarro enquanto Carlos comeava a se despir sem
qualquer cerimnia na frente dos dois outros homens. Voltou-se para
Alan.
     -- Tire a roupa -- ordenou.
     Alan no entendeu a finalidade daquilo, mas obedeceu. Retirou a
camisa e acompanhou Carlos, tirando as calas. Olhou de volta para
Nick Gradinno e viu-o engatilhando uma arma que aparentou ser uma
sete-meia-cinco automtica. Nick logo notou seu olhar.
     -- No se preocupe, pastor. Isso no  pra voc -- Nick voltou-se
rapidamente para Carlos, que retribuiu o olhar. --A no ser,  claro, que
queira uma.
     -- No, obrigado. Creio que no preciso disso -- disse Alan, com
um sorriso desengonado por estar no momento apenas com a roupa de
baixo.
     Nick gargalhou e jogou a arma para Carlos, que pegou-a e a ps de
lado. Caminhou at a carroceria de um Chevrolet no fundo da oficina e
voltou com outras roupas. Alan reconheceu as roupas antigas que se
podia sentir o odor de suor de longe. Elas foram atiradas para si e
comeou a vesti-las ligeiramente.
     Ao acabar de colocar as suas vestes, Carlos empunhou a arma e ps
atrs de si, presa  ala da cala, por baixo do palet. Nick pegou outra
arma de fogo, desta vez uma mini-metralhadora e Alan ficou
impressionado com ela. Porm, sabia que a sua arma era mais poderosa
que todas as outras e tinha mais uma vantagem: no falhava nunca. Sua
f garantia isso.
     Carlos sentia sua respirao ofegante e as batidas do corao
irregulares. A hora se aproximava, todavia, parecia mais correr ao seu
encontro. Torcia para que tudo desse certo, mas conscientizava-se que
apenas torcer no era suficiente. Tinha de cuidar para que tudo sasse
bem, ou pelo menos, chegasse perto disso.
     A verdade era que isso era quase impossvel de acontecer diante das
circunstncias, e Carlos conhecia esse risco. Ouviu Nick destravar sua
potente arma com um sonoro "click", sorrindo sinistramente ao fazer
isso. Parecia visivelmente excitado e, como prova, confidenciou:
     -- Cara, faz tanto tempo que no fao isso que est me dando um
frio na barriga!
     --  bom que isso pare -- disse Carlos, sem sorrir. -- No o quero
nervoso quando tudo estiver acontecendo.
     Nick fitou-o indignado.



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     -- Voc est brincando? Quando foi que Nick Gradinno borrou nas
calas em situaes como essa, meu camarada? Eu lhe digo: Nunca, meu
chapa!
     -- S no quero que esta seja a primeira vez -- explicou Carlos.
Caminhou at uma mesinha onde abriu uma gaveta e retirou de dentro
a algema. Prendeu-a ao seu pulso esquerdo, olhou para Alan e andou
at se postar  sua frente. Fitou seus olhos e perguntou-se no que ele
estaria pensando... ou planejando. Apontou um banco para Alan se
sentar e este compreendeu.
     Carlos respirou fundo e coou a barba por fazer.
     -- Muito bem -- disse, sem desviar o olhar --, talvez voc no
esteja entendendo o que est acontecendo, mas creio que j deve ter
pegado alguma coisa no ar. O que est prestes a acontecer talvez seja a
coisa mais perigosa que voc ir presenciar. Eu digo ir, porque, como
eu j lhe disse antes, voc est nisso, queira ou no e...
     Alan o interrompeu:
     -- Eu nunca refutei isso, Carlos.
     Carlos pensou por um instante.
     -- Est certo. A verdade  que preciso de voc. A vida de uma
pessoa depende de mim e... agora de voc tambm -- houve uma pausa
e Carlos observou Alan, balanando a cabea em compreenso.
Continuou: -- Dei suas roupas de volta para que vestisse e agora voc
est vendo a algema no meu pulso e deve estar se perguntando: para
qu isso? Bem, eu lhe digo. O cara com quem... iremos nos encontrar,
Vip,  um cara dos mais espertos, e se desconfiar que fomos a algum
lugar ou que falamos com algum suspeito, ele matar... -- era doloroso
pensar que isso pudesse acontecer. -- ... ele matar Nicole, sem pensar,
assim como mataram aquele maldito policial. Droga, isso no pode
acontecer! -- levou as mos  cabea.
     -- Tenha calma, cara, vai dar tudo certo. Eu garanto -- disse Nick.
     -- Desculpe-me, Nick, sem querer ofender, mas nem voc pode me
garantir isso.
     Carlos fechou os olhos e ento pde ouvir a voz de Alan:
     -- No sei se lembra, Carlos, mas na caminhonete que... que
pegamos emprestado, falei, quando voc me perguntou o que eu estava
fazendo l no meio da transao, que queria ajud-lo. No sei se acredita
em mim, mas  isso que vou continuar fazendo: ajudando voc.
     Pairou um momento de silncio. Carlos olhou para Nick, que no
teve palavras para se pronunciar. Ento, com uma respirao que os dois
outros puderam ouvir, disse:


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     -- Bem, sendo assim... -- esticou o brao esquerdo para Alan, e este
tomou o seu lado da algema e prendeu-a ao seu pulso direito. Olhou de
volta para Carlos, que no sabia o que pensar daquele estranho homem
diante de si. Est blefando, algo gritou dentro do seu ntimo e, se
realmente estava, tinha que admitir que ele era um grande ator
dramtico. Muito bem, pensou, se esse cara estiver mentindo, ter apenas
mais alguns minutos de vida.
     Os pensamentos de Carlos foram interrompidos ao ouvir Nick
dizendo:
     -- A hora chegou, amigo.
     Carlos fitou os dois homens e tornou a respirar fundo. Balanou
cabea, tentando organizar os pensamentos que o conturbavam. A hora
chegou e parecia golpe-lo. Seu corao martelava, sentia o sangue fluir.
Ps a mo para trs e certificou-se de que a arma estava ali, ao seu
alcance, de prontido, pronto para entrar em ao. Estava preparado.
     Enquanto Alan fazia uma orao silenciosa, Nick puxou uma
correntinha dourada de dentro da camisa e, beijando-a, fez o sinal da
cruz. Carlos reconheceu o velho cacoete do amigo, mas no entendia a
atitude do outro homem, de apenas fechar os olhos e baixar a cabea.
Talvez fosse algum tipo de concentrao oriental ou algo parecido.
Durante toda a sua vida, nunca se entregou a esses caprichos. Sua norma
era: ficar de cabea sempre erguida e alerta, seno a morte era certa. Viu Alan
levantar a cabea e fit-lo. Carlos se desvencilhou, olhou para Nick
Gradinno, que j havia cessado de balbuciar coisas incompreensveis e
indagou:
     -- Tudo certo?
     -- Humm-hum. Estou pronto.
     Os dois homens voltaram-se para Alan. Era como se os holofotes se
voltassem para ele.
     -- Estou pronto -- informou, balanando a cabea afirmativamente.

                                   &&&

    Um minuto depois, a oficina de desmanche de carros de Nick
Gradinno estava completamente deserta e em total escurido.




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          Sobre o Autor e suas Obras
                         Naasom A. Sousa nasceu no dia 7 de janeiro
                     de 1978 na capital cearense, Fortaleza. Aos 13
                     anos mudou-se para Belm do Par e logo aps
                     para Ananindeua, no mesmo estado. Foi ali que
                     se encontrou verdadeiramente com o Cristo
                     Salvador e se interessou pela leitura depois de ler
                     "Este Mundo Tenebroso II" de Frank E. Peretti.
                     Da ento passou a escrever romances. Tambm
                     se tornou cantor e compositor, e se apresenta
                     apenas em templos evanglicos (por enquanto).

                          Atualmente, Naasom A. Sousa est casado
                      com Ivone Sousa e mora em Paragominas,
municpio  300km da capital paraense. Seu e-mail para contato 
letrassantas@ieg.com.br / naasom@bol.com.br e seu site na rede :
www.letrassantas.hpg.com.br


    Outras obras publicadas:

     "Do Deserto ao Osis"  uma novela que foi inspirada nas tantas
dificuldades e tribulaes que enfrentamos no dia-a-dia e que muitas
vezes pensamos que vamos perecer. Porm, por mais que pensemos que
estamos desamparados pelo Criador, Ele sempre tem um jeito de
provar-nos o contrrio.

     "O Amor da Minha Vida"  uma nova roupagem de sua novela
romntica escrita em meados de 1996, e este tambm  seu primeiro
trabalho integral distribudo pela Internet.




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